Tensão no Caribe

‘Não é um episódio isolado’: escalada de agressões dos EUA contra Cuba continua

Amanda Harumy contextualiza o episódio no mar do Caribe dentro da escalada imperialista de Trump

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Liberações foram mediadas pelo Vaticano
Cuba é um país que existe para muito além de suas fronteiras | Crédito: wirestock/Freepik

A tensão entre Estados Unidos e Cuba atingiu novo patamar após a interceptação, pela marinha cubana, de uma lancha fortemente armada que tentava ingressar em águas territoriais da ilha. Washington reagiu prometendo “responder à altura”.

“É um momento tenso, porque precisa entender que não é um episódio isolado. Podemos considerar isso uma invasão ao mar cubano, lembrando que Cuba está a apenas 150 km da Flórida. Não precisa ser uma grande embarcação militar”, avalia Amanda Harumy, analista internacional, ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

Segundo o governo cubano, o objetivo da infiltração era desestabilizar a ilha. “A gente já sabe que existe um bloqueio de mais de 60 anos. Agora, em 2026, Marco Rubio e Trump aprofundaram esse bloqueio, tornando-o físico: nada entra em Cuba. Essas infiltrações têm como objetivo desestruturar o poder político existente na ilha.”

“O governo dos Estados Unidos, por meio de Marco Rubio, se posicionou dizendo que não era uma embarcação oficial, que não havia intenção militar. Mas nós sabemos que o grupo de cubanos pró-Marco Rubio tem como intenção desestabilizar, tanto midiaticamente quanto fisicamente”, aponta.

Ela lembra que, perante o direito internacional e o direito do mar, Cuba agiu dentro de sua prerrogativa. “Aquela embarcação não estava reconhecida, não tinha se comunicado com o governo cubano. Quando abordada, perceberam que estava extremamente armada. É uma reação em defesa do mar cubano e da soberania cubana.”

A escalada da tensão e o papel da comunidade cubana nos EUA

Harumy projeta os próximos passos: “Esses fatos vão construir um aumento da tensão para cumprir o objetivo político já declarado por Trump. A gente tem que lembrar que Trump disse que Marco Rubio seria um excelente presidente para Cuba.”

Ela alerta para a superioridade militar estadunidense, que possuem uma “facilidade enorme para intervir”. “Nós vimos a operação de invasão da Venezuela, o bombardeio de Caracas, o sequestro de Maduro. Não existe diálogo, não existem planos de cooperação. Esse é o momento de aumentar a tensão.”

“A disputa eleitoral nos Estados Unidos é muito importante. Eles vão ter uma eleição de meio período em que o grupo de cubanos contra revolucionários, que vivem há gerações nos EUA, importam muito para o lobby e a influência no governo Trump. Alguns analistas dizem que o segundo lobby mais forte nos Estados Unidos é o cubano. O primeiro é o de Israel”, observa.

Omissão do Brasil

A analista critica duramente a postura brasileira e a falta de efetividade, com uma país que “sempre foi muito solidário”. “Em todos os momentos da história — desastres ambientais, a própria pandemia — Cuba cumpriu com a solidariedade dos povos e enviou médicos. Nós deveríamos retribuir minimamente, pensando nos direitos humanos, na segurança alimentar e energética do povo cubano.”

“Deveria haver uma compreensão sobre a condição de soberania da América Latina hoje. É como se a gente visse um ataque direto aos mais fracos. Atacaram a Venezuela, que apesar de ter reservas de petróleo, tinha fragilidade na legitimidade do governo Maduro — mais de 55 países não reconheciam sua eleição. Isso abriu brecha para o ataque”, defende.

Cuba é uma ilha socialista que resiste há mais de 60 anos, alvo de propaganda contrária da extrema direita mundial. “Essa frente anti-imperialista está sendo atacada, mas nada garante que países como o Brasil não possam também ter sua soberania territorial infringida. Nós vimos o tarifaço de Trump contra o Brasil com justificativa política doméstica: ou vocês dão anistia para Bolsonaro, ou nós colocamos tarifa de 50% na economia brasileira. Não existem garantias de que o Brasil, a Colômbia ou outros países não sejam atacados e tenham sua soberania infringida”, conclui.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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