Mais de 15 mil professores da rede pública do Distrito Federal tiveram o salário de março pago com atraso e com valores incorretos. Alguns profissionais receberam menos de R$ 200, outros sequer viram o dinheiro cair na conta. Educadores sociais voluntários também não foram pagos. A confusão, atribuída pela Secretaria de Educação a uma “inconsistência na base de dados” do sistema Educa DF, não é novidade para a categoria — e escancara um problema mais profundo: a terceirização da gestão educacional e a falta de fiscalização sobre contratos milionários.
O deputado distrital Gabriel Magno (PT/DF) contextualiza que o problema não é isolado. “Primeiro porque todos os anos acontece a mesma coisa. Os professores saem de férias coletivas em dezembro e retornam em fevereiro. A necessidade de organizar e planejar o pagamento não é surpresa.”
Ele revela que a Secretaria de Educação foi alertada ainda no dia 5 de fevereiro. “Nós apresentamos um ofício à Secretaria. A subsecretária de gestão de pessoas, Ana Paula, assinou um documento dizendo que o pagamento seria efetuado até o dia 10 de março. Não cumpriram. Pagaram no dia 12, com erros”, denuncia no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
O Educa DF, sistema de gestão educacional contratado da empresa paulista Caixa Informática, é apontado como o grande vilão. “É um sistema privado que a Secretaria de Educação já empenhou mais de 40 milhões de reais. Não funciona. Não conseguiu enturmar os estudantes no início do ano letivo, não consegue fazer professores preencherem o diário, e agora prejudica o pagamento de salário.”
O deputado lembra que o Brasil de Fato já denunciou o problema anteriormente: “Teve estudante que não conseguiu se matricular na universidade porque a escola não conseguia emitir a declaração de conclusão do ensino médio. O sistema não funciona.”
O impacto direto é sobre a categoria. “São mais de 700 professores que não receberam nada ou receberam apenas o auxílio alimentação, menos de R$ 200. Mais de 15 mil professores tiveram o salário atrasado e com valores errados.”
Magno destaca a contradição entre o discurso e a prática do governador Ibaneis Rocha (MDB). “Na campanha, ele disse que os professores eram a categoria mais importante, que deveriam receber igual a juiz. Não só não recebem igual, como seu governo tratou criminalizando as greves e agora não paga o salário em dia.”
O deputado conecta o problema do pagamento a um padrão mais amplo da gestão Ibaneis. “O escândalo do Banco Master é prova do desastre que foi esse governo que abandonou a cidade, abandonou as políticas públicas e girou a máquina pública para fazer negócio. É um governo de negócio.”
Ele cita investigações da polícia sobre contratos na Secretaria de Educação. “Aluguel da própria sede que funciona no shopping, aluguel da universidade do Distrito Federal e vários outros contratos. É dinheiro público destinado a empresários que não entrega serviço de qualidade.”
Magno detalha as ações já realizadas. “Acionamos o Tribunal de Contas pedindo a suspensão imediata do contrato com a Caixa Informática. Agora, também acionamos o Ministério Público do Distrito Federal.”
A solicitação é clara: suspensão e rompimento do contrato, devolução dos recursos ao erário e responsabilização — administrativa, civil e criminal — tanto dos agentes públicos que assinaram e não fiscalizaram, quanto da empresa privada que recebeu o dinheiro e não prestou o serviço adequado.
O deputado, que é professor concursado da rede pública, conclui com uma lição aprendida nos movimentos sociais. “Uma coisa que aprendi com o MST: governo e feijão só ficam bons com pressão. O papel nosso hoje na Câmara Legislativa é fazer essa pressão, essa fiscalização, para que a gente possa entregar para a sociedade que paga imposto os direitos garantidos na Constituição. Eles precisam ser cumpridos, precisam ser respeitados”, conclui.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

