Volta às aulas

Ensino multisseriado avança no território Kalunga (GO), maior quilombo do país

Ao menos oito escolas passaram a adotar novas turmas multisseriadas sem consultar comunidades quilombolas

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Cavalcante – GO – Quilombo Kalunga, Comunidade Engenho II
Cavalcante – GO – Quilombo Kalunga, Comunidade Engenho II | Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

De acordo com um documento ao qual o Brasil de Fato DF teve acesso, ao menos oito escolas do território Kalunga, vinculadas à rede estadual de educação de Goiás, passaram por multisseriação de turmas no início deste ano letivo. A alteração no formato mudou o cotidiano de estudantes quilombolas dos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás que já vem enfrentando dificuldades com o sistema há alguns anos. 

Pesquisadores e extensionistas do Coletivo Terra em Cena, vinculado ao campus Planaltina da Universidade de Brasília (UnB) – pólo conhecido pela Licenciatura em Educação do Campo – se manifestaram contrárias à implementação da multisseriação no território. De acordo com a nota, o projeto da Secretaria de Educação do Estado de Goiás (Seduc), foi implementado de forma “anti-democrática, sem consulta às comunidades de abrangência das escolas”. 

A multisseriação de turmas agrupa em uma mesma sala estudantes de diferentes idades sob o cuidado de um único professor. Nessa proposta, em um mesmo tempo, conteúdos e habilidades diferentes previstas na matriz curricular de cada ano são aplicadas em um mesmo ambiente. Profissionais da educação ouvidos pela reportagem e que atuam no território preferiram não se identificar por medo de perseguição política.

O movimento de multisseriação vem acontecendo no território há alguns anos. Conforme relato de educadores ao Brasil de Fato DF, as primeiras unidades que adotaram o modelo foram o Colégio Estadual Quilombola Kalunga Professor José Cabral de Araújo, em Cavalcante; Salustriano Pereira das Virgens, em Monte Alegre de Goiás; e Mãe França, em Teresina de Goiás.

Para este ano, as oito escolas que passam a ter novas turmas multisseriadas estão localizadas em ao menos sete comunidades do território Kalunga. A reportagem solicitou à Seduc a lista de unidades estaduais com turmas multisseriadas em Goiás, no entanto, não constavam as unidades citadas pelos profissionais. De acordo com a lista, apenas os colégios implementados no ano passado estão com turmas de ensino fundamental I e II multisseriadas – salvo a escola Mãe França, onde as turmas multisseriadas vão até o 9º ano.

De acordo com profissionais da rede estadual de educação, o que explicaria a diferenciação de dados é a existência das novas turmas em escolas “extensões das unidades escolares matrizes”, demanda do território para garantir maior acesso das comunidades à educação.

O Brasil de Fato DF questionou a Seduc sobre a existência de novas turmas para este ano. De acordo com a secretaria “as matrículas para o ano letivo de 2026 ainda estão em andamento, assim como o período de modulação, remanejamento e consolidação”. Dessa forma, pelo cronograma escolar, a inclusão de novas turmas multisseriadas ainda não estaria definida. 

De fato, o período de matrículas segue aberto durante todo o ano, mas, conforme os profissionais da educação, à época do início das aulas os alunos já haviam sido recebidos com um planejamento prévio das turmas. Muitas delas, também, em regime de Goiás Tec – projeto estadual que trata da substituição de professores presenciais por televisores -, mesmo após questionamentos sobre a qualidade do ensino oferecido para comunidade. 

Com base na lista divulgada pela Seduc, Goiás conta com 30 escolas com turmas multisseriadas, grande parte delas nos anos finais do ensino fundamental. Cerca de 96% delas estão em áreas categorizadas como rurais, o Colégio Estadual Indígena Maurehi, em Aruanã, é a única unidade com diferenciação. A escola fica localizada dentro do território Buridina, que compartilha o centro urbano da cidade às margens do Rio Araguaia.

Precarização

As principais justificativas da Seduc para permanência da multisseriação no território, de acordo com profissional da educação estadual, tem sido a baixa quantidade de estudantes por turmas, “a necessidade de cortes de gastos” e a falta de profissionais para atuarem na região “de difícil acesso”. 

