LUTA ESTUDANTIL

Movimentos populares retomam o Estágio Interdisciplinar de Vivência em MG após 10 anos

Etapa preparatória reúne 30 universitários no Assentamento Roseli Nunes, do MST, para imersão nas lutas do campo

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O objetivo do estágio, que também é organizado pelo Levante Popular da Juventude e pelo Movimento Brasil Popular, é estudar e vivenciar no cotidiano o impasse da questão agrária e mineral que afetam esses territórios.
O objetivo do estágio, que também é organizado pelo Levante Popular da Juventude e pelo Movimento Brasil Popular, é estudar e vivenciar no cotidiano o impasse da questão agrária e mineral que afetam esses territórios. | Crédito: Larissa Nunes

Entre os dias 23 e 26 de fevereiro, o Assentamento Roseli Nunes, território de reforma agrária em Pequi (MG), recebe a etapa preparatória do XI Estágio Interdisciplinar de Vivência (EIV) de Minas Gerais. 30 estagiários do estado, com participação de militantes do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiás, estão neste momento se preparando para um processo de imersão profunda na realidade de famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). 

O objetivo do estágio, que também é organizado pelo Levante Popular da Juventude e pelo Movimento Brasil Popular, é estudar e vivenciar no cotidiano o impasse da questão agrária e mineral que afetam esses territórios.

Segundo a organização do EIV, o hiato de 10 anos sem realizar as vivências não foi casual. Este período foi profundamente marcado por uma ofensiva conservadora que reconfigurou o cenário político brasileiro. O golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, deu início a um governo que impôs uma agenda de retrocessos, atingindo duramente as universidades públicas por meio de cortes de verbas e criminalização dos movimentos sociais, como avaliam os movimentos sociais. 

Os organizadores destacam ainda que, a esse cenário somou-se a pandemia de covid-19, que escancarou as desigualdades e inviabilizou qualquer iniciativa de imersão coletiva. Eles afirmam que foi um tempo de defesa incansável da universidade pública e da vida da juventude, que foram duramente atacadas, momento em que a prioridade dos movimentos populares foi resistir para existir. 

Agora, com a retomada do estágio, os movimentos sociais e coletivos reafirmam a necessidade de ocupar os territórios e reconstruir os espaços de formação política, apostando na juventude universitária como sujeito fundamental para barrar o avanço da extrema direita e construir um projeto popular para o Brasil.

O EIV busca aproximar os universitários da realidade socioeconômica, política e cultural brasileira, rompendo com os muros da universidade. A experiência é dividida em três etapas fundamentais:

Preparatória: com discussões e aulas expositivas, esta fase aprofunda a compreensão sobre os processos organizativos, produtivos e políticos ligados à questão agrária e mineral em Minas Gerais.

Vivência: os estudantes irão a campo, passando alguns dias em acampamentos, assentamentos do MST e territórios do MAM. O objetivo é conhecer, na prática e no cotidiano, a organização política, produtiva, social e cultural dos camponeses e atingidos.

Conclusiva: após a vivência, os estagiários se reúnem novamente para socializar as experiências individuais, avaliar todo o processo e definir encaminhamentos para projetos futuros.

Em Minas Gerais, a XI edição do EIV é organizada pelo MST, MAM, Levante Popular da Juventude (LPJ) e Movimento Brasil Popular (MBP), em parceria com o movimento estudantil. A iniciativa visa massificar a militância, elevar o nível de consciência e difundir a organização popular, especialmente em territórios onde os movimentos sociais ainda não atuam.

Para Kaique Fernandes, vice presidente da União Estadual dos Estudantes em Minas Gerais (UEE-MG), a retomada do EIV vem em um momento estratégico e oportuno de acúmulo de forças. 

“É importante organizar os estágios por causa do processo que estamos vivendo em Minas Gerais de renovação da esquerda e da contribuição que o movimento estudantil tem que dar, para além dos cargos institucionais. É importante formar seres militantes que pensem, que formulem, a partir do método de voluntariado, que é coletivo, de formação e de luta. Na prática, eles, ‘estagiários’, vão se formar através do EIV”, explica. 

A estrutura organizativa do estágio é inspirada no método de educação do Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), vinculado ao MST. Seus pilares são a pedagogia do movimento, a educação do campo, a disciplina consciente e a formação militante. Focada na formação técnica e política de jovens e adultos assentados, essa metodologia valoriza princípios como a alternância de tempos e espaços, a gestão democrática, pesquisa, agroecologia e a “mística”. O objetivo é unir o estudo ao trabalho como ferramentas para a transformação da realidade social.

“É importante retomar o EIV, o debate da questão agrária e da mineração em Minas Gerais, fazendo os estudantes mineiros se apropriarem do debate e contribuírem para a formação de novos quadros da esquerda”, afirma Fernandes.

Após vivenciar a realidade das famílias que os acolhem, os estagiários são convidados a dar um passo além: organizarem-se nos movimentos sociais, fortalecerem o movimento estudantil e se engajarem nas lutas populares. O propósito é coletivamente superar as contradições do capitalismo encontradas nos territórios, construindo as bases para um novo modelo de sociedade.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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