A música de Johnny Hooker sempre transitou entre a emoção, a política e a experimentação. Natural de Recife, o cantor e compositor pernambucano se consolidou como uma das vozes mais marcantes da música brasileira contemporânea, com canções que misturam drama, amor e crítica social. Agora, ele lança seu quarto álbum de estúdio, Viver e Morrer de Amor na América Latina, um trabalho que celebra parcerias icônicas e reafirma sua identidade latino-americana.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o artista falou sobre o novo disco, a relação com o cinema, os clipes como extensão de sua arte e a importância de representar narrativas queer em um cenário musical que, há poucos anos, ainda era hostil a essas histórias.
Para Hooker, a identidade latino-americana não é uma escolha, mas uma consequência de suas origens. “Quem nasce em Recife já nasce com essa latinidade. Só por você nascer num lugar que tem frevo, maracatu, o brega de Reginaldo Rossi, a ciranda de Lia, você já está embebido nessa cultura latino-americana em algumas de suas expressões mais ricas.”
O artista destaca que essa influência sempre esteve presente em seu trabalho, não apenas nos ritmos, mas também politicamente. “É uma cidade muito engajada. Não à toa, Pernambuco foi um país um dia. A gente tem orgulho da nossa história. Ao mesmo tempo, é um lugar de muita desigualdade social, e isso também inspira politicamente o discurso do trabalho.”
O novo álbum traz parcerias que Hooker considera uma honra inenarrável: Ney Matogrosso, Daniela Mercury e Lia de Itamaracá, esta última um patrimônio cultural de Pernambuco. A faixa-título, Viver e Morrer de Amor na América Latina, foi escrita especialmente para Ney. “Quando escrevi essa música, eu sabia que tinha que ser com ele. A música falava sobre ele também. Ele que sempre cantou tão lindamente a América Latina, um farol de liberdade e autenticidade para todos nós da música brasileira.”
A parceria com Daniela Mercury veio em um frevo que une Bahia e Pernambuco. “Ela sempre foi uma rebelde, uma provocadora, como eu gosto de ser. A gente sempre foi amigo há muitos anos. Não podia ter coisa melhor do que um frevo para acabar com essa rixa.” Já Lia de Itamaracá, “vem para finalizar o álbum em chave de ouro, para abençoar o projeto”.
Cinema e música: os clipes como filmes
Hooker dirige e roteiriza a maioria de seus clipes, e o novo álbum vem acompanhado de 10 “filminhos” — um para cada faixa. “Cometi essa loucura de fazer clipes para todas as faixas porque minha relação com o cinema é muito intrínseca. O cinema sempre foi minha maior paixão, meu farol guia para criar musicalmente.”
O artista pernambucano cresceu acompanhando a retomada do cinema de seu estado, desde Baile Perfumado (1997) até os curtas e longas atuais. “Poder trazer essa relação do cinema com a música é talvez a maior alegria que eu tenha do meu trabalho.”
O clipe de Nunca Vai Passar, lançado recentemente com o ator Johnny Massaro, aborda as cicatrizes deixadas pelas paixões. “Eu me entreguei, o Johnny se entregou, e acho que ficou muito bonito, muito potente.” O clipe de Kunai contou com a atriz Débora Nascimento. “Na minha videografia, pude trabalhar com atores incríveis. O teatro sempre abraçou muito meu trabalho.”
Ele lembra que, na época de Amor Marginal, ninguém estava fazendo aquilo. “Depois veio toda aquela onda, a primavera queer, com Liniker, Pablo [Vittar], Glória Groove. Hoje, a geração mais jovem acha que isso sempre teve. Mas não é assim. É uma obra de resistência. Tem que valorizar.”
Serviço
Os fãs poderão conferir o novo trabalho ao vivo nos dias 11 e 12 de abril, no Sesc Pompeia, em São Paulo. “Vai ser a estreia do show do novo álbum. Fiquem ligados no site do Sesc, porque os ingressos voam.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
