ANTIFASCISMO

1ª Conferência Antifascista debate resistência ao governo Milei na Argentina

Atividade reuniu lideranças políticas, sindicais, estudantis e de movimentos sociais de diferentes países

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Mesa "A luta contra o fascismo ultra-neoliberal de Milei" reuniu lideranças políticas, sindicais, estudantis e de movimentos sociais de diferentes países
Mesa “A luta contra o fascismo ultra-neoliberal de Milei” reuniu lideranças políticas, sindicais, estudantis e de movimentos sociais de diferentes países | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A segunda mesa da 1ª Conferência Internacional Antifascista desta sexta-feira (26), em Porto Alegre, colocou no centro do debate a conjuntura argentina sob o governo de Javier Milei na Argentina, analisado por participantes como expressão de um “fascismo ultraneoliberal” em ascensão na América Latina. Atividade ocorreu no Auditório do Hotel Embaixadador.

Com mediação da deputada Luciana Genro (Psol), presidente da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco do Psol Brasil, o painel reuniu lideranças políticas, sindicais, estudantis e de movimentos sociais de diferentes países, destacando a necessidade de unidade e articulação internacional para enfrentar a extrema direita.

Luciana Genro | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Logo na abertura, Genro ressaltou a importância histórica da Argentina para a esquerda latino-americana e classificou o momento político do país como “dramático”, inserido em um cenário global de crescimento do fascismo. Ao mesmo tempo, destacou o país vizinho como exemplo de resistência, especialmente diante de reformas trabalhistas e ataques à classe trabalhadora.

Críticas ao governo Milei e denúncias de repressão

Sociólogo e dirigente do Psol, Israel Dutra enfatizou o caráter plural da conferência e a capacidade de articulação entre diferentes correntes políticas. Para ele, a unidade construída no encontro e a mobilização do 24 de março — data que marca a memória dos 30 mil desaparecidos da ditadura argentina — representam vitórias concretas do campo popular.

Dutra também defendeu a necessidade de avançar para além do diagnóstico, com definição de estratégias e calendário de ações para fortalecer a luta política no país.

Israel Dutra | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A dirigente social Silvia Saravia, do partido político argentino Libres del Sur, foi incisiva na crítica ao governo argentino. Ela classificou a gestão de Milei como neofascista, destacando medidas como a repressão a movimentos sociais por meio de protocolos considerados por ela inconstitucionais, e a criminalização de lideranças populares.

Saravia também apontou perseguições a movimentos feministas e denunciou o alinhamento internacional do governo com figuras como Donald Trump e Benjamin Netanyahu.

Silvia Saravia | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Segundo a dirigente, a resistência ao governo tem sido impulsionada sobretudo pelas mulheres, que lideram índices de rejeição à atual gestão. Nesse contexto, destacou o lema “Fora Milei” como expressão política da necessidade de mobilização ativa e combativa

Unidade internacional como estratégia de enfrentamento

Na mesma linha crítica, o economista Julio Gambina, da Attac CADTM, rede internacional que luta contra o neoliberalismo, situou o avanço da extrema direita dentro de um processo mais amplo de reestruturação do capitalismo em escala global. Para ele, a América Latina vive um ciclo de reprimarização econômica e ofensiva do capital contra trabalhadores, natureza e direitos sociais.  

Julio Gambina | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

“O fenômeno Milei precisa ser estudado. Não é coincidência. Por trás dele está o grande capital. E Millei pretende disciplinar o povo argentino”, alertou.

Gambina avaliou que a esquerda sofreu uma derrota estratégica e defendeu a construção de um novo projeto político capaz de reorganizar o movimento popular. 

Também presente na mesa, Pablo Sanseverino, do partido político argentino Unidad Popular, reforçou o compromisso com a construção da unidade no campo popular como eixo estratégico para enfrentar o governo. “Vamos reiterar o compromisso que assumimos em Buenos Aires: lutar pela unidade. Já estamos nas ruas e continuaremos lutando para conquistá-la”, afirmou.

Para ele, o desafio não é apenas resistir, mas construir uma alternativa política consistente: “Trata-se de ajudar a construir uma força política capaz de enfrentar isso, tendo em mente que não podemos repetir erros como apoiar projetos que acabam sendo apenas exemplos do sistema”.

Pablo Sanseverino | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Sanseverino também destacou que a unidade deve estar vinculada a um horizonte transformador: “Não se trata de ‘todos contra Milei’ com um projeto de desestabilização, mas com um projeto emancipatório”.

Representando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) argentino, Sergio García destacou a força recente das mobilizações populares, em especial o ato de 24 de março, que marcou os 50 anos do golpe no país. Segundo ele, a manifestação foi uma das mais importantes dos últimos tempos, reunindo de forma unificada organizações de direitos humanos e setores populares em uma demonstração “comovente, poderosa e combativa” contra o governo e o negacionismo.

Sergio García | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

García argumentou que, embora haja uma ascensão global da extrema direita, também existe uma resistência em curso, ainda que desigual. “Há um povo no mundo resistindo, e precisamos encontrá-lo, fortalecê-lo e coordená-lo”, afirmou. Para o dirigente, o crescimento do governo Milei não pode ser entendido como um fenômeno isolado, mas como parte de um processo internacional combinado com fatores internos.

Nesse sentido, ele apontou que a ascensão de Milei está diretamente relacionada ao desgaste dos partidos tradicionais na Argentina. Segundo García, governos anteriores não conseguiram responder à crise econômica e social, abrindo espaço para uma guinada à direita.

Reorganização da resistência

A educadora Juçara Dutra resgatou experiências históricas de luta no continente, como a derrota da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), para destacar que, embora vitórias pontuais tenham ocorrido, as bases do neoliberalismo e do imperialismo permaneceram. Segundo ela, os desafios atuais exigem retomar essas experiências com novas estratégias e energia militante.

Juçara Dutra | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A perspectiva estudantil foi apresentada por Tomás Battaglino, da Federação Universitária Argentina, que denunciou ataques ao sistema universitário, incluindo cortes de financiamento e precarização das condições de trabalho docente.

Ele afirmou que a universidade pública é alvo prioritário da extrema direita por representar um espaço de mobilidade social e integração regional. “Os fascistas odeiam a diversidade e a possibilidade de que filhos de trabalhadores ocupem esses espaços”, afirmou.

Tomás Battaglino | Crédito:  1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Ao longo do debate, também foram destacadas experiências de resistência internacional, com referências a mobilizações nos Estados Unidos, Europa, Palestina e Saara Ocidental, reforçando o caráter global da luta antifascista.

A mesa foi marcada por um diagnóstico comum: o avanço da extrema direita articulada a políticas ultraneoliberais e a necessidade urgente de unidade entre movimentos sociais, partidos e organizações populares.

A conferência segue até domingo (29), com o objetivo de consolidar propostas concretas e fortalecer redes de cooperação global. Confira aqui a programação completa.

Editado por: Marcelo Ferreira

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