O Brasil recebeu Bad Bunny no que prometeu ser o mês mais importante de sua carreira. Cercado de “primeiras vezes”, Benito se viu, em menos de 20 dias, vencendo a categoria Álbum do Ano no Grammy com o aclamado Debi Tirar Más Fotos e apresentando o show de intervalo do Super Bowl. Em um momento marcado pela truculenta política de imigração nos Estados Unidos, Bad Bunny, cantor porto-riquenho, entoou “ICE OUT”, discursou e apresentou músicas 100% em espanhol, com posicionamento firme e infinitas declarações de amor a Porto Rico e à cultura latina.
Uma capa de álbum com duas cadeiras de plástico e um quintal: isso foi o suficiente para despertar a curiosidade dos brasileiros. “Eu já vi esse lugar.” “É como o quintal da minha avó.” Logo, as redes sociais foram inundadas com vídeos nostálgicos tendo a faixa-título DtMF como trilha. Assim, Bad Bunny, também pela primeira vez, trouxe sua turnê para o Brasil, entrou no mercado de forma avassaladora e “estourou a bolha”. Os ingressos para as duas datas no Allianz Parque, em São Paulo, esgotaram em minutos e consolidaram o que antes era motivo de dúvida: o Brasil escuta, sim, música em espanhol. Historicamente, poucos artistas conseguiram romper a barreira linguística e estabelecer uma conexão sólida com o nosso país nessa dimensão. Nomes como Shakira e o grupo mexicano RBD são exemplos desse fenômeno. Mais recentemente, ainda que em menor escala, artistas como os colombianos Karol G e J Balvin buscaram essa aproximação por meio de parcerias estratégicas e turnês em solo brasileiro. Em mais de uma oportunidade, Benito afirmou que “não quer entrar em mercados só por entrar” ao ser questionado sobre o uso de feats para conquistar o resistente público brasileiro. E assim o fez, sem concessões. A canção DtMF alcançou pico inédito nos charts nacionais e o conceito do álbum ganhou as ruas até no Carnaval. Todo brasileiro sabe: virou fantasia de carnaval? Hitou.
Bad Bunny, que revelou em entrevistas que sempre teve vontade de conhecer o Brasil, fez questão de trazer a estrutura completa para o país. A “Casita”, palco inspirado na arquitetura de casas tradicionais porto-riquenhas, que até então era uma incerteza, ocupou seu espaço na área da pista comum. O palco principal ganhou o setor “Los Vecinos”, ou “os vizinhos”, em português.
Com um público que variava entre fãs de anos e novos ouvintes, o encantamento e a sensação de pertencimento eram unanimidade. A música de Benito, embora em um idioma que não é o nosso, reforça nossa latinidade com elementos em comum. A sonoridade percussiva, marcada pelo atabaque e chocalho, traz nossas heranças de matriz africana. O reggaeton e o dembow, com batidas marcantes e composições sensuais, são uma ponte direta com o nosso funk — especialmente pela origem periférica e resistência política. O concerto, milimetricamente pensado, é uma celebração à ancestralidade e uma conexão com temas de hoje. O orgulho latino do público foi percebido em cada detalhe: nos looks de inspiração caribenha, nas danças que misturavam o perreo com o gingado do samba e de passos de funk, e na entonação de 40 mil pessoas com os hits na ponta da língua, muitas vezes arriscando um portunhol apaixonado.
A abertura do show ficou por conta do grupo também porto-riquenho Chuwi, que, em seu repertório, teve músicas inspiradas na luta por terra e pertencimento.
Pontualmente às 20h30 e com uma setlist diversa, Bad Bunny se entregou de peito aberto para o público. La Mudanza deu início ao show, com direito à introdução gravada em português. Já na Casita, Benito escolheu um medley que contou com as favoritas Bichiyal, Safaera e Yo Perreo Sola. O grupo Los Pleneros De La Cresta fechou o bloco com uma versão de “Mas que Nada”, composição de Jorge Ben Jor, enquanto o telão exibia as diversas bandeiras de países latinos que estavam na multidão. O Brasil também foi referenciado com um solo de “Garota de Ipanema”, figurino de futebol e o mascote Concho contando sobre suas aventuras gastronômicas com pratos como feijoada, bobó de camarão e coxinha.
Como tradição, cada país recebe uma música surpresa que será tocada apenas uma vez em toda a tour. Para a apresentação desta sexta-feira, em São Paulo, a escolhida foi Vete, do álbum Yo Hago lo Que Me Da La Gana, de 2020. Trabalhos anteriores também foram lembrados com Tití Me Preguntó, No Me Conoce e MONACO. O destaque da noite, é claro, foi o álbum Debi Tirar Más Fotos, com pedido especial durante a faixa-título: “Vamos aproveitar, nunca se sabe se temos pouco tempo.” EoO, canção que ganhou o Grammy de Melhor Performance Musical Global, encerrou o espetáculo junto com uma longa queima de fogos.
Foram 2h30 de música, papo de bar, risos, promessas de retorno e lágrimas emocionadas. A experiência foi completa e os brasileiros fizeram o artista se sentir em casa. Tudo isso em pleno pós-carnaval.
Estamos vendo Bad Bunny em seu novo auge. Eu chamo de “novo auge” porque Benito já teve vários momentos rotulados assim. Na era do álbum Un Verano Sin Ti (2022), muitos acreditavam que “não dava para ser maior que isso”. Deu. A tour que passou pelo Brasil é a maior de sua história e segue agora para a Oceania e Europa, com promessas de datas para África e Ásia. Estados Unidos, desta vez, ficaram de fora. “É desnecessário”, de acordo com ele. Em passos calmos e calculados, o astro leva a cultura de Porto Rico para o mundo. Esse sempre foi o seu objetivo. Gentilmente, Benito carrega a todos nós, latino-americanos, com ele.
Neste sábado (21), o Allianz Parque recebe novamente Bad Bunny para a segunda e última data no Brasil. Com abertura de portões às 16h, o show é previsto para começar às 20h30. Os ingressos estão esgotados.
