Manchas esverdeadas apareceram na areia da Praia do Bessa, em João Pessoa (PB), e deixaram muita gente curiosa. Nas redes sociais, surgiram palpites de tudo quanto é tipo: desde suspeita de esgoto até medo de contaminação ambiental.
Ambientalistas e especialistas locais afirmam, no entanto, que se trata de um processo natural na orla marítma, impulsionado por algas marinhas e fezes de tartarugas-verdes, espécie comum na região.
O episódio foi registrado em fevereiro em meio a ventos intensos de leste e nordeste, que empurram resíduos orgânicos para a costa, formando manchas que se espalham pela areia. Segundo explicações de perfis dedicados ao ecoturismo, como o de David Caribessa, ambientalista e fundador da Caribessa, empresa de turismo sustentável, o fenômeno não indica problemas sanitários. Ele enfatizou em vídeos recentes que as manchas são compostas por matéria orgânica inofensiva, servindo até como indicador de ecossistema saudável.

Segundo ele, as manchas verdes resultam principalmente da dieta das tartarugas-verdes (Chelonia mydas), que se alimentam de algas nos recifes próximos ao Bessa. Essas fezes, de coloração esverdeada ou marrom-clara, misturam-se a fragmentos de algas trazidos pelas correntes marítimas, acumulando-se na praia durante períodos de maré baixa e ventos fortes. Diferentemente de contaminações por esgoto, que apresentam cheiro forte e presença de coliformes fecais, esse material orgânico não representa risco à saúde humana ou ao meio ambiente.
O processo é cíclico e positivo. Ele explicou que as correntes marítimas intensas empurram algas e resíduos para a costa, e que as tartarugas, ao se alimentarem diariamente nos recifes, contribuem para esse ciclo natural. A Caribessa, que monitora a área há 19 anos, alertou para o risco de a desinformação prejudicar o turismo local.
“Galera, essas manchas verdes não são esgoto, não é poluição, não é nada disso que estão falando por aí. Isso aqui é natural, é sinal de que o mar está saudável! O que acontece é o seguinte: as correntes de leste e nordeste estão fortes agora, elas empurram algas marinhas e também as fezes das tartarugas-verdes que ficam se alimentando nos recifes aqui do Bessa todo dia. A tartaruga-verde come muita alga, por isso as fezes dela saem esverdeadas, marrom claro, e quando acumula na areia com as algas, forma essas manchas que parecem ‘verde musgo’. Se fosse esgoto de verdade, ia ter cheiro forte pra caramba, água escura com espuma preta, coliformes altos”
Impacto no turismo e na economia local
O debate nas redes sociais, impulsionado por fotos e vídeos das manchas, causou preocupação, pois o Caribessa é conhecido por suas águas cristalinas e recifes de corais. Como ponto de ecoturismo, o Caribessa tem o cuidado com o resgate de tartarugas e monitoramento ambiental, em parceria com associações como a Guajiru e o Corpo de Bombeiros da Paraíba.
No ano passado (jan/2025), a Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) fiscalizou a ocorrência de fezes nas praias de Tambaú e Manaíra, em João Pessoa. Na ocasião, em entrevista ao programa Arapuan Verdade, o superintendente Marcelo Cavalcanti apontou uma possível causa.
“Estamos realizando essa fiscalização todo fim de semana e, em algumas ocasiões, já começamos na quinta-feira, tanto em Areia Vermelha como nas piscinas do Seixas, do Bessa, da Penha e de Picãozinho. Estamos abordando os proprietários de catamarãs para que, durante os passeios, transmitam informações sobre o que é permitido e o que é proibido em relação à conservação”, detalhou o superintendente sobre a operação de ordenamento nas praias da orla pessoense.
E em outras praias do Brasil?
Esse tipo de fenômeno não é exclusivo da Paraíba. Em outras praias, como as de Fernando de Noronha (PE) ou da Costa Verde do Rio (RJ) manchas semelhantes de algas e resíduos orgânicos de tartarugas marinhas são registradas periodicamente, especialmente durante estações chuvosas ou com correntes fortes. No Nordeste, praias de Alagoas e Rio Grande do Norte relatam casos análogos, onde ambientalistas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) intervêm para educar a população.
No Sul, o acúmulo de algas é monitorado pelo Projeto Tamar, que registra aumento na população de tartarugas-verdes devido a esforços de conservação. Nacionalmente, o tema ganha relevância em debates sobre mudanças climáticas, que alteram padrões de correntes marítimas e aumentam a visibilidade desses processos naturais.
