O espetáculo de dança Corpa Futurista será apresentado nesta sexta-feira (27), dentro da programação do Viva Usina 2026, na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa. A apresentação está prevista para as 20 horas, com entrada gratuita e classificação indicativa livre, conforme informações divulgadas pela organização do evento na página oficial do projeto Viva Usina.
A performance integra uma programação mais ampla que reúne teatro, artes visuais e música, e propõe uma experiência cênica baseada na improvisação e na interação direta com o público.
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A performance se estrutura como um trabalho em roda, inspirado em práticas tradicionais da cultura popular, e articula diferentes linguagens da dança e da música. De acordo com as artistas Karla Oliveira e Lua Camboatá, a proposta mistura manifestações como coco de roda, ciranda e cavalo marinho com referências afro-diaspóricas, como hip-hop e cultura ballroom.

As criadoras afirmam que o espetáculo é pensado para espaços diversos – de teatros a ruas e praças – e se constrói a partir de uma relação viva entre corpo, ambiente e público. A performance busca explorar dimensões como memória coletiva, identidade e processos de cura por meio da arte. A concepção, coreografia e performance são assinadas por Karla Oliveira e Lua Camboatá, com direção de Valéria Vicente e trilha sonora de Lucas Dan.
Trajetórias marcadas por retomadas culturais
Em entrevistas, elas relatam que o contato inicial com essas expressões culturais ocorreu nos territórios onde cresceram, em bairros periféricos de João Pessoa. No entanto, destacam que esse vínculo foi atravessado por processos de apagamento cultural.
“Nossos primeiros contatos nasceram nos territórios onde crescemos. Eu, entre o Jardim Veneza e os Novais, cercada por ala ursa, quadrilhas, lapinha e capoeira. Karla, no bairro da Torre, símbolo da cultura periférica e do carnaval tradição de João Pessoa”, explica Camboatá.

Ela ressalta, no entanto, que essas vivências não chegaram como herança consciente na infância. Segundo a artista, como ocorre com muitas pessoas, houve um processo de apagamento das culturas negras e indígenas enquanto potência, memória e resistência e acrescenta que experiências com o cavalo marinho e outras práticas populares contribuíram para um processo de reconhecimento identitário e espiritual.
Pesquisa acadêmica e criação em dança
As artistas também relacionam a criação do espetáculo a pesquisas acadêmicas desenvolvidas nos últimos anos. Camboatá afirma que investiga práticas pedagógicas baseadas em culturas populares no mestrado em artes da Universidade Federal da Paraíba – Ufpb. A pesquisa inclui manifestações como coco de roda, ciranda, frevo, maracatu e capoeira, articuladas em processos formativos que circularam por cidades paraibanas por meio de editais públicos.
Já Karla Oliveira desenvolve estudos ligados às danças urbanas e à cultura hip hop, aproximando diferentes linguagens corporais. Segundo as artistas, esses percursos acadêmicos e pedagógicos influenciam diretamente a composição de Corpa Futurista.

Improvisação e construção coletiva
O espetáculo é organizado como uma travessia simbólica por diferentes elementos, incorporando múltiplas referências ao longo da apresentação.
“Ele se organiza como uma travessia pelos elementos: iniciamos o espetáculo na terra: onde pedimos licença e evocamos a ancestralidade com samba de roda e coco de roda. Passamos para fogo: que irrompe no cavalo marinho e no frevo. atiçamos esse fogo com Ar: nas danças urbanas no breaking, citação de vogue, house, citação de passinho, maracatu, entre outras. abrandamos as energias de cura com Água: na capoeira angola e no contato improvisação.E finalizamos com o forró, num clima de reunião, descontração, celebração viva e em expansão.”
A improvisação aparece como eixo central, permitindo que cada apresentação se adapte ao espaço e ao público presente.
Não se trata de modernizar as tradições, mas de atravessar e sincronizar temporalidades. O futuro para nós é ancestral e está em movimento
Elas afirmam que o termo “corpa” busca ampliar a noção de corpo, incluindo experiências, memórias e saberes que emergem da encruzilhada entre diferentes culturas. “Corpa’ é isso que queremos dizer: não é apenas o corpo físico, é tudo o que emerge da encruzilhada entre saberes, estéticas e experiências. É um corpo que está a caminho.”
Parcerias e circulação artística
A criação de Corpa Futurista também se desenvolveu a partir de colaborações com outros artistas, como a cantora Luana Flores, no projeto Nordeste Futurista. Segundo as intérpretes, essa parceria contribuiu para a construção da pesquisa estética que originou o espetáculo. O trabalho surgiu inicialmente vinculado a produções audiovisuais e musicais, mas passou a se consolidar como investigação em dança a partir de 2023. As artistas afirmam que a valorização das expressões populares está diretamente relacionada à preservação de memórias e modos de existência.
“Há coisas que não cabem em resposta, só em experiência. Mas talvez seja isso: essas expressões são como o ar. Não pensamos nelas o tempo todo, mas é o que respiramos e nos mantém vivas. Elas organizam nossos valores, nossas formas de conviver, de celebrar, de protestar, de existir. São lazer, sustento, terapia e memória. Para mim, como mulher negra, são também tecnologias de permanência no mundo. Manter essas manifestações vivas é garantir que as próximas gerações saibam que, mesmo diante das durezas da vida, seguimos cantando, dançando, tocando e contando nossa história com o corpo inteiro. O carnaval é uma Corpa”, afirma Camboatá.
Programação diversificada marca a sexta-feira no Viva Usina
Além de Corpa Futurista, a programação da sexta-feira no Viva Usina 2026 reúne diferentes linguagens artísticas. Segundo informações divulgadas na página oficial do evento, a agenda tem início às 15 horas, na Sala Vladimir Carvalho, com o recital “Sankofa: Ritmo e Poesia”, da artista Isadroga, que articula slam e rap.
Às 19 horas, na Galeria Alexandre Filho, será aberta a exposição “Cariri Venoso Ancestral”, da artista Adriana Araújo de Farias, com fotografias que abordam memória e identidade cultural. Na sequência, às 21 horas, também na Sala Vladimir Carvalho, o Grupo Teatral Boiuna Luna apresenta o espetáculo “Bella”, em alusão ao Dia Nacional do Teatro, propondo “uma reflexão sobre beleza e valores humanos por meio do teatro de animação”. As informações estão disponíveis no perfil oficial do projeto Viva Usina.
