ARTICULAÇÃO

Formação sindical da CUT reúne lideranças de todo o Brasil em Florianópolis (SC)

Debates abordaram conjuntura política, avanço da extrema direita e transformações no mundo do trabalho

No audio source provided.
Secretaria Nacional de Formação da CUT (SNF) promove debate sobre novos caminhos do trabalho na 2ª Oficina de Formação de Formadores
Secretaria Nacional de Formação da CUT (SNF) promove debate sobre novos caminhos do trabalho na 2ª Oficina de Formação de Formadores | Crédito: Clara Aguiar

Após uma semana de debates, trocas de experiências e planejamento político, foi encerrada, na sexta-feira (13), em Florianópolis (SC), a 2ª Oficina Nacional de Planejamento do Projeto Formação de Formadores e Formadoras Sindicais, promovida pela Secretária Nacional de Formação (SNF) da Central Única dos Trabalhadores e Trabalhadoras (CUT) em cooperação com a DGB Bildungswerk (DGB BW).

O encontro reuniu dirigentes e educadores sindicais de diversas regiões do país na Escola Sindical Sul para refletir sobre os desafios do mundo do trabalho, o cenário político nacional e internacional e o papel da formação sindical na organização da classe trabalhadora.

Ao longo da programação, participantes discutiram estratégias para fortalecer os processos formativos da CUT e ampliar o diálogo com trabalhadores e trabalhadoras em diferentes setores, especialmente diante das transformações recentes no mundo do trabalho, como o crescimento da informalidade, a pejotização e a expansão das plataformas digitais.

Mística e construção coletiva

A abertura das atividades foi marcada por momentos de mística que buscaram simbolizar o sentido coletivo da formação sindical. Em uma das dinâmicas, os participantes escreveram seus nomes, suas localidades e palavras que representavam o significado da formação em tarjetas em formato de peixe, posteriormente “pescados” em uma grande rede. A atividade fez uma analogia com o trabalho dos pescadores e representou a união necessária para enfrentar os desafios da luta sindical.

Os participantes escreveram seus nomes, suas localidades e palavras que representavam o significado da formação em tarjetas em formato de peixe | Crédito: Clara Aguiar 

Durante a acolhida aos participantes, a secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti, destacou que a mística expressa o espírito coletivo do processo formativo. “Acho que cada um e cada uma de nós se surpreendeu de alguma maneira com essa mística e se sentiu parte desse processo. Como a pescaria já começou, a gente precisa continuar a pescar”, afirmou.

Posteriormente “os peixes” foram “pescados” em uma grande rede | Crédito: Clara Aguiar 

O coordenador-geral da Escola Sindical Sul, Celso Woyciechowski, também utilizou a metáfora da pesca para falar sobre os desafios da organização sindical. Segundo ele, a formação exige disposição para dialogar com diferentes categorias e chegar a territórios onde a organização sindical ainda é frágil. “É no mar mais revolto que as maiores conquistas têm mais sabor”, afirmou. Ele também ressaltou que o espaço que recebe o encontro foi construído coletivamente pelos trabalhadores. “É a casa da Central dos Trabalhadores, construída ao longo dos anos na base do tijolinho por tijolinho”, disse.

Coordenador-geral da Escola Sindical Sul, Celso Woyciechowski | Crédito: Clara Aguiar 

Adriana Maria Antunes de Souza, representante da CUT Santa Catarina, destacou que a formação sindical como prática política e cultural é pensar na unidade: “É a solidariedade que temos que ter uns com os outros porque ter uma rede fortalecida é uma questão geral”, disse. 

Adriana Maria Antunes de Souza, representante da CUT Santa Catarina | Crédito: Clara Aguiar

Também representando a CUT de Santa Catarina, Rogério Manoel Corrêa destacou a importância da formação sindical em um contexto de disputas políticas e eleitorais. Para ele, a formação contribui para ampliar a consciência política da classe trabalhadora. “Quem passa pela formação da CUT não esquece. Muitas vezes muda o seu jeito de pensar e vira um cidadão completo”, afirmou.

