A terceira edição das mobilizações No Kings (sem reis, em tradução livre) de sábado (28) nos Estados Unidos foram maiores do que as anteriores e ampliaram a sua lista de reinvindicações além do tradicional grito de “Fora, Trump”. A guerra em curso contra o Irã e a denúncia das mazelas trazidas pelo capitalismo foram algumas das bandeiras levantadas pelos estimados oito a nove milhões de participantes em mais de três mil atos por todo o país.
“Vimos mais pessoas tentando tirar o foco dos protestos apenas em Trump e olhar mais o sistema, a questão do imperialismo norte-americano mesmo”, disse ao Brasil de Fato a analista política Jana Silverman.
“Muitos expressaram frustração, a oposição à guerra no Irã, preocupação com Cuba e as desigualdades dentro do país. A edição desse ano teve como slogan, além de ‘sem reis’, também ‘sem milionários’ e ‘sem guerra’, para criar essas conexões com Trump e as desigualdades do capitalismo, tanto nos EUA como entre os países”, afirma.
A professora de relações internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante do Democratic Socialists of America (DSA), maior organização política socialista nos Estados Unidos, considera a estratégia bem sucedida.
“Tivemos mais de mil pessoas que se filiaram ao DSA só no sábado, o dia dos protestos.”
Os atos
Os organizadores das mobilizações afirmaram que “pelo menos oito milhões de pessoas se reuniram em mais de 3.300 atos nos 50 estados”, de grandes cidades até pequenos povoados. As autoridades estadunidenses não divulgaram uma estimativa nacional da participação. O movimento No Kings é a forma mais visível de oposição a Trump desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025.
Em Nova York, a metrópole mais populosa dos Estados Unidos, dezenas de milhares de manifestantes se juntaram ao protesto, entre eles o ator ganhador do Oscar Robert De Niro, um crítico frequente de Trump. Ele classificou o presidente como “uma ameaça existencial para nossas liberdades e nossa segurança”.
Os protestos foram registrados de costa a costa, desde Atlanta até San Diego, incluindo o Alasca. Em Washington, os participantes atravessaram uma ponte sobre o rio Potomac para seguir em direção ao Lincoln Memorial, cenário de manifestações históricas pelos direitos civis.
O estado de Minnesota foi um ponto central das manifestações, meses depois de virar o epicentro do debate nacional sobre a repressão violenta aos imigrantes impulsionada por Trump. O senador de esquerda Bernie Sanders declarou à multidão em Minnesota: “Nunca aceitaremos um presidente que seja um mentiroso patológico, um cleptocrata e um narcisista que mina a Constituição dos Estados Unidos e o Estado de Direito todos os dias”.
O astro de rock Bruce Springsteen, crítico ferrenho do presidente, interpretou sua canção Streets of Minneapolis na cidade vizinha de St. Paul, a capital estadual, na presença de milhares de manifestantes. Springsteen compôs e gravou a balada em 24 horas, em memória de Renee Good e Alex Pretti, dois cidadãos dois EUA mortos a tiros por agentes federais durante operações da polícia migratória de Trump na cidade.
A onda de reprovação a Trump ultrapassou as fronteiras dos Estados Unidos, com mobilizações registradas neste sábado em cidades europeias como Amsterdã, Madri e Roma, onde 20 mil pessoas marcharam sob um forte dispositivo policial.
O fator 3,5%
A professora de Harvard Erica Chenoweth descobriu em décadas de pesquisa sobre manifestações civis que as manifestações em massa têm maior probabilidade de sucesso se:
- Forem não violentas,
- Incluírem cerca de 3,5% da população (aproximadamente 12 milhões de pessoas nos Estados Unidos)
- Forem reforçadas por um planejamento cuidadoso fora do próprio dia da manifestação.
Muitas marchas do movimento No Kings atendem a pelo menos alguns desses critérios, dizem os organizadores.
Para que os EUA alcancem a meta de 3,5%, com uma população de cerca de 380 milhões, uma manifestação teria que reunir cerca de 12 milhões de pessoas. Até o momento, a maior manifestação anti-Trump, realizada no sábado, teve uma estimativa de 8 milhões de participantes, um aumento de cerca de um a dois milhões em relação às duas manifestações anteriores.
Mas há indícios de que as manifestações possam estar tendo um efeito indireto sobre o governo. As demissões da amplamente ridicularizada secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, e de seu assessor, Corey Lewandowski, e a nomeação de MarkWayne Mullin, para a aplicação das leis de imigração, possivelmente demonstram que o governo está ouvindo as queixas da população.
Eleições de novembro
Além disso, 36 deputados republicanos anunciaram sua aposentadoria do Congresso ao final deste mandato (mais que o dobro do número de democratas), possivelmente demonstrando que não consideram suas candidaturas viáveis nas eleições legislativas de novembro.
Jana Silverman disse esperar “poder canalizar esse sentimento em ações mais eficazes contra o governo do Trump e, nas eleições de novembro, esperamos um grande resultado para os candidatos que são claramente na oposição ao Trump”.
Um eventual processo de impeachment de Trump poderia ser aprovado por maioria simples de deputados na câmara baixa, a Casa dos Representantes, precisando do voto de dois terços dos senadores. A analista estadunidense disse que tal vitória no Senado é improvável.
“Não temos ilusões, vai ser muito difícil, quase impossível, captar maioria dos democratas no Senado. E nosso Senado tem regras exóticas que permitem que uma minoria de um terço dentro possa bloquear a tramitação de quase qualquer lei.”
