Uma experiência que está distribuída em pequenas iniciativas de profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) para que os pacientes entendam as prescrições de medicamentos e consigam colocá-las em prática. E foi a partir da identificação da dificuldade de adesão que a enfermeira Giulyana Andrade passou a confeccionar uma caixa organizadora de medicamentos.
“A grande maioria dos pacientes é de idosos, muitos deles analfabetos, o que dificulta a identificação dos remédios e a quantidade a ser ingerida por eles. Principalmente por serem muitas medicações e em horários diferentes”, conta a enfermeira que elaborou o projeto durante seu período de residência em uma unidade de Saúde localizada no Complexo do Alemão entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025.
A iniciativa surgiu a partir de uma consulta com um senhor diabético e hipertenso que, apesar de ter uma longa prescrição de medicamentos e fazer uso dele, apresentava exames muito alterados. “Na visita, vi que era cuidado pelo filho e que estavam em um processo de luto, o que fazia com que não conseguissem se organizar muito bem”, relata. O paciente armazenava todos os medicamentos em uma única divisória da geladeira onde guardava a insulina, medicamento para diabetes e que precisa ser refrigerado. “Não é um armazenamento errado, mas até eu fiquei confusa na hora de separar, porque eram muitas medicações e em horários diferentes”, completa. Meses após criar a primeira caixa organizadora, ela já pode identificar melhora significativa dos exames do paciente.
A ideia é simples e de baixo custo. Ela é feita com uma caixa de papelão que pode ser encontrada no almoxarifado das unidades de saúde. As divisórias são feitas por turno e por medicamentos. Em cada uma delas está colada um exemplo da cartela do medicamento a ser tomado e o desenho de quantidade de comprimidos. E em cada divisória, são armazenadas essas cartelas distribuídas mensalmente pela unidade de saúde.

Foto: Arquivo pessoal
Visita domiciliar
Andrade destaca a importância de conhecer a rotina do paciente em sua casa, um dos pilares do SUS dentro da estratégia da Saúde da Família. Ela explica que no consultório os profissionais têm um recorte muito restrito da realidade de quem está sendo atendido e com a visita é possível conhecer a dinâmica familiar, como o paciente consome os remédios e os armazena. “Isso tudo ajuda muito. Só o exame não é suficiente, porque, às vezes, o paciente está tomando a medicação de forma correta, mas é preciso de mais medicamentos ou de outras medidas, como atividade física e alimentação”. E os primeiros sinais aparecem na própria conversa, com perguntas que detalham a rotina de administração dos remédios.
Essa conversa e a possibilidade da visita domiciliar, diz a enfermeira, são fundamentais para que o tratamento seja realizado em diálogo com o paciente e não apenas por meio de determinações e receitas de remédios. “Isso é um dos fatores que leva à adesão ao tratamento”, reflete.
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Ela destaca ainda o papel do agente comunitário em fazer essa ponte, uma vez que esses profissionais são os principais responsáveis por esse vínculo entre o território e a clínica. “Como todos os profissionais da unidade têm acesso às prescrições de medicamentos, os agentes acabam sendo os principais multiplicadores dessa experiência”, diz.
Encerrada a residência, ela agora atua em uma unidade da saúde em Madureira e espera poder replicar a proposta.