Rogério Manoel Corrêa, da CUT de Santa Catarina | Crédito: Clara Aguiar 

Juventude e desafios políticos

A secretária nacional de Juventude da CUT, Cristiana Paiva Gomes, ressaltou a importância de ampliar a participação da juventude no movimento sindical. Segundo ela, os trabalhadores enfrentam um cenário político desafiador, marcado pelo avanço da extrema direita na América Latina.

Secretária nacional de Juventude da CUT, Cristiana Paiva Gomes | Crédito: Clara Aguiar 

“Temos um desafio grande que é retomar os nossos quadros e fazer com que os sindicatos compreendam a importância de formar jovens e dialogar com a juventude que está chegando ao mundo do trabalho”, afirmou.

Ela também destacou que a presença de jovens nos espaços de decisão é fundamental para fortalecer a representação política da classe trabalhadora em conselhos, governos e parlamentos.

Conjuntura internacional e nacional

O secretário-geral da CUT, Renato Zulato, afirmou que o movimento sindical enfrenta desafios importantes diante da correlação de forças no Brasil e no mundo. Segundo ele, o empresariado brasileiro muitas vezes evita debater temas fundamentais para os trabalhadores.

Secretário-geral da CUT, Renato Zulato | Crédito: Clara Aguiar 

Para Zulato, um dos principais desafios da formação sindical é levar o conhecimento produzido nesses espaços para as entidades e escolas de formação. “O nosso desafio é sair daqui desse encontro e levar esse acúmulo para as nossas escolas e para os nossos planos”, afirmou.

Ele também mencionou o cenário internacional, marcado por disputas políticas e pela atuação de lideranças da extrema direita, citando figuras como Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei. Para o dirigente, esse contexto exige mobilização política permanente do movimento sindical.

A secretária adjunta de formação da CUT, Sueli Veiga de Melo, destacou que a análise de conjuntura é fundamental para compreender esse cenário. “Nós estamos com a extrema direita organizada e com uma ofensiva muito grande”, afirmou. Segundo ela, entender a correlação de forças é essencial para fortalecer a ação política do movimento sindical.

Secretária adjunta de formação da CUT, Sueli Veiga de Melo | Crédito: Clara Aguiar 

O Brasil no cenário global

A mesa sobre conjuntura contou com a participação do advogado e analista geopolítico Hugo Albuquerque, que apresentou uma análise sobre o papel do Brasil no cenário internacional. Segundo ele, o país ocupa uma posição estratégica no equilíbrio global. “O Brasil não é qualquer coisa. É uma democracia chave nesse globo”, afirmou.

Advogado e analista geopolítico Hugo Albuquerque | Crédito: Clara Aguiar 

Albuquerque também alertou para os impactos que conflitos internacionais podem gerar na economia mundial, especialmente em regiões estratégicas para a produção de petróleo.

Já a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), analisou o cenário político nacional e as percepções do eleitorado em relação ao governo federal e ao Partido dos Trabalhadores (PT). Segundo ela, uma das críticas presentes nas pesquisas refere-se à percepção de falta de renovação de propostas políticas.

Cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) | Crédito: Clara Aguiar 

Apesar disso, Rocha destacou que o partido mantém uma base sólida de identificação partidária, estimada entre 25% e 30% do eleitorado.

Avanço da extrema direita

A vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira, alertou para o crescimento da extrema direita no cenário internacional e seus impactos nas disputas políticas no Brasil. Para ela, esses movimentos costumam mobilizar a sociedade a partir da construção de inimigos sociais. “Normalmente é uma pessoa pobre, preta. As mulheres também são inimigas desse povo”, afirmou.

