Soberania iraniana

Discurso de Mojtaba Khamenei desmente fala de Trump que os EUA escolheriam novo líder supremo, afirma analista

Ana Prestes analisa declaração do clérigo xiita, bloqueio do Estreito de Ormuz e os ataques indiscriminados ao Líbano

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Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e novo líder supremo do Irã
Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e novo líder supremo do Irã | Crédito: AFP PHOTO/HANDOUT/KHAMENEI.IR

Doze dias após o início da ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel contra o Irã, que matou o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e centenas de civis — incluindo 171 meninas em uma escola bombardeada —, o novo líder do país, Mojtaba Khamenei, fez seu primeiro pronunciamento público nesta quinta-feira (12/03). A mensagem, lida por um jornalista na TV estatal devido aos ferimentos do clérigo, trouxe promessas de vingança, a manutenção do bloqueio do Estreito de Ormuz e a exigência de fechamento imediato de todas as bases militares dos Estados Unidos na região.

Para a analista internacional Ana Prestes o pronunciamento de Mojtaba Khamenei desmonta a estratégia inicial de Washington. “Desmonta a fala do Trump no primeiro dia, quando ele falou em mudança de regime. Depois ele relativizou, depois disse que os EUA teriam que aprovar a escolha do novo líder. Agora simplesmente precisam lidar com o fato de que não conseguiram fazer a decapitação do governo iraniano”, afirma no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

A analista explica que, em geopolítica, “decapitação” significa remover a liderança de um país para desestabilizá-lo. “Eles jogaram uma bomba em cima de onde estava o líder supremo, mas o que os especialistas no Irã diziam se materializou: o país tem uma cadeia de comando e sucessão que está funcionando mesmo sob intenso bombardeio da maior potência militar do planeta.”

O novo líder determinou a manutenção do bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. “Isso continua sendo um dos maiores ativos, um dos maiores trunfos que o Irã tem perante o mundo. Poder fazer circular ou não as embarcações com combustível é um poder imenso”, afirma Prestes.

Ela destaca que, enquanto países do Golfo são forçados a reduzir sua produção, o Irã aumentou suas exportações de petróleo para aliados estratégicos. “Eles realmente estão atacando quem tenta passar sem respeitar a ordem. Já há informações de recuo por parte dos Estados Unidos no estreito.”

Questionada sobre a possibilidade de uma trégua, Prestes é direta. “Hoje a leitura que eu faço desse pronunciamento é de que a guerra vai continuar. Ele fala que o fechamento do Estreito de Ormuz vai continuar. Ele diz: ‘Todas as bases dos Estados Unidos devem ser fechadas de imediato na região’. Isso é uma ameaça.”

Ela lembra que, embora o presidente iraniano tenha dito na semana passada que não atacariam mais bases em países como Bahrein, Catar e Emirados Árabes, o novo líder afirmou que as estruturas militares dos EUA seguem sendo alvos. “Já eliminaram uma série de radares na região, o que atrapalha os alertas para a população civil em Israel. Já se fala que não se escutam mais as sirenes.”

Prestes também analisa a escalada israelense contra o Líbano, com bombardeios de larga escala em Beirute e no Vale do Bekaa, sob a justificativa de atingir membros do Hezbollah. “A forma como estão fazendo com o Líbano é completamente indiscriminada. No início, havia até avisos, mas isso rapidamente se desfez. Israel não respeita nada, nenhum acordo de cessar-fogo, nenhuma mesa de negociação.”

A analista traça um paralelo com Gaza, mas ressalta a especificidade do genocídio em curso. “Gaza tem um requinte de crueldade, um massacre que continua, com mulheres e crianças sendo assassinadas todos os dias. Mas o padrão de desrespeito às normas internacionais é o mesmo.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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