Na cidade costeira de Boao, em Qionghai, na ilha e província de Hainan, na China, está acontecendo a Conferência Anual 2026 do Fórum Econômico de Boao (BFA), conhecido como o “Davos asiático”. Com o lema “Forjando um futuro compartilhado: novas dinâmicas, novas oportunidades, nova cooperação”, o evento ocorre de 24 a 27 de março, reunindo mais de 2 mil representantes de governos, empresas e academia de mais de 60 países, consolidando-se como espaço estratégico para a cooperação econômica e diplomática da Ásia.
O fórum acontece em um momento com importantes marcos: o início do 15º Plano Quinquenal da China (2026–2030), o primeiro ano completo das operações especiais da Zona de Livre Comércio de Hainan, e o 25º aniversário do Boao Forum. Entre os participantes, destaca-se Zhao Leji, presidente do Comitê Permanente do Congresso Nacional do Povo da China, principal órgão legislativo do país e uma das figuras mais influentes do Partido Comunista Chinês, além de líderes internacionais e mais de 80 executivos estrangeiros.
Hainan, além de sediar o fórum, se consolida como um polo de comércio internacional e inovação, com incentivos fiscais e operações aduaneiras simplificadas, reforçando a relevância do fórum no contexto do crescimento econômico regional e global.
Segundo os organizadores do BFA, o evento teve como objetivo oferecer respostas concretas à incerteza global, promovendo cooperação regional, soluções compartilhadas e liderança asiática em estabilidade econômica, inovação e sustentabilidade.
Quase 50% da economia global
O evento incluiu mais de 50 pequenos fóruns, mesas-redondas e sessões de diálogo, abordando temas como perspectivas econômicas da China, portos livres globais e economia verde.
Os relatórios estratégicos do fórum reforçam o papel central da Ásia na economia global. O “Panorama Econômico Asiático e Avanços da Integração” indica que as economias asiáticas continuam como principal motor do crescimento global, com participação no Produto Interno Bruto (PIB) mundial projetada para subir de 49,2% em 2025 para 49,7% em 2026, enquanto China e Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) atuam como âncoras de estabilidade regional, essenciais diante de tensões geopolíticas e fragmentação econômica global.
O segundo relatório, “Desenvolvimento Sustentável na Ásia em Meio à Transformação Global”, evidencia que a Ásia lidera a transição energética mundial, respondendo por 70% da capacidade anual de novas instalações de energia limpa. Além disso, os estudos abordam integração econômica regional e investimentos em infraestrutura verde, consolidando a região como protagonista da sustentabilidade e inovação globais.
Especialistas ressaltaram ainda a transformação da China em um centro global de inovação. Para Zafar Uddin Mahmood, conselheiro político do secretário-geral do BFA, “a China mudou de uma fábrica para um centro de inovação do mundo. Agora, quando se fala de qualquer tecnologia — energia renovável, desenvolvimento verde ou inteligência artificial — a China lidera o mundo. Essa mudança ocorreu em um período muito curto.”
Multilateralismo e cooperação global
Especialistas econômicos e o secretário-geral do BFA reforçaram a importância de fortalecer o multilateralismo, destacando que a cooperação entre nações continua a servir aos interesses comuns.
“Sob as circunstâncias atuais, o multilateralismo, a globalização econômica e o processo de desenvolvimento sustentável ainda mantêm forte vitalidade. A abertura, a cooperação e o desenvolvimento ganha-ganha permanecem como os caminhos mais alinhados aos interesses de todas as partes”, dissse secretário-geral do BFA, Zhang Jun.
A economia asiática continua demonstrando crescimento robusto, consolidando-se como o principal motor de expansão global, inclusive ultrapassando as metas previstas. De acordo com Zhang Yuyan, diretor do Instituto de Economia e Política Mundial da Academia Chinesa de Ciências Sociais, “a previsão do ano passado indicava crescimento econômico de 4,5%, superior ao ano anterior. Com base nos dados atuais, a taxa de crescimento alcançou 4,7%.”
Ao mesmo tempo, especialistas destacam que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) na Ásia enfrenta desafios transnacionais, principalmente a fragilidade das cadeias de suprimentos. Para Lydia Chen, parceira da Deloitte China Research, “apesar do desenvolvimento integrado da inteligência artificial na região, ainda enfrentamos muitos desafios transnacionais, principalmente em áreas como segurança de dados, proteção de privacidade, divergência de padrões técnicos e vulnerabilidade das cadeias de suprimentos. Diante do cenário geopolítico global instável, a fragilidade dessas cadeias merece atenção especial.”
Sustentabilidade, inovação e transformação econômica
O Boao Forum 2026 tem forte enfoque em sustentabilidade, tecnologia inteligente e energia limpa. Todos os espaços funcionaram com 100% de energia renovável, consumindo 2 milhões de kWh, equivalente à redução de 1.200 toneladas de CO₂, ou à retirada de centenas de veículos das ruas por um ano.
Pela primeira vez, uma plataforma de fornecimento de energia inteligente coordenou drones, robôs de inspeção de túneis e cabos submarinos, monitorando e restaurando energia em milissegundos, explicou Chen Ruizhong, chefe da equipe de suporte energético do BFA. Além disso, sistemas de IA monitoraram logística e operações do evento, evidenciando o uso de tecnologia avançada em gestão de grandes conferências.
Fundado em 2001, o Boao Forum consolidou-se como plataforma estratégica para diálogo político e econômico, abordando questões asiáticas e fortalecendo a cooperação regional e global.
O Fórum de Boao funciona como uma plataforma para líderes asiáticos apresentarem perspectivas regionais em economia, inovação e sustentabilidade, oferecendo uma visão complementar àquela apresentada por fóruns econômicos globais ocidentais, como o Fórum Econômico Mundial em Davos.
O fórum evidencia a ascensão da Ásia como centro de governança econômica mundial, em um cenário marcado por tensões geopolíticas, transformação tecnológica e desafios ambientais globais, reafirmando a relevância do continente para o futuro da economia global.
