Povo Organizado

Mãos Solidárias define rumos para transformar periferias após primeiro encontro nacional no Recife

Mais de mil pessoas de 21 estados participaram das ações e das trocas de experiência do primeiro encontro

No audio source provided.
1º Encontro Nacional do Mãos Solidárias reuniu mais de mil participantes
1º Encontro Nacional do Mãos Solidárias reuniu mais de mil participantes | Crédito: Rostand Tiago/Brasil de Fato

Nesta segunda-feira (30), se encerraram as atividades do primeiro Encontro Nacional do Mãos Solidárias, que reuniu mais de mil participantes no campus Recife do IFPE desde o último sábado (28) para debater o trabalho da rede que vem sendo realizado desde a pandemia. São jornadas de alfabetização, criação de cozinhas solidárias, formação de agentes populares de saúde e educação, dentre outras ações realizadas nas periferias do país. O encontro também serviu para traçar perspectivas e os rumos da campanha diante dos desafios deste e dos próximos anos. 

A última plenária foi realizada pela manhã, com um debate sobre a construção de um projeto popular para o Brasil, capitaneado por Neuri Rossetto, dirigente histórico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organização que é uma das principais articuladoras da rede de ações populares, e Fernanda Souza, coordenadora do Mãos Solidárias na Bahia. A conversa que trouxe análise de uma conjuntura histórica do desenvolvimentismo do Brasil, noções de soberania e a necessidade da organização popular em coletividade para superação das desigualdades. 

“Precisamos valorizar esses espaços coletivos, porque o capitalismo está em uma fase que gosta de colocar os valores individualistas em primeiro lugar. Valorizar o que é coletivo e público, as políticas públicas, é essencial, o espírito da humanidade é estarmos juntos e organizados. Paulo Freire, que vocês gostam tanto aqui, fala na importância de se organizar e se politizar o povo, fazer com que a população pense de forma crítica”, declarou Neuri Rossetto. 

Em sua fala, Fernanda Souza destacou o processo de nacionalização do Mãos Solidárias, que parte do trabalho nas periferias do Recife para 21 estados de atuação. Nesse processo, Souza faz questão de pontuar como a rede vem agregando diferentes movimentos sociais e conta uma heterogeneidade em suas fileiras por todo o país, estabelecendo também conexões entre os centros urbanos e os campos. Nesse panorama, o encontro realizado em Pernambuco acaba sendo uma demonstração da força desta pluralidade de rostos e lutas. 

“Esse encontro é um marco no processo de construção do Mãos Solidárias, extremamente simbólico, com essa companheirada toda reunida para pensar juntos como avançar no nosso projeto de país popular. Saímos com muitas reflexões importantes, análises da nossa construção e pensando nos próximos passos e desafios. Também estamos fortalecidos e com a convicção de que vamos avançar nas periferias do país tendo a transformação como horizonte”, afirmou Fernanda. 

Fernanda Souza, coordenadora do Mãos Solidárias na Bahia
Fernanda Souza, coordenadora do Mãos Solidárias na Bahia | Crédito: Rostand Tiago/Brasil de Fato

O sentimento de reenergização para seguir com as lutas foi a grande tônica entre os integrantes do Mãos ao fim do evento, com a certeza que as trocas dos últimos dias serão importantes ferramentas para o crescimento da rede. O professor Magno Rosa, de Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte, atesta isso e acredita que a educação será um dos principais pilares dessa jornada.  

“O Mãos Solidárias tem a dinâmica de cuidar e um cuidado que vem através da educação. Então estamos muito felizes de estar aqui, na terra de Paulo Freire, bebendo fonte aqui do Nordeste para voltarmos aos nossos territórios com a fórmula de tirar nosso povo do cativeiro social. Nosso povo precisa de um novo tempo”, destacou Magno. 

Nos dias anteriores, foram realizadas outras mesas com temas como trabalho de base e análise de conjuntura da realidade das periferias do país, além de plantio de árvores e noites culturais. Também foi celebrada a formatura de 30 mil adultos recém-alfabetizados. Por lá, passaram outros grandes nomes da luta popular no campo e na cidade. Um deles foi João Pedro Stédile, dirigente nacional e um dos fundadores do MST. Em conversa com o Brasil de Fato, Stédile falou sobre como o Mãos Solidárias e suas ações, para além de lidar com questões urgentes como combate a fome, alfabetização, saúde básica e ecologia, também encara frontalmente o que acredita ser uma lacuna de atuação na esquerda brasileira. 

“Nos últimos 30 anos, o capitalismo passou a explorar por meio do capitalismo financeiro, com especulação e juros, o que trouxe graves consequências para a classe trabalhadora brasileira. Um fruto disso é a informalidade, onde vivem 70 milhões de pessoas no país. E a única forma de encontrar essas pessoas é ir onde elas moram, ou seja, nas periferias do país. E a esquerda estava em dívida com isso, porque estava acostumada em organizar partidos, sindicatos, mas não em organizar o trabalhador informal. Nós somos salvos por iniciativas como essa e momentos como esse encontro geram trocas e unidades para os próximos trabalhos organizativos da classe trabalhadora das periferias”, explica Stédile

Última plenário do 1º Encontro Nacional do Mãos Solidárias
Última plenário do 1º Encontro Nacional do Mãos Solidárias | Crédito: Rostand Tiago/Divulgação

E os próximos trabalhos organizativos certamente vêm com um ímpeto renovado pela esperança que também foi uma das tônicas das trocas no evento. O pensamento geral é de que os encantamentos e as palavras que foram ditas e absorvidas nos nos encontros se tornarão práticas no dia a dia das comunidades nos territórios para onde as caravanas retornaram nesta segunda-feira. É o que acredita também Paulo Mansan, coordenador nacional do Mãos Solidárias. 

“No território nós somos portadores da esperança. Temos o papel de convencer as pessoas que podemos construir uma realidade diferente. E também é nosso papel garimpar outros potenciais portadores da esperança nesses locais. O nosso discurso pode encantar no momento, mas é o fazer prático no dia a dia que vai conquistar essas pessoas. E qual o caminho para organizar essas pessoas? Podem ser cozinhas, hortas, cursos de alfabetização, grupos de cultura, qualquer boa ideia que ajude a organizar o povo pode ser parte do Mãos Solidárias”, concluiu Mansan. 

Editado por: Rostand Tiago

|

Newsletter