SOBERANIA NARRATIVA

‘A mídia hegemônica invisibiliza os povos do Sul Global’, afirma jornalista Giovanna Vial

Advogada e correspondente independente critica cobertura internacional sobre genocídio em Gaza

No audio source provided.
Para a jornalista, preservar a memória dos conflitos é parte essencial do trabalho informativo e humanitário
Para a jornalista, preservar a memória dos conflitos é parte essencial do trabalho informativo e humanitário | Crédito: Marta Gomes

Jornalista, advogada, ativista e mestre em direitos humanos, Giovanna Vial atua na cobertura de conflitos armados e crises humanitárias no mundo árabe. Cofundadora da organização You.Manitarian, ela combina formação jurídica e experiência em campo para analisar disputas geopolíticas, colonialismo e direitos fundamentais da população civil.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Vial relata episódios decisivos de sua trajetória, critica a atuação da mídia hegemônica e defende um modelo de jornalismo baseado na soberania narrativa dos povos do Sul Global. A jornalista participou do Acampamento Nacional do Levante Popular da Juventude, na celebração dos 20 anos do movimento.

Formada em direito pela Universidade de São Paulo, ela afirma que nunca se identificou com as carreiras tradicionais da área. “O direito e as carreiras tradicionais que essa formação oferece nunca me bastaram”, diz. Segundo Vial, sempre enxergou a área jurídica como instrumento de transformação social, o que a aproximou dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, o conjunto de normas aplicável em tempos de guerra.

Durante o mestrado em direitos humanos e ação humanitária em Paris, na Sciences Po, passou a se perceber como uma mediadora entre os acontecimentos e o público. “Comecei a me enxergar como uma ponte entre as pessoas e as questões humanitárias através da comunicação.”

O incentivo de uma professora levou à sua primeira cobertura internacional, realizada em abril de 2022, dois meses após o início da invasão russa à Ucrânia. Desde então, afirma que atua traduzindo para o público o que acontece “em campo”, especialmente violações de direitos humanos e do direito internacional humanitário.

Há cerca de dois anos, ao se mudar para o Oriente Médio para cobrir a expansão sionista nos territórios palestinos e também no Líbano, no Irã e na Síria, passou a perceber como relações coloniais continuam moldando a produção e a interpretação das informações. Segundo ela, isso se manifesta especialmente nas mídias hegemônicas e até na forma como o público lê os conflitos.

“Não se usa a nomenclatura que especialistas utilizam para falar do contexto de Gaza”, afirma Giovanna Vial  | Crédito: Arquivo Pessoal

Disputa narrativa e desafios do jornalismo independente

Na avaliação da jornalista, a principal dificuldade para profissionais independentes é a instabilidade econômica e a escassez de espaço nos grandes veículos. Ela afirma que a mídia corporativa tende a reproduzir narrativas racistas e simplificadoras, que negam aos povos do Sul Global o controle sobre suas próprias histórias. “A grande maioria dos meios busca a reprodução das suas próprias narrativas”, diz. Para Vial, isso impede que esses povos sejam reconhecidos como detentores de soberania narrativa.

Segundo ela, quem tenta atuar de forma ética e crítica acaba “nadando contra a corrente”, enfrentando dificuldades para se sustentar financeiramente e profissionalmente.

Queda de Assad e o “paraquedismo jornalístico”

Um dos episódios mais marcantes de sua trajetória foi a queda de Bashar al-Assad na Síria, em dezembro de 2024, após uma série de mudanças regionais associadas ao genocídio em Gaza e ao conflito entre Israel e o Hezbollah. Pouco antes, o líder da organização, Hassan Nasrallah, havia sido morto, enfraquecendo o grupo no Líbano.

Vial estava em Beirute quando recebeu a notícia e atravessou a fronteira na madrugada seguinte, tornando-se, segundo relata, a primeira brasileira a cobrir diretamente a Síria pós-Assad. Entre os episódios acompanhados, destaca a libertação de presos da prisão de Saydnaya, conhecida por denúncias de tortura e desaparecimentos forçados.

