ALERTA

Com qualidade do ar ruim, Distrito Industrial de São Luís (MA) tem metade das estações de monitoramento de poluição previstas em lei

Impactos ameaçam especialmente comunidades tradicionais e seus modos de vida

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Os altos índices de poluição têm afetado a saúde humana, o meio ambiente e a economia local.
Altos índices de poluição têm afetado a saúde humana, o meio ambiente e a economia local | Crédito: Luana Appel

Nesse início do ano, duas estações de monitoramento da qualidade do ar em São Luís (MA) vêm apontando qualidade do ar péssima e outras duas, qualidade ruim, em bairros da região do polo industrial do município. No entanto, a poluição atmosférica na capital maranhense pode ser maior, já que apenas seis das doze estações previstas em lei para a operação do polo industrial foram instaladas.

Além disso, o Movimento de Defesa da Ilha aponta que ocorreram mudanças nos índices de monitoramento de poluição a partir de 2024, sem explicação por parte da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema).

Grande polo industrial por sua posição estratégica, São Luís é marcada por atividades de mineração, portuárias e pela queima de combustíveis fósseis, principais responsáveis por levar a poluição do ar acima do considerado seguro pelos órgãos regulatórios.

A rede de monitoramento é decorrência de uma representação feita em 2007, na época pelo advogado ambientalista Guilherme Zagallo em nome do Movimento Reage São Luís, quando do licenciamento ambiental do distrito industrial, mas só foi instalada em 2020.

O último levantamento feito pelo movimento, a partir de dados divulgados pela Sema, em 2023, apontava que a cidade entrou 903 vezes em estado de emergência.

Desde então, o movimento, formado por ambientalistas, lideranças sociais, pesquisadores e estudantes com foco na preservação socioambiental, denuncia a falta de transparência e de ação dos órgãos competentes.

“Em 2024 e 2025, a Sema não divulgou qualquer resultado, qualquer relatório quanto aos níveis de poluentes, limitando-se a retirar do ar por três meses, em 2024, o sistema da rede pública, desconectando da internet, e quando voltou, aparentemente os níveis de poluição apresentam parâmetros menos graves do que aqueles apontados no relatório de 2023, mas isso é uma sensação empírica, uma vez que os dados não foram divulgados”, explica o advogado ambientalista Guilherme Zagallo.

Polo siderúrgico e industrial na Ilha de São Luís | Crédito: Divulgação

Segundo o movimento, o nível de poluição segue muito elevado e os últimos dados disponíveis (de 2023), já considerados defasados, indicam a emissão de pelo menos 48 mil toneladas de poluentes em São Luís e região.

“A atividade industrial de São Luís aumentou, então é muito provável que os números sejam mais elevados e temos aí um volume enorme de emissão de dióxido de enxofre, óxido de nitrogênio, material particulado, monóxido de carbono, além da emissão de pelo menos 630 quilos de mercúrio no ar, o que faz com que as águas e os peixes de São Luís estejam contaminados por metais pesados decorrentes dessa poluição que vem, sobretudo, da queima de carvão mineral, aumentando o adoecimento e a mortalidade da nossa população”, denuncia Zagallo.

Poluição atinge pescadores

Quem sente na pele e acompanha esse impacto há mais de uma década é Alberto Cantanhede, pescador na comunidade do Taim, zona rural de São Luís, e ativista ambiental.

“A gente percebe a piora nisso, a gente tem hoje cada vez menos organismos aquáticos que eram comuns no nosso ambiente, como a craca, a ostra, os sururus, os mexilhões, que estão cada vez mais escassos, mais raros, e nos últimos anos temos vivido pelo noticiário e na prática, a mortandade de peixes no golfão maranhense”, declara Cantanhede.

Cantanhede acompanha com preocupação os impactos da poluição. Foto: Camila de Almeida

Conhecido como Beto do Taim, a comunidade onde vive Cantanhede enfrenta graves problemas de poluição de ar e da água, frequentemente associados à vizinhança com o Distrito Industrial, incluindo empresas como a Alumar (Consórcio de Alumínio do Maranhão) e atividades da Vale.

“No interior da ilha de São Luís percebemos a diminuição na germinação dos frutos comuns da nossa região, como o murici, o cajá, a manga, a juçara, o buriti. São frutos que ano após ano estão diminuindo a produtividade e isso tem a ver sim com a poluição, com o aquecimento, com tudo o que incide sobre a nossa grande ilha”.

Na contramão da poluição gerada pelos grandes empreendimentos, iniciativas da sociedade civil apontam caminhos para a restauração e conservação ambiental. Um exemplo é a proposta de criação da Reserva Extrativista Tauá-Mirim, que protegeria mais de 16 mil hectares de florestas tropicais, manguezais e rios da região.

“Construímos desde 2003 a alternativa que é a proposta de Reserva Extrativista Tauá-Mirim, que tem seu processo tecnicamente pronto e viabilizado, atestado como viável, no entanto, preso nas amarras da burocracia ou da falta de vontade política”, explica Cantanhede.  

O território da Resex Tauá-Mirim é formado pelas comunidades Taim, Rio dos Cachorros, Limoeiro, Porto Grande, Cajueiro, Vila Maranhão, Portinho, Jacamim, Amapá, Embaubal, Ilha Pequena e Tauá-Mirim, onde cerca de 2.200 famílias vivem têm como principais atividades econômicas a pesca artesanal, a agricultura familiar e o extrativismo vegetal, modos de vida que contribuem diretamente para a conservação ambiental.

“Temos consciência de que ela [a Resex] é o único instrumento jurídico que vai, ao mesmo tempo, garantir a estabilidade jurídica para as populações e também o freio nessa ampliação da acumulação de poluentes em São Luís”, finaliza Cantanhede.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) foi procurada para responder sobre a falta de transparência e atuação apontadas na reportagem, mas houve retorno. Caso haja posicionamento da secretaria, a matéria será atualizada.

Editado por: Luís Indriunas

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