Esportes

Clubes argentinos resistem à ofensiva de Milei para impor modelo empresarial no futebol

Irlan Simões analisa paralisação dos clubes contra medida e interesses econômicos por trás da pressão do governo

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Clubes vão entrar de greve no dia 05/03 em toda Argentina
Clubes vão entrar de greve no dia 05/03 em apoio a Claudio Tapia, presidente da AFA | Crédito: Reprodução | X | AFA

O futebol argentino vive momentos de tensão. Enquanto o governo de Javier Milei pressiona pela regulamentação das Sociedades Anônimas Desportivas (SADs) — as SAFs no Brasil —, os clubes se articulam em defesa da gestão da Associação do Futebol Argentino (AFA) e do modelo associativo tradicional.

“Quando falamos de SAF no Brasil, ou SAD na Argentina, estamos falando de um modelo jurídico empresarial onde os clubes, que são associações civis, transferem seus ativos — tudo que gera dinheiro no futebol — para uma empresa. Essa empresa pode ser vendida, inclusive para grupos estrangeiros”, explica Irlan Simões, jornalista e pesquisador do Observatório Social do Futebol, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

No Brasil, o modelo foi aprovado com facilidade durante o governo Bolsonaro. Mas na Argentina, a história é diferente. “Os clubes argentinos são historicamente muito mobilizados pelos seus sócios, muito mais numerosos que aqui. A ideia de transformar o clube em empresa, de ter um dono, é vista de forma negativa no senso comum argentino e na cabeça do torcedor que é sócio.”

O pesquisador destaca que experiências anteriores justificam essa rejeição. “Os clubes resistem, porque os sócios resistem. A ideia deles é que o clube pertence aos sócios, não pode pertencer a ninguém. É um debate político muito interessante.”

A pressão de Milei pela regulamentação das SADs não é um movimento isolado. “Isso tem conexões muito fortes com o governo Mauricio Macri, que cresceu politicamente justamente quando se tornou presidente do Boca Juniors, a maior torcida do país. Ele usou o futebol para ganhar capital político.”

Simões explica o imbróglio jurídico-institucional. “Na Argentina, o estatuto da AFA não permite que clubes se inscrevam em competições no formato de empresa. Por mais que exista uma lei incentivando as SADs, o estatuto da federação barra. Esse é o grande limite político.”

O governo Milei tenta desidratar a gestão de Claudio Tapia, presidente da AFA. “Para azar deles, Tapia se tornou campeão mundial. Mesmo com uma gestão controversa, os clubes estão a seu favor. Seja por leitura de conjuntura política, necessidade de sobrevivência ou porque realmente entendem que o modelo deve seguir dessa forma.”

O pesquisador ressalta que há grupos políticos que se apoderam dos clubes e se favorecem disso – algo que também acontece no Brasil historicamente. Mas, na base social, nos quadros sociais dos clubes, há um debate forte de não aceitação do modelo de SAD.

“Muitos dirigentes que no passado já falaram que seria uma boa adotar o modelo de SAD, hoje não falam tanto porque eleitoralmente dentro dos clubes eles têm muito a perder.” Ele cita o exemplo de um dirigente famoso do Racing, muito vitorioso, que era a favor do modelo e, diante da rejeição política, “virou a chave e começou a fazer manifestações públicas contra a adoção das SADs, defendendo que os clubes pertencem aos sócios.”

A falsa ideia de que SAF é sinônimo de sucesso

Simões critica a narrativa de que o modelo de empresa trará necessariamente bons resultados. “Esse discurso é impulsionado por uma carga ideológica muito forte, um discurso neoliberal colocado dentro do futebol. Dizem que você precisa ter um proprietário porque a gestão será melhor, os investimentos virão, os clubes deixarão de ser geridos por amadores. Não é verdade.”

Ele lembra que a história do futebol, mesmo sob modelo empresarial, é de clubes indo à falência, quebrando, pedindo socorro financeiro e entrando em recuperação judicial – algo que as SAFs já começaram a fazer no Brasil.

“A leitura na Argentina é muitas vezes mal compreendida. Acham que o sucesso de Flamengo e Palmeiras — clubes que nunca foram SAFs — se deve ao modelo de SAF. É um entendimento torto da realidade. Nunca vão falar dos problemas do Vasco, do Botafogo, do América Mineiro, do Corinthians. Problemas gerenciais relacionados ao modelo de empresa”, explica.

O pesquisador aponta o caso do Botafogo como emblemático. “Um clube que estava numa situação muito ruim enquanto associação. Veio uma SAF, investimento estrangeiro, derramou dinheiro, ganhou Libertadores e Brasileiro. Mas isso cobra caro depois.”

Ele explica a situação atual. “Botafogo hoje tem uma batalha societária internacional, porque é uma rede de multiclubes que controla o clube e outros, inclusive um francês. Essa batalha envolve um endividamento absurdo gerado por John Textor. Os resultados dos últimos anos foram bem mais negativos. São fatos concretos que quem quer promover o modelo, evidentemente, não vai detalhar.”

A paralisação dos clubes e a mensagem à AFA

Sobre a paralisação do futebol argentino marcada para o dia 05 de março em apoio à Tapia, Simões esclarece o motivo dos clubes: “Os clubes dizem: ‘A AFA não é só o Tapia, os clubes fazem a AFA’. E de fato é isso. A AFA é uma associação onde os associados são os clubes. Diferente do Brasil, onde as federações estaduais têm mais força que os clubes, lá os clubes de fato participam.”

“Publicamente, o único clube que faz oposição à sua gestão é o Estudiantes de La Plata, presidido por Sebastián Verón, ex-jogador e grande defensor das SADs. Você percebe como em todo momento existe uma conexão entre política institucional, política do futebol e projeto de transformação dos clubes em empresa”, aponta.

Simões comenta a recente investigação sobre suposta evasão fiscal envolvendo Tapia. “Muitos dizem que é algo colocado para mais um processo de desidratação de sua gestão. A investigação vai chegar em algum lugar, mas a discussão é se isso é uma grande articulação para a tomada de controle da AFA.”

Ele lembra que o governo Milei é apoiado por pessoas conectadas ao futebol argentino há décadas, como Mauricio Macri. “Não à toa, quando o assunto vem à baila, quem representa o governo Milei falando publicamente é o próprio Macri.”

Apesar das articulações políticas, Simões faz uma distinção fundamental. “Há uma diferença entre certos dirigentes terem boas relações com Tapia e o que é a base dos clubes. Os torcedores dos clubes são absolutamente mobilizados politicamente. Isso é muito forte no futebol argentino, inclusive na resistência ao modelo de privatização dos clubes.”

Ele conclui com uma observação que conecta política e futebol de forma definitiva. “O torcedor argentino é muito mobilizado, muito mais que o brasileiro. O que vai na política institucional voltada para o futebol. E o que vai no futebol volta para a política institucional.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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