Ditadura militar

62 anos do golpe: Comissão da Verdade da UFPE revela impacto da ditadura na universidade e lista 156 presos só em Pernambuco

Evento nesta terça (31) marca o início da divulgação dos resultados e homenageia reitor cassado pelo regime

A Comissão da Verdade da UFPE foi instituída há dez meses com previsão de durar três anos
A Comissão da Verdade da UFPE foi instituída há dez meses com previsão de durar três anos | Crédito: Reprodução/@ufpe.oficial Instagram

Em meio às comemorações que muitos insistem em fazer sobre os 62 anos do golpe militar de 1964, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) escolheu um caminho oposto: o da memória, da verdade e da reparação. Nesta terça-feira (31), a instituição apresenta os resultados parciais da Comissão da Verdade, Memória e Reparação da própria universidade — um trabalho que, em apenas dez meses, já identificou dezenas de nomes de professores, estudantes e técnicos perseguidos pela ditadura, muitos deles pela primeira vez reunidos em um levantamento sistemático.

“A Comissão da Verdade tem um compromisso com a memória dos silenciados, dos subalternizados, dos violentados. Basicamente, a função da comissão é lembrar uma parte da sociedade aquilo que ela quer esquecer”, afirma o professor e historiador José Marcelo, um dos integrantes do grupo de trabalho, em entrevista ao É de Manhã da Rádio Brasil de Fato.

A Comissão da Verdade da UFPE foi instituída há dez meses com previsão de durar três anos. A partir de um trabalho prévio realizado pela Comissão Estadual da Verdade de Pernambuco — que já havia dedicado um capítulo à universidade em seu relatório de dois volumes —, os pesquisadores da UFPE aprofundaram a investigação em bases de dados nacionais e em arquivos internos da instituição.

“A gente partiu desse trabalho fundamental da Comissão Estadual. De lá para cá, nós aprofundamos a nossa pesquisa em bases de dados do Arquivo Nacional, em prontuários do DOPS, em atas do Conselho Universitário, em fontes confidenciais do arquivo geral da universidade, em processos de indenização e do Superior Tribunal Militar, além de entrevistas, depoimentos e recortes de jornais”, detalha José Marcelo.

O resultado já impressiona. Enquanto o relatório da Comissão Estadual listava 90 nomes de perseguidos na UFPE, a nova pesquisa elevou esse número para 156 apenas entre presos e detidos. Mais de 100 pessoas foram indiciadas por inquéritos, vários estudantes foram desligados de seus cursos, e há ao menos seis mortos já identificados.

“O impacto do golpe militar e da ditadura, que durou mais de 20 anos no nosso país, aconteceu desde a reitoria até a sala de aula. Atingiu todos os níveis da universidade”, resume o historiador.

José Marcelo faz questão de contextualizar que a repressão a professores e estudantes no Brasil não começou com o golpe de 1964. “Há uma certa tradição policialesca no Estado brasileiro. Professores e estudantes já eram monitorados antes do golpe”, explica.

Muitos docentes e discentes participavam de movimentos de alfabetização, integravam políticas públicas promovidas por governos como o de Miguel Arraes em Pernambuco e faziam parte de partidos políticos. “O Estado já documentava a vida das pessoas, os detalhes das vidas dos estudantes e dos professores. Quando o golpe ocorreu, ele já estava com várias informações, então foi muito mais fácil pôr em prática a repressão.”

A sofisticação do aparato repressivo, ironicamente, é hoje uma ferramenta para os pesquisadores. “Os militares são experts em documentar tudo, inclusive os atos de violência que eles praticavam. Isso para os historiadores e para nós da comissão é muito importante.”

O evento desta terça-feira será realizado no auditório que leva o nome do reitor João Alfredo Costa Lima, figura central na história da UFPE e um dos primeiros alvos do regime após o golpe. Foi na gestão de João Alfredo que foram criadas a Rádio Universidade (atual Rádio Paulo Freire), a revista Estudos Universitários e a Secretaria de Extensão Cultural, comandada por Paulo Freire.

“Assim que o golpe aconteceu, o reitor João Alfredo foi duramente perseguido e duramente criticado na mídia. Gilberto Freyre era um dos que mais o criticavam”, lembra José Marcelo. João Alfredo resistiu por três meses até ser forçado a pedir exoneração.

A repressão, no entanto, não se limitou às altas esferas. “A gente tem violências dos mais diversos níveis, desde o assassinato e desaparecimento até um estudante que deixou de ganhar uma bolsa de pesquisa por causa das suas opiniões políticas”, afirma o historiador. “Coisa mais trivial, um estudante que deixou de receber uma bolsa de pesquisa por causa das suas opiniões políticas. A gente tem diversos casos.”

O Nordeste na história da ditadura

José Marcelo também chama a atenção para um fenômeno que atravessa a produção historiográfica brasileira: a concentração de estudos sobre a ditadura no eixo Rio-São Paulo, enquanto regiões como o Nordeste — que foram palco de uma intensa e vanguardista resistência — permanecem sub-representadas.

“Quando nós, no Nordeste, fazemos história, nós fazemos história regional, é o que dizem. Enquanto os historiadores do Rio e São Paulo escrevem história do Brasil. É muito comum eles fazerem um estudo de caso de São Paulo e colocarem no título ‘história da repressão no Brasil’ ou coisa que o valha”, critica.

A UFPE, lembra o professor, foi a casa de gigantes do pensamento brasileiro como Paulo Freire, Josué de Castro e Celso Furtado — todos perseguidos, exilados ou silenciados pelo regime. “A gente não pretende fazer isso. A gente pretende marcar o território no Nordeste do Brasil, as instituições do Nordeste e, sobretudo, a instituição de Pernambuco, a UFPE.”

Além do relatório parcial, a Comissão da Verdade da UFPE já produziu uma série de mini vídeos sobre os seis mortos e desaparecidos identificados até agora, que serão veiculados na TV universitária. A comissão também estuda, em conjunto com a reitoria, formas simbólicas de reparação, como a criação de espaços de memória e a diplomação póstuma.

O evento desta terça-feira (31), que marca os 62 anos do golpe militar, é um primeiro passo na divulgação desses resultados. Para José Marcelo, trata-se de um momento de celebrar a memória, mas também de reafirmar o papel da universidade na defesa da democracia.

“A universidade tem ensino, pesquisa e extensão. Ela continua sendo o maior centro de produção de conhecimento e de defesa da democracia e dos direitos humanos. Uma comissão como essa investiga a fundo esse passado para mostrar à sociedade aquilo que, de alguma forma, muitos querem esquecer ou dizem que foi um período muito bom na história do Brasil. A gente está vendo que não”, destaca.

Para ouvir e assistir

O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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