A justiça climática só será possível se os grupos mais afetados tiverem protagonismo na criação de soluções e alternativas possíveis. E isso começa pela comunicação.
Quando comecei a trilhar um caminho na militância por justiça climática, uma grande frustração com a qual me deparei foi a dificuldade para estabelecer um diálogo sobre o colapso ambiental. Mesmo morando no meio da Amazônia e vivenciando diariamente os efeitos da mudança do clima, percebia uma resistência das pessoas a esse tema. Logo entendi que a forma como a sociedade compreende a crise climática depende diretamente das condições de produção e circulação de informação.
Quando penso no direito à comunicação não penso apenas na qualificação do debate público, mas também na pluralidade de vozes tão importante ante a um contexto de disputa de sentidos e visões de mundo sobre o que está em jogo quando falamos de clima, território e futuro coletivo. Afinal, não é aceitável que o debate público seja capturado por poucos atores econômicos e políticos, que moldam a agenda conforme seus interesses próprios.
A recente vitória do movimento indígena contra a privatização de hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins é um lembrete disso. Por mais de 30 dias, quase 2 mil indígenas ocuparam o terminal da empresa estadunidense Cargill, em Santarém (PA), bloqueando a entrada e saída de veículos, além de mobilizar protestos na sede da empresa, em São Paulo (SP). O movimento resultou na revogação do decreto 12.600/2025 pelo governo federal, no último dia 23 de fevereiro.
A exemplo do que aconteceu em 2025, durante a ocupação da sede da Secretaria de Educação (Seduc) do Pará, enquanto a linha de frente das informações sobre a mobilização ficou a cargo da comunicação popular, a cobertura da mídia hegemônica desconsiderou por completo o movimento indígena e reproduziu preconceitos históricos contra os povos originários. Editoriais e reportagens de grandes veículos tradicionais classificaram a manifestação como “baderna”, “invasão”, “truculência” e “chantagem”.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) reagiu em nota oficial e destacou que os textos “jornalísticos” ignoram os argumentos dos povos indígenas e reforçam a narrativa de que a defesa dos territórios é “radicalismo” e que indígenas são inimigos do “progresso”. “A luta pela garantia de direitos fundamentais jamais deve ser inferiorizada ou minimizada, ainda mais por veículos de imprensa, que têm o dever moral de prezar pela liberdade de manifestação e pela democracia”, reforçou a nota.
A infeliz cobertura da ocupação indígena na Cargill não é um fato isolado. Há muito tempo a mídia hegemônica enfrenta limitações estruturais, uma vez que grande parte dos veículos de comunicação depende economicamente de publicidade ou financiamento de setores como petróleo, mineração e agronegócio, que, vale lembrar, estão entre os principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa e pela degradação ambiental.
Não por acaso a cobertura se mostra superficial, parcial e aquém do necessário para fomentar um debate crítico sobre a crise climática. Na pesquisa Vozes Silenciadas Energias Renováveis: a cobertura da mídia sobre a transição energética no Brasil, alertamos que a cobertura jornalística tende a suavizar conflitos ambientais, destacar soluções de baixo impacto real e evitar questionar a estrutura econômica que sustenta a crise climática, secundarizando ou suprimindo as vozes dos movimentos sociais e das comunidades mais afetadas.
Para além da mídia tradicional, os algoritmos das Big Tech priorizam conteúdos de maior potencial engajamento criando um ambiente perfeito para a propagação do negacionismo e da desinformação como nunca. Isso, claro, com impulsionamento de atores políticos e uso de recursos públicos, enquanto a ausência de regulação econômica possibilita a circulação de campanhas de desinformação patrocinadas por setores econômicos sem qualquer transparência.
No ambiente digital, enquanto o Brasil segue um dos países mais perigosos para defensores de direitos, ativistas enfrentam campanhas sistemáticas de assédio que buscam deslegitimar seu trabalho e intimidar outros potenciais defensores. A pesquisa Plataformas tóxicas, planeta em colapso, da Global Witness, mostra os desafios que os defensores enfrentam nas redes sociais, onde 92% das pessoas entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de ataque ou assédio online como resultado de seu trabalho.
Como resultado, além de danos psicológicos e à reputação, a combinação de discurso de ódio e desinformação nas plataformas digitais coloca em xeque a integridade física de pessoas defensoras. Frequentemente, ainda segundo a Global Witness, defensores que foram alvo de ataques virtuais também relatam ataques fora do ambiente digital. Para 75% das vítimas entrevistadas, a violência online contribuiu para os episódios de violência offline.
Diante desse cenário, só é possível firmar que fortalecer o direito à comunicação torna-se um elemento estratégico para enfrentar a crise climática, o que passa por promover políticas públicas de democratização dos meios de comunicação, garantir uma regulação democráticas das plataformas digitais e investir em educação midiática em uma perspectiva de garantia de direitos. A justiça climática só será possível se os grupos mais afetados tiverem protagonismo na criação de soluções e alternativas possíveis para que o céu não caia sobre nós. E isso começa pela comunicação.
* Gabriel Veras é jornalista, ativista, pesquisador e educador popular. Cofundador da Abaré Escola de Jornalismo e associado do Intervozes, em Manaus (AM).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