“Essa movimentação perpetua a desigualdade educacional, atravessada pelo racismo epistêmico brasileiro”, analisa um dos profissionais do território Kalunga que prefere não se identificar. 

Quando questionada sobre os critérios para adoção das turmas, a secretaria respondeu que “a constituição de turmas multisseriadas ocorre quando o número de matrículas por série é inferior ao mínimo necessário para a formação de turmas seriadas regulares”. Ainda que, para o território, “o processo de organização do modelo de ensino é precedido por análises técnicas, fundamentadas no histórico de matrículas e no acompanhamento do fluxo escolar das unidades”. 

Em conversa com a reportagem, a professora adjunta da UnB Eliene Novaes, explica que “no Brasil, a multisseriação foi usada como uma estratégia de precarização ao longo de muitos anos”, processo esse que vem “sobrecarregando professores e docentes, pequenas escolas, sem infraestrutura, sem condições de atendimento”.

Dessa forma, a multisseriação é usada como “mecanismo de diminuição de custos”, o que vem prejudicando, por exemplo, comunidades fora dos grandes centros urbanos.

Sobrecarga

De acordo com os professores do território Kalunga, o modelo representa uma sobrecarga não remunerada ao docente, e, por outro lado, uma diminuição drástica no tempo de aprendizado do estudante. Isso porque o professor precisará atender demandas apresentadas a cada grupo/série, no mesmo momento em que, inevitavelmente, a segunda turma (ou quantas tiverem) ficará ociosa.

“O Estado precariza, tira as funções docentes para depois dizer que não tem profissional para assumir essas funções. Começa pela ausência total de concurso. Tem professores no território que estão há mais de oito anos com contrato temporário renovado a cada seis meses. Isso, além de estabelecer uma condição de precarização do trabalho, estabelece uma relação de subordinação, em que o professor é penalizado cada vez que ele diverge da secretaria”, analisa a professora da UnB Eliene Novaes.  

“No caso do Goiás a gente tem acompanhado, historicamente, um esvaziamento da função do professor, primeiro com o Goiás Tec, transferindo o trabalho do professor para uma televisão e agora a multisseriação. Existe um laboratório de esvaziamento da escola no seu sentido literal”, completa Novaes. 

Em relação à situação dos docentes, a secretaria informou que não há compensação específica, “seja em carga horária ou remuneração diferenciada, para os docentes que atuam em turmas multisseriadas, uma vez que essa organização decorre de critérios demográficos e não implica alteração no vínculo funcional ou na jornada legal do professor”.

Para garantir a adaptação ao modelo, a rede oferece “suporte ao planejamento”, onde os docentes contam com materiais didáticos e plataformas educacionais disponibilizadas pela Seduc para as aulas.

Falta de diálogo

Professores e responsáveis por alunos alegam não ter tido qualquer diálogo aberto com a Seduc para entendimento, ou escolha, pelo sistema de ensino multisseriado na comunidade. “Quando meus filhos começaram a estudar em multisseriação não teve uma reunião com os pais, não teve explicação e só foi implantado. Muitas famílias ainda acham que isso foi uma mudança normal”, relata uma mãe. 

Conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e o próprio Regimento Interno da Associação Quilombola Kalunga (AQK), as comunidades e povos originários e tradicionais devem ser consultados antes de intervenções em seus respectivos territórios. Ao ser questionada, a Seduc afirmou que apresentou “possibilidades de organização das turmas para o ano letivo seguinte” nos meses de setembro e outubro.

Após o retorno da secretaria, lideranças da comunidade, profissionais da educação e familiares reforçaram a falta de consulta para implementação das turmas no território. De acordo com um dos professores, o episódio citado pela secretaria tratou de uma reunião para extensão de uma unidade escolar na comunidade Diadema, em Teresina de Goiás. Conforme noticiou o Brasil de Fato DF à época, a reivindicação buscava integrar os segmentos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio na unidade.

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Editado por: Clivia Mesquita

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