A experiência também revelou o que ela define como “paraquedismo jornalístico”. “Algo extraordinário acontece num país do Sul Global e jornalistas do Norte Global chegam por um curto período para produzir narrativas e depois vão embora”, expõe.

Segundo Vial, muitos profissionais locais altamente qualificados são utilizados apenas como intermediários, os chamados fixers. Para ela, trata-se de uma lógica extrativista semelhante à colonial. “Você chega, extrai daquele povo aquilo que te convém e depois vai embora. Isso nada mais é do que a lógica colonial aplicada à produção de informação”, critica.

Após essa experiência, passou a priorizar parcerias horizontais com jornalistas locais, estratégia que chama de cooperação Sul–Sul. O objetivo é valorizar as vozes diretamente afetadas pelos conflitos como protagonistas da narrativa.

“O jornalismo, sem ser feito à luz da humanidade, perde a sua razão de ser”, frisa Vial  | Crédito: Arquivo Pessoal

Gaza, terminologia e invisibilização histórica

Sobre a escalada de violência na Faixa de Gaza, Vial afirma que um dos principais problemas da cobertura internacional é a falta de contextualização histórica e jurídica. Segundo ela, especialistas em direitos humanos classificam a situação como genocídio, mas a mídia hegemônica continua utilizando o termo “guerra”. “Isso molda uma percepção equivocada na cabeça das pessoas.”

“Não se usa a nomenclatura que especialistas utilizam para falar do contexto de Gaza”, afirma. Para a Vial, a simplificação favorece narrativas pró-Israel e ignora que a questão palestina remonta há mais de um século.
A jornalista também critica a ausência de referências ao longo histórico da questão palestina, que remonta ao Mandato Britânico na década de 1920. Naquele período, a Sociedade das Nações, antecessora da Nações Unidas, legitimou estruturas coloniais que, posteriormente, contribuíram para a criação do Estado de Israel.

Para ela, a mídia reduz uma questão de quase um século a eventos recentes. “A questão palestina não começou no dia 7 de outubro”, afirma, referindo-se ao ataque do Hamas em 2023.

Flotilha humanitária expôs riscos, limites éticos e tensões do ativismo em zonas de guerra

Giovanna Vial também integrou a Global Sumud Flotilla, iniciativa internacional que combinava ação humanitária e comunicação voltada à crise em Gaza. Segundo ela, a experiência foi a mais extrema de sua vida.

A jornalista relata que já esteve sob bombardeio em zonas de guerra e chegou a permanecer dois dias presa pelo Hezbollah no Líbano, mas considera a flotilha ainda mais desafiadora. Durante 27 dias em alto-mar, os participantes permaneceram em confinamento, submetidos a regras e intensa exposição midiática.

Entre os ativistas presentes estava Greta Thunberg. Vial afirma que sofreu fortes episódios de enjoo durante a viagem, o que comprometeu sua participação nas atividades e nos treinamentos de segurança para possíveis ataques de drones ou interceptações marítimas.

Apesar do objetivo humanitário, ela relata profunda decepção com a organização da missão. Segundo a jornalista, falhas administrativas prolongaram a viagem, inicialmente prevista para cerca de uma semana, para mais de um mês, expondo os voluntários a riscos evitáveis.

Vial decidiu deixar a flotilha ao chegar à ilha de Creta. “Emocionalmente eu não estava mais dando conta”, afirma. Segundo ela, permanecer significaria omitir problemas internos para não comprometer a legitimidade da ação humanitária.

Poucos dias depois de sua saída, integrantes que seguiram viagem foram interceptados por forças israelenses.

Para a jornalista, preservar a memória dos conflitos é parte essencial do trabalho informativo e humanitário. “O jornalismo, sem ser feito à luz da humanidade, perde a sua razão de ser”, afirma.

Segundo Vial, registrar o que acontece em Gaza é também uma forma de resistência contra narrativas que continuam a desumanizar os povos do Sul Global. Para ela, manter viva essa memória pode abrir caminho para transformações futuras e para a construção de justiça histórica.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter