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Nova justiça agrária na Colômbia mira conflitos por terra e dívida histórica com o campesinato

Lei sancionada por Petro cria tribunais especializados, mas ainda depende de regulamentação

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Presidente Gustavo Petro sanciona lei da Jurisdição Agrária em cerimônia em Cereté, no departamento de Córdoba
Presidente Gustavo Petro sanciona lei da Jurisdição Agrária em cerimônia em Cereté, no departamento de Córdoba | Crédito: Presidência da Colômbia

O presidente colombiano Gustavo Petro sancionou a lei estatutária da Jurisdição Agrária e Rural, criando um sistema judicial especializado para resolver conflitos por terra e ampliando o acesso à justiça para camponeses, povos indígenas e comunidades negras no país. A medida é considerada um passo central para a implementação da Reforma Rural Integral prevista no Acordo de Paz de 2016, que resultou na desmobilização das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

A lei foi sancionada na última sexta-feira (27), em Cereté, no departamento de Córdoba. A nova jurisdição estabelece juízes e tribunais específicos para tratar de conflitos agrários, com foco em garantir decisões mais rápidas e adequadas à realidade rural.

A criação da jurisdição agrária responde a uma demanda histórica do campesinato colombiano, que há décadas reivindica mecanismos institucionais para resolver disputas fundiárias sem recorrer à violência.

Para René Ayala, analista político e diretor da agência Prensa Rural, a medida marca uma inflexão nesse processo. “É um fato histórico que tenha sido sancionada a lei de jurisdição agrária. Era uma luta do movimento camponês para garantir um mecanismo que resolvesse os conflitos de terra na Colômbia, que têm sido o motor do conflito no país”, afirmou ao Brasil de Fato.

A concentração fundiária e a disputa por territórios estão na base de diferentes ciclos de violência no país, desde conflitos agrários do século 20 até o surgimento de guerrilhas revolucionárias e grupos paramilitares. Segundo relatórios da Unidade para as Vítimas e do Museu Casa de la Memoria, mais de 50% das vítimas de homicídios na Colômbia são camponeses, grupo que também representa mais de 45% dos deslocados do país.

Ayala destaca que, até hoje, o país não contava com uma estrutura judicial dedicada exclusivamente a esses conflitos. “Desde os anos 1930 não existia uma estrutura judicial com juízes de terra, normas e profissionais dedicados a resolver os temas da propriedade rural”, disse.

Segundo ele, a ausência de mecanismos institucionais contribuiu para a consolidação de práticas de usurpação e violência nos territórios. Ayala afirma que a disputa pela terra foi historicamente marcada pelo uso da força e pelo poder político de grandes proprietários. “O que se busca agora são mecanismos que defendam os camponeses da violência, da usurpação e da avareza que historicamente marcaram os territórios”, completou.

Desde o início do governo Petro, a reforma agrária ganhou impulso na agenda pública colombiana. A gestão reativou o Sistema Nacional de Reforma Agrária, aprovou o reconhecimento constitucional do campesinato como sujeito de especial proteção e incorporou à Constituição a própria Jurisdição Agrária e Rural, vista pelo governo como peça-chave para enfrentar conflitos fundiários históricos e ampliar o acesso à justiça no campo.

Segundo a ministra da Agricultura, Martha Carvajalino, mais de 700 mil hectares já foram incorporados ao Fundo Nacional de Terras e cerca de 300 mil foram entregues a camponeses e comunidades étnicas. A ministra também afirmou, em entrevista ao Brasil de Fato, que o governo ampliou a área de produção agrícola, com mais de 200 mil hectares incorporados a cultivos, sobretudo da agricultura camponesa, além de fortalecer instrumentos como os Territórios Camponeses Agroalimentares (Tecam), Zonas de Reserva Camponesas (ZRC) e as instâncias de concertação com povos indígenas, comunidades negras e organizações camponesas.

Martha Carvajalino, ministra da Agricultura, durante ato que sancionou a lei da Jurisdição Agrária em Cereté (Córdoba) (Foto: Presidência Colômbia)

Como vai funcionar a nova justiça agrária

A lei estatutária regulamenta a criação da Jurisdição Agrária e Rural, incorporada à Constituição por meio do Ato Legislativo 03 de 2023. O novo sistema estabelece julgados e tribunais especializados em todo o país, além de centros de apoio técnico e facilitadores que orientarão a população no acesso à justiça.

Na prática, a jurisdição será responsável por resolver conflitos relacionados ao uso e à posse da terra, contratos agrários, ocupações, servidões e disputas envolvendo decisões da Agência Nacional de Terras. A proposta é garantir maior celeridade e especialização nos processos, superando entraves históricos da justiça comum.

A ministra da Agricultura, Martha Carvajalino, explicou que a lei define a estrutura administrativa e os recursos necessários para a criação dos primeiros tribunais. Segundo ela, o objetivo é consolidar uma justiça acessível e adaptada às realidades do campo colombiano.

Apesar do avanço, a implementação completa ainda depende da aprovação de uma lei ordinária, que definirá os procedimentos, competências e regras processuais da nova justiça agrária. O projeto segue em debate no Congresso e tem prazo até junho deste ano para ser aprovado.

Ayala avalia que, mesmo com os desafios, a sanção representa um avanço significativo na política agrária do país. “É uma ferramenta muito importante, progressista, para proteger a pequena propriedade camponesa, indígena e afrodescendente nas regiões da Colômbia”, afirmou.

Editado por: Thaís Ferraz

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