Vice-presidenta da CUT, Juvandia Moreira | Crédito: Clara Aguiar 

Para a dirigente, o desafio do movimento sindical é construir alternativas que respondam aos problemas reais da população sem recorrer a soluções autoritárias. Ela destacou ainda que a formação política é fundamental nesse processo. “A gente não forma só para estudar. A gente forma para agir e transformar isso em coisas concretas”, defendeu.

Educação e disputa ideológica

O debate também abordou o papel da educação na disputa política contemporânea. O professor Fausto Augusto Júnior afirmou que a formação profissional sempre foi um campo estratégico nas disputas entre trabalhadores e empresários.

Professor Fausto Augusto Júnior | Crédito: Clara Aguiar 

Segundo ele, desde o início da industrialização no Brasil, o controle da certificação profissional foi utilizado para reorganizar o mercado de trabalho e reduzir o poder dos sindicatos de ofício. “Educação é um campo de disputa ideológica”, afirmou.

Para o professor, temas como ataques às universidades e a defesa de escolas cívico-militares fazem parte de uma estratégia política que coloca a educação no centro da disputa de projetos de sociedade.

Transformações no mundo do trabalho

As mudanças nas relações de trabalho também estiveram no centro das discussões. Em uma roda de experiências, representantes de diferentes entidades e movimentos trouxeram relatos sobre a organização de trabalhadores informais.

Mudanças nas relações de trabalho também estiveram no centro das discussões | Crédito: Clara Aguiar 

O dirigente Juliano Fripp, da União Nacional dos Camelôs, Ambulantes e Feirantes do Brasil (Unicab), afirmou que a criação do Microempreendedor Individual (MEI) trouxe novos desafios para trabalhadores do comércio informal. Segundo ele, em muitos casos a formalização não foi acompanhada de políticas públicas que garantissem condições reais de trabalho.

Representando trabalhadores em domicílio, Edna Souza Machado Simão destacou a importância de reconhecer essa categoria e ampliar políticas públicas voltadas ao setor. “Apesar de existirmos na CLT desde a sua criação, quase ninguém fala sobre políticas públicas voltadas para essas trabalhadoras”, afirmou.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Aplicativos e de Transporte do Rio Grande do Norte (Sintat/RN), Carlos Cavalcanti, relatou o processo de organização de motoristas por aplicativo. Segundo ele, muitos trabalhadores migraram para as plataformas digitais após perderem empregos no setor de transporte tradicional.

“Alguns trabalhadores entenderam que era importante ter um grupo para dialogar e debater os problemas que estávamos enfrentando”, afirmou.

A representante da organização internacional Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing (WIEGO), Isamar Escalona, destacou que a informalidade cresce em todo o mundo e afeta principalmente mulheres trabalhadoras.

Já Julia Aguiar, do Levante Popular da Juventude, ressaltou que os jovens enfrentam um cenário marcado pela precarização e pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho com direitos garantidos.

Um dos debates da programação de encerramento abordou os desafios das eleições de 2026. A vereadora de Florianópolis pelo PT Carla Ayres esteve presente refletindo sobre a centralidade das disputas eleitorais para a classe trabalhadora.

Vereadora de Florianópolis pelo PT, Carla Ayres | Crédito: Clara Aguiar 

Segundo Ayres, ao longo de sua trajetória política pontuou que a cada processo eleitoral a militância afirma estar diante da “eleição das nossas vidas”. “Mas há 22 anos que a cada dois anos a gente diz: essas são as eleições das nossas vidas”, disse.

Para a vereadora, essa percepção está ligada às condições estruturais enfrentadas pela classe trabalhadora. “Todos os dias que a classe trabalhadora levanta é o dia da vida da classe trabalhadora de sobreviver e resistir frente a uma sociedade capitalista, patriarcal, racista, capacitista e etarista, que busca se reorganizar todos os dias para retirar direitos”, afirmou.

