CULTURA POPULAR

Urca e Ufca avançam no debate para implantação da Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura

Com investimento previsto entre R$ 300 e R$ 500 mil, Escola aposta na preservação da memória e formação artística

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matriz de xilogravura
O projeto tem como base a Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte, símbolo histórico da produção cordelista no País | Crédito: CeArt

A implantação da Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura avançou após reunião entre representantes da Universidade Regional do Cariri (Urca), da Universidade Federal do Cariri (Ufca) e do Ministério da Cultura (MinC), consolidando um debate estratégico sobre a criação de um espaço permanente de formação, pesquisa e extensão dedicado à literatura de cordel e à xilogravura. A iniciativa tem como eixos centrais a preservação do patrimônio cultural, a salvaguarda da memória e o fortalecimento da cultura popular nordestina e brasileira, a partir do Cariri.

Para o secretário de Formação Artística e Cultural, Livro e Literatura do MinC, Fabiano Piúba, a escola é construída em consonância com as políticas públicas do Ministério da Cultura, especialmente no campo da formação artística e cultural e das políticas do livro, leitura e literatura. “O projeto dialoga diretamente com a atuação da secretaria, ao reunir essas duas frentes estratégicas em uma proposta integrada”, afirma o secretário. De acordo com Piúba, o MinC avalia a escola como um instrumento relevante para a preservação e valorização da literatura de cordel e da xilogravura, além de reconhecer e fortalecer o papel dos mestres e mestras dessas tradições, contribuindo para a continuidade e a transmissão desses patrimônios culturais brasileiros.

Fanka Santos, professora titular do curso de Biblioteconomia da Ufca, pós-doutora em linguística e coordenadora da escola, avalia que a iniciativa assume um papel estratégico na preservação e ressignificação da memória cultural nordestina. De acordo com a professora, o projeto de implantação da escola vai além da formação técnica de artistas e alcança também o público, a audiência e os ouvintes dessas linguagens, por meio de um currículo voltado ao desenvolvimento econômico, pedagógico e sustentável do território. “A escola passa a exercer um protagonismo fundamental ao cuidar da ‘inteligência social e cultural’ do cordel e da xilogravura, o que envolve o tratamento de acervos, a divulgação das linguagens, o incentivo à pesquisa, à economia criativa, à editoração e à comunicação”, disse a coordenadora.

A Lira Nordestina, desde sua origem, sempre valorizou profundamente a educação e a formação cultural, sendo um espaço precioso para a comunidade | Crédito: Kity Ramos/Lira Nordestina

O projeto surge em um contexto de valorização dos saberes tradicionais e de reconhecimento do papel das universidades públicas na formulação de políticas culturais. Ao propor a criação da escola, a parceria entre a Urca, Ufca e o MinC, busca institucionalizar práticas culturais que, por décadas, foram mantidas principalmente por meio da oralidade, da transmissão comunitária e da atuação de mestres e mestras da cultura popular, garantindo sua continuidade e ampliando o acesso ao conhecimento.

Aglaíze Damasceno, Pró-Reitora de Cultura (ProCult) da Ufca, artista e professora adjunta do curso de Design da universidade, além de integrante do Instituto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes, destaca que a escola surge para fortalecer as duas linguagens que nomeiam a escola, buscando também a valorização e divulgação da cultura no Cariri cearense. “A parceria da Ufca e da Urca soma e promove o encontro de duas instituições de ensino através das manifestações da cultura popular e da academia, e promove ainda o ensino, a pesquisa e a cultura”, disse a professora.

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Desafios da preservação da literatura de cordel e xilogravura

A proposta da Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura reconhece essas expressões como patrimônios culturais que demandam ações sistemáticas de preservação, documentação e difusão. Nesse sentido, a iniciativa pretende contribuir para a organização e salvaguarda de acervos, a produção de registros históricos e a valorização dos artistas populares como agentes fundamentais da memória cultural. A respeito da atuação, a escola fruto da parceria entre as instituições será construída como um espaço de referência para o estudo dessas linguagens, articulando conhecimentos acadêmicos com os saberes tradicionais, e promovendo o reconhecimento institucional dessas práticas culturais.

Ao tratar dos desafios para organizar, preservar e dar acesso aos acervos de cordel e xilogravura, Santos destaca, inicialmente, a necessidade de espaços físicos adequados. Segundo a professora, é fundamental a criação de lugares de memória, como escolas, bibliotecas especializadas ou museus capazes de acondicionar essa produção intelectual dos povos tradicionais nordestinos. Fanka ressalta ainda que, mesmo nas bibliotecas públicas, o cordel só passou a ocupar maior espaço recentemente, sobretudo após o reconhecimento dessas linguagens como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2018.

Com dificuldades financeiras, a Lira foi vendida ao Estado do Ceará em 1982 e, seis anos depois, tornou-se patrimônio da URCA | Crédito: Kity Ramos/Lira Nordestina

Outro desafio apontado pela coordenadora do projeto é a necessidade de profissionais da informação, como bibliotecários, à frente desse processo, responsáveis pela organização, classificação, indexação e disponibilização dos materiais ao público. O financiamento também aparece como entrave histórico, uma vez que o cordel, a cantoria e a xilogravura foram, durante décadas, tratados como expressões “menores” pelas políticas públicas. Para a professora, esse cenário começa a ser corrigido com iniciativas como a escola, que contará com financiamento do MinC.

