Um grupo de 27 jornalistas, publicitários e outros profissionais de comunicação, organizados no Movimento Resgate AMI, lançou, no início deste mês, um abaixo-assinado com objetivo de resgatar e redemocratizar a Associação Mineira de Imprensa (AMI). A campanha, repercutida nas redes sociais pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais (SJPMG), afirma que a AMI “deixou de exercer a colegialidade e representatividade dos profissionais e empresas de comunicação que lhe cabiam”.
Na quinta-feira (19), os trabalhadores protocolaram na Justiça um pedido que visa retomar a instituição, considerada, segundo eles, uma das mais importantes de comunicação, artes e cultura do estado. A denúncia chegou ao Brasil de Fato MG por meio do porta-voz do movimento, o jornalista Washington Mello, que é ex-presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e do SJPMG.
O manifesto será lançado oficialmente no próximo dia 30, às 11 horas, no pátio da Academia Mineira de Letras. De acordo com o texto, que conta com mais de mil assinaturas, a entidade, que já foi muito influente na cultura mineira e é a mais antiga da classe jornalística do país, está agora paralisada.
“Desde junho de 2024, um grupo de 27 jornalistas vêm se mobilizando para conseguir na Justiça o direito de se filiar à AMI e propor mudanças para que a entidade volte a ter uma gestão democrática e transparente, volte a ter representatividade e a cumprir seus princípios estatutários”, explica.
A denúncia aponta que profissionais da imprensa e de outras áreas de comunicação têm sido proibidos de participar de reuniões, com entrada vetada até mesmo aos ex-associados. Esses ex-associados, como aponta o movimento, foram expulsos da instituição, acusados de inadimplentes.
O manifesto alega que a sede da entidade está trancada e que a associação tem se recusado inclusive a receber jornalistas, radialistas, gráficos, publicitários e empresas como novos associados.
“É essa instituição que se pretende resgatar, para que ela volte a cumprir o papel que lhe cabe. A AMI tem história, tem biografia e os profissionais que subscrevem este manifesto querem salvá-la”, aponta o abaixo-assinado.
Diante disso, o manifesto indica como solução a garantia da possibilidade de adesão de novos membros e a implementação de práticas democráticas de gestão. Dessa forma, declara o texto, a AMI poderia reafirmar seu papel como voz independente e forte em defesa dos princípios do jornalismo.
“Há anos algumas pessoas vêm se mobilizando para conseguir, na Justiça, o direito de se filiar à AMI e propor mudanças para que a entidade volte a ter uma gestão democrática e transparente, com representatividade e com o objetivo de cumprir seus princípios estatutários. Até hoje a situação não foi revertida, após diversas tentativas de salvá-la”, declarou Mello, em nota.
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Entenda o caso
De acordo com o movimento, o problema começou quando, em 2008, a associação caiu nas mãos de um grupo de pessoas que a desvirtuou de seus objetivos. Desde então, a entidade não promove atividades culturais, nem presta qualquer serviço a seus potenciais filiados. Estes, como denuncia o ex-presidente Fenaj e do SJPMG, estão proibidos de se filiar à entidade e frequentar sua sede, que fica na Rua da Bahia, número 1450 e “está fechada há muitos anos, com corrente e cadeado na porta”. Recentemente, um muro passou a ser construído isolando ainda mais o acesso ao prédio.
“A única ‘atividade’ da AMI é o aluguel da parte de baixo do prédio, onde funciona um restaurante self-service. Não há qualquer prestação de contas a respeito. A proprietária do restaurante se recusa a prestar informações sobre o contrato de funcionamento do local”, denuncia o jornalista.
Ainda segundo a denúncia, as últimas diretorias da AMI promoveram mudanças estatutárias, como a ampliação de mandatos e “cassação” de associados denominados “inadimplentes”.
Em busca online por mais informações sobre a entidade, só é possível encontrar um site, que parece desatualizado e apresenta diversas abas vazias. Nele constam como integrantes da diretoria da entidade: Jose Honorato (Agência Brasileira de Notícias / Jornal Compilador Mineiro), Alvaro Souza (Rádio Jornal Minas em Tempo), Grace Azevedo (ABN News), Evandro Colen (Jornal Compilador Mineiro), Feichas Martins (Poder Capital), Fernando Bustamante (Jornal das Estâncias), J.H. De Oliveira Junior (ABN Agência Brasileira de Notícias S.A.), Jose Honorato (Jornal Compilador Mineiro – ABN News), Luiz Bertrano (AAN News) e Wellington Rodrigues (Record TV).
Segundo a denúncia, desde que “se apossaram” da AMI, essas diretorias vêm se reelegendo em mandatos consecutivos, por meio de assembleias com participação de pessoas “desconhecidas no meio jornalístico”.
“No entanto, não deixam de ter o cuidado de registrar tudo em ata, para contestar denúncias de irregularidade. A última eleição ocorreu em setembro de 2024, para um mandato válido até setembro de 2028”, aponta Mello.
O site da associação aponta a AMI como “empresa associativa privada empresarial, não sendo representativa de nenhuma categoria empresarial e ou profissional” e destaca que a mesma não aceita dinheiro público e nem patrocínios de empresas e órgãos de governos.
A AMI
Fundada em 1921, em Juiz de Fora (MG), a AMI é a mais antiga entidade da categoria no Brasil. Em 1951, sua sede migrou para Belo Horizonte e a associação se consolidou, na última metade do século 20, como uma organização importante no estado de Minas Gerais.
“A AMI teve, durante muitas décadas, um papel importante na representação de profissionais e empresas do setor de comunicação. Complementarmente às atividades específicas do Sindicato dos Jornalistas, a Associação tinha presença marcante na capital mineira, principalmente na área cultural”, explica Mello.
De acordo com seu estatuto, em informações retiradas do site da AMI, essa é uma entidade civil de finalidades não lucrativas para congregar jornalistas mineiros de relevo profissional e ilibada reputação, reunindo-os, e as suas famílias, em atividades de caráter social, recreativo, cultural e cívico.
Seus objetivos se concentram, portanto, em preservar a dignidade profissional dos jornalistas e da imprensa mineira, protestar contra os abusos de poder que firam a liberdade de imprensa e de opinião, promover e apoiar congressos e encontros jornalísticos e desenvolver intercâmbio cultural, além de, manter-se vigilante na defesa das instituições democráticas.
Outro lado
O Brasil de Fato MG procurou a Associação Mineira de Imprensa, que afirmou que os pedidos não aceitos de novas filiações se devem à não conformidade dos mesmos às normas de ingresso estabelecidas no estatuto da entidade. A AMI afirma ainda que, originalmente, a associação foi fundada por iniciativa das empresas, para congregá-las, e, quando se transferiu para Belo Horizonte, em 1951, abriu o ingresso no quadro social para pessoas físicas.
Assim, após a pandemia de covid-19, segundo a entidade, muitos associados “Pessoa Física” se afastaram por vários motivos e, após a realização duas assembleias, foi deliberado pelo retorno ao modelo original cujo objetivo é congregar as empresas mantenedoras de agência de notícias, emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas (impressas e digitais eletrônicas), portais e websites de notícias, organizadas legalmente como pessoa jurídica no país, e representadas por seus titulares responsáveis.
A AMI ainda alega que os questionamentos indicam que por trás do movimento é possível que haja pessoas que insistem em uma “anexação” da entidade a outra entidade com objetivos opostos.
Além disso, a nota enviada pela associação nega a acusação de que a atual diretoria vem se reelegendo em mandatos consecutivos.