Ayres também destacou que, apesar dos indicadores econômicos positivos do atual governo federal, ainda há dificuldades na comunicação com a sociedade. “A gente não pode ter medo entre nós, companheiros e companheiras, de reconhecer que a gente vive uma crise de projeto e de diálogo com a sociedade”, avaliou.

Disputa política na era digital

Somando ao debate, o pesquisador Ricardo Pessetti destacou que a disputa política atual envolve dimensões globais, que vão além das fronteiras nacionais.

Pesquisador Ricardo Pessetti | Crédito: Clara Aguiar 

Ele chamou a atenção para o papel das plataformas digitais e dos algoritmos na formação da opinião pública. “Os algoritmos também são atores políticos globais hoje. As plataformas segmentam os usuários e premiam o conflito, geralmente causado por ódio, medo e raiva, como forma de gerar engajamento”, afirmou.

Já a assessora da Secretaria Geral da CUT Thalita Coelho destacou o debate sobre estratégias políticas, a importância da organização também no ambiente digital, ressaltando que não basta apenas compartilhar conteúdos nas redes sociais. 

“A presença digital organizada não é só curtir e compartilhar uma vez, precisa de engajamento contínuo”, afirmou.

Assessora da Secretaria Geral da CUT, Thalita Coelho | Crédito: Clara Aguiar 

A assessora explicou que a central tem investido na criação de brigadas digitais como parte de uma estratégia permanente de disputa política nas redes. “Desde 2021, a CUT vem disputando o território digital. Esse é um território que interfere no processo eleitoral, no parlamento e também na organização sindical”, disse.

Segundo ela, durante as eleições de 2022 foram criadas cerca de 500 brigadas digitais, mesmo com estrutura reduzida. A meta agora é ampliar a iniciativa. “Até o próximo congresso da CUT, todos os sindicatos e entidades cutistas precisam ter pelo menos uma brigada digital”, destacou.

Além da atuação nas redes, a estratégia também envolve a disputa política nos territórios onde os trabalhadores vivem, trabalham, estudam e se organizam.

No encerramento da oficina, a secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti, destacou o trabalho coletivo que possibilitou a realização da atividade e reforçou a importância da continuidade do processo formativo.

Secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti | Crédito: Clara Aguiar 


Segundo Bertotti, a oficina foi resultado de uma ampla preparação que envolveu encontros estaduais, reuniões e a mobilização de militantes em diferentes regiões do país. “Para a gente chegar até aqui, teve todo um processo formativo, encontros estaduais e reuniões preparatórias”, relatou.

Ela também destacou a importância de experimentar novas metodologias de formação e refletir coletivamente sobre os processos pedagógicos utilizados durante a atividade.

Por fim, Bertotti reforçou o compromisso com a ampliação da formação sindical na base. Atualmente, segundo ela, o projeto conta com cerca de 180 educadores militantes, e cada participante foi desafiado a realizar ao menos uma formação em seus territórios.

“É bonito estar aqui, mas é fundamental que a formação de base aconteça. E não venham dizer que este é ano de eleição e que não dá para fazer formação. Aí é que tem que fazer companheirada”, esperançou.

Planejamento e próximos passos

A programação também incluiu trabalhos em grupo, apresentação da estratégia da Secretaria Nacional de Formação da CUT para 2026 e o lançamento do hotsite “Negociação Coletiva, Memória e Formação e Luta Sindical”, que reunirá conteúdos formativos e registros históricos do movimento sindical.

Também foi realizada uma feira pedagógica com experiências de formação desenvolvidas por diferentes ramos e regiões da CUT, além de iniciativas de organizações ligadas à economia solidária e ao trabalho informal.

Confira mais fotos:

Crédito: Clara Aguiar
Crédito: Clara Aguiar
Crédito: Clara Aguiar
Crédito: Clara Aguiar 
Crédito: Clara Aguiar 
Crédito: Clara Aguiar 
Editado por: Katia Marko

|

Newsletter