TECENDO CUIDADO

Hospital público de Porto Alegre adota lençóis orgânicos produzidos por cooperativas

Parceria entre Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e rede solidária Justa Trama prevê investimento de R$ 400 mil

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Entrega de enxovais orgânicos marca ampliação de parceria entre hospital público e cooperativas solidárias
Entrega de enxovais orgânicos marca ampliação de parceria entre hospital público e cooperativas solidárias | Crédito: Chico Lisboa/GHC

O Hospital Fêmina, em Porto Alegre, iniciou a ampliação do uso de lençóis de algodão orgânico produzidos pela rede de economia solidária Justa Trama, em uma iniciativa que conecta o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) à produção sustentável e coletiva. O projeto, conduzido pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), prevê investimento de aproximadamente R$ 400 mil e será implementado de forma gradual nos mais de 160 leitos da unidade, referência no atendimento a mulheres e recém-nascidos.

O anúncio foi realizado durante a entrega de um novo lote de enxovais, na sede da Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens), no bairro Sarandi, reunindo trabalhadores da cadeia produtiva, gestores públicos e representantes da rede solidária. Parte dos lençóis já vinha sendo utilizada desde março de 2024, especialmente nas áreas de Oncologia e Pediatria, que agora passam por renovação dos materiais.

Qualidade do cuidado e impactos na saúde

A adoção de lençóis de algodão orgânico tem sido associada a melhorias no ambiente hospitalar, tanto do ponto de vista clínico quanto do conforto dos pacientes. Segundo o diretor do Hospital da Criança Conceição, Diego Kurtz, os resultados observados até o momento indicam redução nas taxas de infecção hospitalar, embora ele ressalte que esse avanço está relacionado a um conjunto de medidas adotadas pela instituição.

De acordo com Kurtz, análises microscópicas apontam menor presença de bactérias nos tecidos orgânicos em comparação aos materiais convencionais, o que pode contribuir para ambientes mais seguros. A avaliação técnica integra estratégias mais amplas de controle de infecção hospitalar, que incluem protocolos de higiene, manejo de materiais e qualificação das equipes.

Na mesma linha, a diretora da rouparia do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), Mara Dias, destaca que o uso dos novos lençóis também impacta diretamente o bem-estar dos pacientes. Segundo ela, há relatos de maior conforto durante a internação e redução de reações alérgicas, especialmente em públicos mais sensíveis, como crianças e pessoas em tratamento oncológico.

Já o diretor administrativo do GHC, João Mota, afirma que a ampliação da parceria está alinhada ao compromisso institucional com a qualificação do atendimento no SUS. Para ele, a iniciativa demonstra que é possível integrar qualidade assistencial com práticas sustentáveis e socialmente responsáveis dentro da rede pública de saúde.

Produção solidária e desenvolvimento sustentável

A parceria também evidencia o papel da economia solidária como parte de políticas públicas mais amplas. A coordenadora da Justa Trama no Rio Grande do Sul, Nelsa Nespolo, avalia que a iniciativa tem um significado simbólico e prático, ao conectar o trabalho de mulheres produtoras com o cuidado oferecido a outras mulheres e recém-nascidos em um hospital público.

Segundo Nespolo, o fortalecimento da economia solidária por meio de compras institucionais contribui para gerar renda, manter cadeias produtivas locais e ampliar o alcance de práticas sustentáveis. Ela afirma que iniciativas desse tipo demonstram como políticas públicas podem estimular modelos econômicos alternativos.

Na avaliação de Alex Borba, gerente de Gestão de Pessoas do GHC, a experiência aponta para um potencial mais amplo. Ele sustenta que, ao incorporar produtos oriundos da agricultura familiar e da produção cooperativa, o SUS pode atuar como indutor de desenvolvimento sustentável, articulando saúde pública e geração de trabalho e renda.

Da lavoura ao hospital

A rede Justa Trama reúne cerca de 600 trabalhadores em cinco estados brasileiros e organiza uma cadeia produtiva completa, que vai do cultivo agroecológico do algodão até a confecção final das peças. O modelo integra agricultores familiares, fiadores, tecelões e costureiras, garantindo rastreabilidade e controle sobre todo o processo produtivo.

O algodão utilizado é cultivado sem agrotóxicos, seguindo princípios da agroecologia. A matéria-prima passa por cooperativas que realizam as etapas de fiação e tecelagem, até chegar às unidades de confecção, como a Univens, responsável pela produção dos enxovais entregues ao hospital.

A atividade de entrega dos novos lotes ocorreu em um contexto de retomada para a cooperativa, que foi fortemente impactada pelas enchentes de maio de 2024. Parte dos equipamentos e da estrutura produtiva foi danificada, interrompendo as atividades. A recuperação foi viabilizada por meio da doação de máquinas, com apoio da Fundação Banco do Brasil e da União e Solidariedade das Cooperativas e Empreendimentos de Economia Social (Unisol), no âmbito do programa Reconstrução RS.

Perspectivas e ampliação

A iniciativa ainda está em fase de expansão dentro do Hospital Fêmina, mas a expectativa do GHC é de que o modelo possa ser ampliado para outras unidades e inspire experiências semelhantes em diferentes regiões do país. A presença de representantes dos cinco estados que integram a Justa Trama, reunidos em Porto Alegre para a assembleia nacional da cadeia produtiva do algodão orgânico, reforça o interesse em consolidar e replicar a experiência.

Durante o encontro, a rede também apresentou uma nova linha de lençóis bordados à mão, ampliando sua produção para além das compras institucionais e buscando novos mercados. A estratégia combina geração de renda para os trabalhadores envolvidos e fortalecimento de um modelo produtivo baseado na cooperação e na sustentabilidade.

Editado por: Marcelo Ferreira

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