Red Pill será crime

ECA Digital pode proteger meninas do movimento red pill no ambiente virtual

Deputada federal Maria do Rosário afirma que para 'barrar feminicídio tem que começar antes, na cultura da violência'

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Little girl uses smartphone, lying on pillow at home, gadgets addiction concept.
A Lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) n° 15.211/2025, começou a valer no Brasil na terça-feira (17) | Crédito: Freepik

O Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), sancionado pelo presidente Lula, representa uma vitória histórica para a infância brasileira e um avanço na soberania nacional diante da pressão das big techs. No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a deputada federal Maria do Rosário (PT) detalha os mecanismos de proteção previstos na nova lei, com especial atenção às meninas, principais vítimas de violências como deep fakes sexuais e exposição misógina nas redes.

A deputada começa respondendo a um dado alarmante: levantamento da Safernet apontou 173 vítimas de deep fakes sexuais em escolas brasileiras — todas mulheres, incluindo professoras e alunas adolescentes. Ela observa que com o ECA Digital “através de uma série de mecanismos, as plataformas digitais e as redes sociais passarão a ter responsabilidade sobre esse conteúdo.”

Maria do Rosário explica o fluxo de denúncia. “Ao se deparar com exploração sexual, cyberbullying, incentivo à automutilação, racismo, machismo, misoginia, é preciso guardar a prova, fazer print, estabelecer o link, denunciar na plataforma. A plataforma passa a ter a responsabilidade de chamar as autoridades, tirar o conteúdo do ar e mantê-lo guardado como prova contra o agressor.”

A lei também estabelece que contas acessadas por crianças e adolescentes até 16 anos devem ter um adulto responsável, e as plataformas não poderão mais aceitar a autodeclaração de idade como único critério. “Uma série de mecanismos para aferir a idade serão disponibilizados”, garante a deputada.

Sobre a preocupante tendência de meninas que viralizam com conteúdos de “casamento infantil” e “dona de casa blogueira”, Maria do Rosário é enfática. “Sempre que há uma apresentação desse tipo, está-se definindo uma forma de ser menina, uma forma de ser mulher, e dizendo que as outras formas estão à margem. Isso gera o ódio misógino contra quem não se encaixa.”

A lei, explica, não esgota todas as situações, mas dá ferramentas. “Casaramento infantil é totalmente proibido, ilegal, violento, e configura estupro de vulnerável. O ECA digital permite tirar do ar e responsabilizar quem coloca essas informações. Se forem adolescentes, eles responderão com medidas previstas no próprio estatuto.”

Ela conecta esses conteúdos à proliferação de grupos como Red Pill, Incel e outros que propagam a superioridade masculina. “Eles levam adiante um processo de pensamento que incentiva o ódio. Vimos recentemente uma trend em que a pergunta era ‘se a menina disser não, o que eu faço com ela?’, e vinham respostas com socos e violência. Essa cultura está nas redes, mas está na sociedade também.”

Maria do Rosário anuncia que o ECA digital é apenas o começo. “Nós queremos que o Brasil tenha uma lei nítida, clara, para enfrentar os outros ódios produzidos na internet. Não existe hoje um mundo real que não seja o virtual e o físico ao mesmo tempo. Toda violência contra mulheres nas redes repercute para dentro de casa e se transforma em violência cotidiana.”

Ela lembra que o ódio misógino alimenta o feminicídio. “Se queremos barrar o feminicídio, temos que começar antes, antes mesmo das primeiras violências, antes da própria cultura da violência.”

Por isso, a deputada protocolou um projeto de lei que tipifica como crime a atuação de grupos misóginos como os Red Pill e Incel. “Essa é uma contribuição que precisamos garantir para o Brasil. Será uma nova batalha, contra o machismo, contra a misoginia, contra o ódio. Mas é por todas nós.”

A deputada destaca a dificuldade de aprovar o ECA digital diante da pressão das grandes empresas de tecnologia. “Nós vimos as big techs, as redes, os poderosos econômicos que têm deputados e senadores representando seus interesses. Setores sociais altamente organizados fizeram lobby na Câmara em defesa de interesses privados.”

Mas a vitória veio. “Aprovamos o ECA digital afirmando que os direitos das crianças e adolescentes estão acima do lucro e da exploração. Agora, queremos ir mais adiante. As big techs precisam saber que o lucro delas não é mais importante que a nossa vida.”

Ela conclui com um apelo à mobilização. “Os canais oficiais de denúncia são a Safernet Brasil e o Disque 100, canal de direitos humanos que funciona 24 horas. A proteção agora está em primeiro lugar.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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