CAMPUS MAIS SEGURO

Lista misógina no IFSul: o que vem depois do choque

Professora e ativista fala sobre o impacto nas vítimas, os limites dos canais institucionais e o que precisa mudar

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Professora Cristina Zanella
Professora Cristina Zanella | Crédito: Ridley Madrid/Radiocom Pelotas

Na sexta-feira, 20 de março, uma lista começou a circular em aplicativos de conversa entre estudantes do IFSul Campus Pelotas. No sábado, já tinha saído do controle. No domingo de manhã, Cristina Zanella soube o que estava acontecendo — não por um canal institucional, mas pelo grupo do Coletivo Ellas, o refúgio que um grupo de mulheres da instituição construiu para si depois que perceberam que não havia outro lugar seguro para ir.

Na segunda-feira, ela entrou em sala de aula. Cinco das suas alunas não estavam lá. Eram vítimas.

Zanella é professora de inglês, doutora em Letras pela UFPel, coordenadora do curso de Pós-Graduação em Linguagens Verbo-Visuais e Tecnologias no IFSul e representante de base do Sinasefe — Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica, seção IFSul. É também membra do Coletivo Ellas-IFSul e do Nugeds, Núcleo de Gênero e Diversidade do Campus Pelotas. Ela concedeu entrevista ao Contraponto, da RádioCom Pelotas, na manhã desta sexta-feira, 27 de março.

“Como assim? Estou sendo vigiada?”

A lista ranqueia e objetifica alunas do campus usando quatro termos pejorativos de duplo sentido. Zanella fez questão de esclarecer um ponto que circulou distorcido: a palavra mais pesada que ganhou repercussão na mídia – “estupráveis” – não consta no documento. Mas isso, na sua avaliação, não diminui em nada a gravidade — pelo contrário, desloca o foco para o que realmente perturba.

“O que assusta é o ranqueamento. Que conhecimento esses rapazes tinham das relações dessas meninas para classificá-las assim?” O que a lista revelou não foi apenas misoginia — foi vigilância. Alguém, dentro do campus, observava as alunas, avaliava seus comportamentos, suas relações, suas vidas. E elas não sabiam. “Estou sendo observada, estou sendo vigiada — como é que alguém está me olhando aqui dentro e me colocando num ranque?”

Nas salas de aula da segunda-feira, alunas choraram. Outras as acolheram. Zanella descreve aquele dia como “o momento de catarse” — a onda quebrando dentro da escola. Mas a onda tinha começado muito antes de domingo.

A resolução que existe no papel — e ainda não chegou à prática

O Coletivo Ellas não nasceu desta lista. A professora conta que ele nasceu em 2021, quando um colega publicou, após uma colega perder uma eleição interna, que ela deveria voltar para casa cuidar do marido e da família. Em um dia, um grupo chamado Machistas Não Passarão foi de 15 para 300 mulheres. Dali surgiu o Coletivo Ellas: Educação, Luta, Liberdade, Amor e Sororidade. Não é institucional. Funciona com formulário de entrada, termo de compromisso e uma regra: o que acontece em Vegas fica em Vegas.

Foi também daquele período que nasceu a Resolução CONSUP nº 270/2023 — a política institucional contra violência e assédio que o Coletivo Ellas cobrou publicamente que fosse cumprida esta semana. A resolução determina a criação dos NUPAVs, Núcleos de Prevenção e Enfrentamento a Assédios e Violências, em cada um dos 17 campi do IFSul. Em 2026, eles ainda não estão todos constituídos.

“Estamos há cinco, seis anos cobrando isso”, disse Zanella. Há um edital aberto, há servidores com formação — mas a estrutura não está operacional. E a ausência tem um custo concreto que vai além do episódio da lista: sem núcleo independente, qualquer denúncia dentro do campus — seja contra estudantes, seja contra professores — acaba chegando à direção, que é colega de quem pode vir a ser denunciado. “Não pode ser assim. Tem que ter um núcleo distanciado, com autonomia para analisar a denúncia de forma objetiva.”

Quando não há canal, a rede vira válvula de escape

Depois que a lista veio a público, perfis no Instagram passaram a circular relatos e acusações anônimas envolvendo outras situações dentro do campus. Para Zanella, o fenômeno não é difícil de entender: quando não existe caminho institucional confiável, as pessoas encontram outro caminho. Contudo, “A rede social não pode ser o espaço. Ela tem que ser substituída por transparência institucional.”

Mas ela também alerta para os dois lados do problema. Denúncias sem protocolo correm dois riscos simultâneos: diluir casos graves em meio ao ruído, e expor pessoas sem contraditório. “Se todo mundo denuncia qualquer coisa, quando for grave dilui. E o denunciado tem direito de defesa.” A saída não é silenciar — é estruturar. Protocolo claro, sigilo garantido, encaminhamento rastreável. “Quem se sente violentado precisa saber que tem protocolos, que vai ser escutado, preservado — e que quem praticou vai ser responsabilizado.”

Da punição à formação: o que precisa mudar

O próximo passo, na visão de Zanella, vai além dos muros do IFSul. Ela observa que o campus tem uma riqueza que poucas escolas do município possuem — o Nugeds, núcleo de gênero e diversidade — e que isso não pode ficar restrito a quem já está dentro. “Por que não temos núcleos de gênero em todas as escolas do município, em todas as escolas estaduais? Isso facilitaria muito o trabalho de conscientização.” A proposta é concreta: que a Secretaria Municipal de Educação crie estruturas equivalentes na rede pública, que o IFSul desenvolva projetos de extensão em parceria com outras escolas, e que a formação de professores seja ampliada — não apenas entre os já sensibilizados. “Quem precisa ouvir o que tem que ser ouvido não está lá”, disse, referindo-se aos eventos internos de formação que costumam reunir os já convencidos. Mudar isso, na sua avaliação, é o que separa uma resposta pontual de uma transformação real.

E sobre os estudantes afastados, Zanella escolheu não falar apenas de punição. Eles são menores, lembrou — adolescentes em formação, não adultos foragidos. A instituição tem uma responsabilidade com eles também. “Esses meninos vão ser homens. E têm que mudar.” O que isso significa, na prática, é uma pedagogia que não se encerra no processo administrativo: é acompanhamento, é diálogo, é a aposta — difícil, mas necessária — de que é possível formar melhor quem errou. E há um gesto simples que, segundo ela, ainda não aconteceu e faria diferença. “Seria muito digno que, em algum momento, eles pensassem em pedir desculpas para as meninas. É bom ouvir um pedido de desculpas.” Não como encerramento do caso — mas como começo de outra coisa.

Serviço

Confira a entrevista completa no canal da RádioCom Pelotas no YouTube.

Editado por: RádioCom
Conteúdo originalmente publicado em: Radiocom

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