“Em relação ao financiamento citado por Fanka, o MinC já recebeu formalmente a proposta apresentada pela Ufca. A partir do mês de março, terá início a elaboração do plano de trabalho para a descentralização de recursos federais, com previsão de investimento entre R$ 300 mil e R$ 500 mil”, garantiu o secretário. De acordo com o gestor, os recursos serão destinados à implementação do projeto, que contempla ações como tratamento de acervos, processos formativos, intercâmbio de saberes, aulas, espetáculos e valorização dos mestres e mestras da literatura de cordel e da xilogravura.

Ensino, pesquisa e extensão integradas

Um dos principais diferenciais da proposta é a integração entre ensino, pesquisa e extensão, ampliando o alcance da escola para além do ambiente acadêmico. A iniciativa prevê ações formativas voltadas a estudantes, pesquisadores, artistas e comunidades, além do desenvolvimento de pesquisas sobre a história, os processos criativos e os impactos sociais do cordel e da xilogravura. “É papel da universidade, por meio do ensino, da pesquisa e da extensão, manter viva a memória da cultura local”, destaca Damasceno.

Em 1932, o artista alagoano José Bernardo fundou, em Juazeiro do Norte, uma das principais editoras do país, inicialmente conhecida como Tipografia São Francisco, que mais tarde passou a se chamar Lira Nordestina | Crédito: Kity Ramos/Lira Nordestina

Na dimensão formativa, Piúba defende que inserir os saberes tradicionais no centro dos processos de estudo e formação é fundamental para que a iniciativa dialogue diretamente com as políticas de valorização da cultura popular. “As ações previstas como aulas, espetáculos, intercâmbio de saberes e a valorização dos mestres e mestras da literatura de cordel e da xilogravura reforçam o reconhecimento desses agentes como protagonistas da formação cultural”, disse.

Já a dimensão da extensão universitária assume um papel estratégico ao promover o diálogo direto com comunidades, coletivos culturais, artistas populares e mestres da tradição, fortalecendo a relação entre universidade e território, contribuindo para a democratização do acesso à cultura e para a valorização do conhecimento produzido fora dos espaços formais de ensino.

Impactos culturais e fortalecimento da identidade

A implantação da Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura tem potencial para gerar impactos culturais e sociais significativos, tanto na região do Cariri quanto em âmbito nacional. Ao consolidar um espaço dedicado à formação e à preservação dessas expressões culturais, a iniciativa contribui para o fortalecimento da identidade cultural local e para a projeção do Cariri como referência nacional na cultura popular. Além disso, a Escola pode estimular a circulação de saberes, a formação de novos artistas e pesquisadores, e a ampliação do reconhecimento do cordel e da xilogravura como linguagens artísticas fundamentais da cultura brasileira.

Em relação aos impactos, para Damasceno, além de promover as diversas manifestações culturais do Cariri Cearense, a escola poderá promover capacitações para as comunidades, cooperações institucionais e colaborações artísticas; e impulsionar o turismo regional e nacional. Por fim, a pró-reitora garante que a Ufca tem buscado preservar a cultura popular do Cariri e contribuir com a valorização e continuidade da cultura popular nordestina de diversas maneiras. “É incentivar a transmissão dos saberes e fazeres ancestrais nas práticas artísticas e contemporâneas  para um futuro criativo”, concluiu a professora.

Na Lira Nordestina, a xilogravura encontrou um espaço de grande potencialidade, especialmente com o uso da madeira Imburana, abundante na caatinga brasileira | Crédito: Kity Ramos/Lira Nordestina

Já Santos destaca quanto às contribuições diretas da iniciativa para a salvaguarda do patrimônio cultural, a constituição de novos acervos, com atenção especial à produção de autoria feminina, a oferta de cursos de formação e capacitação, o desenvolvimento territorial a partir desses bens culturais, a criação de novos mercados editoriais e de economia criativa, além do fomento ao cordel e à xilogravura nas escolas públicas e no campo da pesquisa acadêmica, incluindo a pós-graduação. Por fim, a professora avalia que a iniciativa fortalece a cultura popular e o acesso ao conhecimento no Cariri ao “dar visibilidade a essas práticas culturais cujas linguagens fazem parte de tecnologias orais. Ampliando mercados através de uma economia criativa e dando visibilidade também ao território”, concluiu.

Por outro lado, Piúba acredita que, embora tenha atuação territorial enraizada no Cariri, a Escola nasce com alcance e referência nacional. “O Ministério da Cultura espera que a iniciativa contribua para o fortalecimento da formação cultural e artística no país, ampliando o reconhecimento da literatura de cordel e da xilogravura, estimulando redes de intercâmbio e consolidando essas expressões como parte fundamental da cultura brasileira”, finalizou o secretário.

A escola deverá funcionar no ambiente da Ufca e prevê ainda uma articulação institucional mais ampla, envolvendo o MinC, a Ufca, Urca e iniciativas culturais da região, como a Feira do Livro do Nordeste, fortalecendo uma ação integrada e colaborativa. A partir da reunião, as instituições seguem discutindo encaminhamentos técnicos, pedagógicos e institucionais necessários para a consolidação da iniciativa, incluindo parcerias, definição de estratégias de atuação e articulação com políticas culturais em nível local, regional e nacional.

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Editado por: Lívio Pereira

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