Autoridades iranianas voltaram a negar qualquer diálogo com o governo dos Estados Unidos e afirmaram que não haverá acordo com o país em meio à escalada do conflito no Oriente Médio.
A posição contraria as declarações do presidente estadunidense Donald Trump sobre negociações em curso para encerrar a guerra iniciada por Israel e pelos EUA. O republicano afirmou, na segunda-feira, que decidiu adiar ataques militares contra o Irã após o que descreveu como conversas “muito boas e produtivas” entre os dois países.
O professor da Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Filipe Giuseppe Ribeiro, afirma que a leitura do Irã sobre negociações com os Estados Unidos parte de experiências anteriores e de episódios recentes de conflito. “Quando o Irã está negociando com os Estados Unidos, e isso já aconteceu algumas vezes no passado recente, ele nota que os Estados Unidos não cumprem com a sua palavra”, disse em entrevista ao Conexão BdF – 1ª Edição, do Brasil de Fato, desta quarta-feira (25).
Ribeiro lembra que o acordo nuclear firmado em 2015, durante o governo de Barack Obama, reuniu os países do P5+1 e resultou em um entendimento comum. O acordo “envolvia os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e também a Alemanha. Eles haviam acordado, todos chegaram a um ponto em comum e assinaram esse acordo. Logo depois, os Estados Unidos se retiram deste acordo e começam uma política ostensiva de narrativas contra o Irã”, diz.
Segundo o professor, episódios recentes reforçam essa percepção. No ano passado, o Irã participava de negociações quando foi alvo de ataques dos EUA e de Israel. Neste ano, houve nova tentativa de acordo, com mediação internacional, seguida por nova ação militar.
“Enquanto estavam comemorando um possível acordo, no dia seguinte, mais uma vez eles são surpreendidos com o ataque. Mais uma vez, o Irã percebe que as negociações com os Estados Unidos são uma maneira de gerar uma espécie de diversionismo.”
A avaliação é que, diante desse histórico, há desconfiança sobre as intenções estadunidenses. Ribeiro aponta que as movimentações militares na região do Estreito de Ormuz reforçam essa leitura. “Como o Irã pode acreditar que vai fazer um acordo com os Estados Unidos, sendo que eles estão mobilizando tropas que podem realizar um plano de ocupação territorial, pelo menos restrita, na região do Estreito de Ormuz? É possível concluirmos que o Irã não está acreditando que realmente os Estados Unidos queiram, de fato, fazer algum tipo de acordo”, diz.
Custos políticos
Segundo Ribeiro, o prolongamento do conflito até ciclos eleitorais nos Estados Unidos e em Israel pode ampliar impactos econômicos globais e gerar pressão interna. “Se o Irã tiver a capacidade de manter a guerra até as eleições estadunidenses e as eleições de Israel, esse prolongamento poderia gerar mais recessão global e mais descontentamento da população nos EUA”, diz.
“É bom lembrarmos que, embora as empresas estadunidenses de petróleo estejam ganhando muito dinheiro, pois o barril aumenta, seus lucros e dividendos crescem e elas expandem mercados, isso aumenta o custo de vida da sociedade estadunidense. É um ganho para algumas poucas empresas que formam um oligopólio importantíssimo e um custo muito alto para a sociedade no geral. Isso pode ter um custo político para o Trump”, acrescenta.
No caso israelense, ele afirma que ataques iranianos têm atingido estruturas em cidades como Tel Aviv e Haifa, o que pode gerar reação interna. Para o professor, esse contexto pode influenciar o cenário político local. “Isso tende a gerar um descontentamento muito grande dentro da sociedade israelense, que já estava com Netanyahu no limite. Vamos lembrar que ele está tentando fugir de processos bastante graves que poderiam terminar com sua prisão’, diz.
Nesse sentido, a estratégia do Irã em prolongar a guerra cria um ambiente de mudança de regime dentro dos Estados Unidos e de Israel para, então, negociar dentro dos seus próprios termos.
A guerra dos EUA e de Israel no Irã começou no dia 28 de fevereiro, quando o então líder supremo do país, Ali Khamenei, foi morto junto a comandantes e civis. As ações incluíram bombardeios contra alvos em diferentes regiões do país, com registros de mortos e danos à infraestrutura. Em resposta, as Forças Armadas do Irã realizaram operações contra posições dos Estados Unidos e de Israel em territórios ocupados e bases na região, com uso de mísseis e drones.
