A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco (Adufepe) divulgou nota pública em que diz ter dado entrada com uma notícia de fato, tanto no Ministério Público de Pernambuco (MPPE), quanto no Federal (MPF), pedindo a análise da conduta do líder religioso Silas Malafaia, além da adoção de medidas contra o pastor e em defesa de direitos coletivos. No dia 31, durante o festival gospel The Send, na Arena de Pernambuco, o fundador da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec) acusou os educadores de mentirem, enganarem e manipularem os jovens.
A nota da Adufepe explica que cabe aos ministérios públicos analisarem o discurso de Malafaia e avaliarem se a ação se tornará uma ação civil pública ou não. A entidade também pede que, caso seja identificado algum dano moral coletivo aos professores, que o órgão exija uma retratação pública e uma indenização. “Além da promoção de outras medidas adequadas à tutela da dignidade da docência e da confiança social na educação”, diz o documento divulgado pela entidade representativa dos professores da UFPE.
“O pastor Silas Malafaia destila sua execrável retórica para, mais uma vez, acusar professores de enganar estudantes e impor a ideologia de gênero. (…) Malafaia atribuiu à atuação docente o controle do pensamento de estudantes por meio do marxismo cultural, afirmando sem o menor pudor que os alunos estão sendo manipulados em prol de um projeto político”, diz o documento público divulgado pela Adufepe.
A entidade aproveita para fustigar o pastor, pontuando que ele “ foi incluído no inquérito da Polícia Federal que apura a tentativa de golpe de Estado sob suspeita de coação no curso do processo, organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático”. “Não é de hoje que líderes religiosos atacam a educação para sustentar estruturas de poder. A manutenção da bitola se ergue em discursos inflamados sobre doutrinação, marxismo e, claro, agenda de costumes. Tangendo manadas, conduzem fieis para as urnas pautados num falso moralismo travestido de conservadorismo”, diz a nota.

Palco do evento, a Arena de Pernambuco é um espaço público sob responsabilidade do Governo de Pernambuco. Administrado pela política evangélica Michele Collins (PP), nomeada para o cargo pela governadora Raquel Lyra (PSD), o equipamento tem recebido eventos religiosos, especialmente voltados para o público protestante.
Considerado por alguns como um movimento, o The Send é um evento de caráter religioso e indiscretamente político, adotando como marca não um símbolo relacionado ao cristianismo, mas uma seta apontando para a direita. O fundador do evento, Lou Engle, é uma influente liderança da direita cristã no mundo e já deu declarações públicas a favor da criminalização da homossexualidade. Apesar de anunciarem a expectativa de 100 mil no evento de Pernambuco, as imagens mostram uma Arena esvaziada. Análise realizada pelo Chat GPT estimou, durante o discurso de Malafaia (imagem abaixo), um público de entre 15 mil e 20 mil pessoas.
O discurso de Malafaia
Durante os seus 17 minutos de fala em terras pernambucanas, o líder da Advec adota um tom inegavelmente político-ideológico e a postura colérica habitual. “O que acontece hoje: jovens da igreja entram na universidade federal ou estadual e a cabeça deles é virada. Que fé é essa? Que vida cristã é essa? Que experiência é essa?”, diz Malafaia, que critica a falta de firmeza desses jovens para defender valores conservadores. “O The Send é para te preparar para a faculdade e para a escola. (…) Aqui é uma ajuda para te preparar para manifestar o cristianismo onde você colocar seu pé”, avalia o pastor.
Ele continua. “Acorda, moçada. Você está sendo enganado por professores. Hoje existe uma coisa séria: o controle do pensamento pelo marxismo cultural. Se você pensar diferente, você é banido. Se você for contra a ideologia de gênero, contra o aborto, contra práticas homossexuais, se você for contra essa cultura, você é ridicularizado, debochado. Vocês têm que estar preparados para esse enfrentamento”, convoca. “Vou dar a receita para você brilhar onde você botar teu pé. Pode vir ‘esquerdopata’ (sic), comunista, socialista: vão ter que se dobrar diante de você”, completa Malafaia, que no mesmo dia participou do The Send em Belo Horizonte (MG).

Formado em teologia e psicologia, se aventurou também numa análise histórica e política do cristianismo protestante no mundo. “Teu professor mente e te engana. A mais importante tradição no mundo ocidental é o Cristianismo. É o principal fator para a criação da Europa e das Américas. Vem do Cristianismo os Direitos Humanos – não vem de comunista e nem de socialista. Vem do Cristianismo a valorização da mulher, da criança, do idoso, o casamento e a vida em família. As maiores universidades do mundo foram criadas por cristãos, não por ‘esquerdopatas’ (sic). As maiores obras sociais do mundo foram e têm sido realizadas pelos cristãos”, opinou o pastor.
Ignorando o movimento renascentista, Malafaia disse que “a partir da Reforma Protestante se produziu ciência como nunca no mundo. A partir da Reforma protestante vêm o Estado laico, a escola pública. A Reforma Protestante faz com que gente da classe baixa conquiste poder e riqueza. E lá, na tua faculdade, estão dizendo que é o comunismo”, discursou ele, que em 2019 acumulava um patrimônio pessoal de US$ 4,5 milhões (ou mais de R$ 23 milhões, na cotação atual). Ele também considera o movimento liderado por Martinho Lutero como central na transição da sociedade feudal para a economia mercantilista e burguesa. “A Reforma Protestante fez a passagem do mundo medieval para o mundo moderno”, pontua.
Segundo Malafaia, “se alguém da Coreia do Norte tentar ir para a Coreia do Sul, é fuzilado, mas alguém do Sul pode ir para o Norte”. “Se a coisa é tão boa, por que ninguém quer ir para Cuba? Por que ninguém quer ir para a Coreia do Norte?”, discursou. As “duas coreias” viveram uma guerra entre 1950 e 1953, cessando a violência após assinarem um armistício. Mas até hoje nunca foi assinado um tratado de paz, de modo que as coreias ainda vivem um conflito tecnicamente ativo, estando oficialmente em guerra. Sul coreanos só conseguem entrar no Norte através da China.
