boa vizinhança?

Democratas exigem fim de intervencionismo dos EUA na América Latina: ‘Contraponto importante, mas com pouca chance de se tornar realidade’

Especialistas consideram proposta boa, mas que há pouca chance de se tornar realidade

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Secretário de Estado, Marco Rubio
Secretário de Estado, Marco Rubio | Crédito: Jacquelyn Martin / POOL / AFP

Um grupo de congressistas do Partido Democrata apresentou uma resolução no Congresso dos Estados Unidos exigindo que o Departamento de Estado abandone a Doutrina Monroe, que abre caminho para intervenções em países do continente americano.

O texto da deputada Nydia Velázquez propõe “uma política de ‘Nova Boa Vizinhança’, concebida para fomentar melhores relações e aprofundar uma cooperação mais efetiva com todos os países do Hemisfério Ocidental”.

A Doutrina Monroe surgiu no começo do século 19, a partir da oposição dos Estados Unidos à interferência das potências europeias em países que passavam por um processo de emancipação. Na prática, marcou o início de décadas de invasões, intervenções militares e golpes orquestrados pela CIA contra governos legítimos. A volta de Donald Trump à Casa Branca não apenas reativou a doutrina, mas a turbinou com uma força sem precedentes em décadas.

O documento da Estratégia de Segurança Nacional, publicado em dezembro passado, destaca a preeminência dos EUA no Hemisfério Ocidental, o acesso a geografias-chave em toda a região e o uso da presença militar estadunidense no hemisfério para estabelecer ou expandir o acesso a locais estrategicamente importantes.

Símbolos importam

À reportagem, a editora do People´s Disparch Zoe Alexandra diz que entre os estadunidenses “cresce a oposição à política externa agressiva de Trump, especialmente à Doutrina Monroe”.

Ela explica que, embora os abusos recentes do magnata causem indignação até mesmo entre seus apoiadores, “a intervenção dos EUA na América Latina, e especialmente as guerras híbridas em curso contra a Venezuela e Cuba, têm sido um esforço totalmente bipartidário”.

“Portanto, embora essa iniciativa na Câmara seja significativa, ela precisa ir muito além. Os Estados Unidos precisam remover imediatamente todas as sanções contra Cuba e Venezuela para que esses países possam desenvolver suas economias, comercializar e funcionar sem serem sufocados ou ameaçados por guerra.”

Fim das sanções

A proposta de Velázquez lista os abusos cometidos por Washington no Hemisfério Ocidental: a “guerras das bananas” do início do século 20, que marcou as intervenções no Caribe e América Central, o golpe contra Jacobo Arbenz na Guatemala, o embargo contra Cuba, as deposições de Salvador Allende no Chile e João Goulart no Brasil, o apoio à Operação Condor entre 1975 e 1980, os esquadrões da morte em El Salvador, os Contras na Nicarágua, a invasão de Granada, o financiamento do golpe de 1991 no Haiti e as políticas de austeridade do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A essa lista de acusações, o texto acrescenta várias outras, todas fazendo referência a Trump. Incluem-se a interferência do presidente dos EUA nas eleições hondurenhas, ameaçando retirar o apoio econômico caso os eleitores não escolhessem o candidato de direita, Nasry Asfura; o indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que cumpriu 45 anos de prisão por tráfico de drogas, e as ameaças de assumir o controle do Canal do Panamá; e a pressão exercida sobre o Brasil, por meio de tarifas e intimidação de ministros do Supremo Tribunal Federal, para isentar o ex-presidente Jair Bolsonaro de responsabilidade pela tentativa de golpe de Estado.

Há também a deportação de centenas de pessoas para a prisão de Nayib Bukele, em El Salvador; a campanha de execuções extrajudiciais de supostos traficantes de drogas em águas caribenhas; e o “ataque militar não autorizado” para sequestrar o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua atual custódia em uma prisão de Nova York (EUA), onde aguarda julgamento por narcoterrorismo.

“Penso que se trata de uma iniciativa simbolicamente importante, pois comunica a perspectiva do dissenso em relação às iniciativas trumpistas, tanto pra audiência doméstica quanto externa. Sobretudo em um ano de eleições de meio de mandato, esse contraponto é importante”, disse ao Brasil de Fato a analista política Clarissa Forner.

A professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) pondera que há pouca chance de a proposta se tornar realidade, dado o domínio trumpista no Congresso estadunidense. Ela cita ainda o apoio, inclusive de democratas, à algumas das intervenções “numa lógica de militarismo e imperialismo bastante conhecida do funcionamento da política externa norte-americana”.

“Pensando na repercussão entre os americanos, não tenho dúvidas de que há oposição, principalmente no eleitorado mais progressista, como seria de se esperar, mas ela se torna mais limitada quando observamos o eleitorado conservador e o eleitorado trumpista mais radical.”

A proposta da congressista inclui o fim de todas as sanções econômicas unilaterais, incluindo o embargo a Cuba; o fortalecimento do papel do Congresso, marginalizado após o retorno de Trump ao poder, na política externa; a desclassificação de todos os arquivos do governo dos EUA relacionados a golpes de Estado; e a colaboração com os países latino-americanos em uma profunda reforma da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Editado por: Maria Teresa Cruz

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