Neste 1º de abril de 2026 completam-se 62 anos desde o golpe militar de 1964. Partindo de Juiz de Fora (MG), uma marcha instaurou a ditadura civil-empresarial-militar que só teria fim em 1985. O regime instrumentalizou diversas formas de violência e censura na repressão à dissidência política e social, restringindo os direitos políticos, a liberdade de imprensa e perpetrando graves violações aos direitos humanos, em 21 longos anos.
A tomada do poder pelos militares destituiu João Goulart, então presidente da República, e foi complementada por um golpe parlamentar, que selou a interrupção da nossa democracia. Hoje, é sabido o direto envolvimento da Agência Central de Inteligência Americana (CIA) no processo político que culminou no golpe, além do apoio militar direto da Marinha estadunidense aos golpistas de 64.
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Por ter em sua origem uma marcha que saiu de Minas Gerais, é ainda mais importante manter vivas as memórias desse período de tortura e terror. Como aponta o relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), “é fundamental que as gerações que nasceram depois da ditadura militar saibam o que se passou nos porões de um Estado arbitrário, ditatorial e repressor que ocupou o poder”.
A perseguição aos estudantes
A repressão, entre outros grupos, perseguiu e violou direitos fundamentais da comunidade universitária de Minas Gerais e dos estudantes das diversas instituições de ensino do estado. Por isso, um dos grupos de trabalho da Covemg se dedicou especialmente a entender a “repressão ao movimento estudantil e às universidades em Minas Gerais”.
“O movimento estudantil mineiro representava um foco diversificado de luta e de resistência às ações repressivas impostas pelo governo autoritário, tendo sido também palco da criação de organizações políticas de resistência com um papel significativo”, aponta o relatório da comissão.
Devido às limitações práticas e financeiras da Covemg, o trabalho se concentrou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) e Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), em Belo Horizonte; Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF);
Por outro lado, o relatório ressalta a enorme lacuna e a importância de estender a investigação a todas as 28 instituições de ensino existentes em Minas no período. Marco do ápice da repressão ao ensino superior no Brasil, durante os chamados “anos de chumbo”, o Decreto-Lei no 477 de 1969 foi o instrumento legal usado para que diversos estudantes fossem expulsos arbitrariamente de suas instituições.
“O decreto foi concebido para desmantelar o movimento estudantil, considerado perigoso adversário do governo e dispunha sobre infrações disciplinares praticadas por professores, estudantes, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino”, explica o relatório da comissão.
Outros tantos estudantes, com diferentes níveis de envolvimento em movimentos de contestação, foram presos, torturados e mortos pelo regime. A consolidação dos dados exatos, que apresente à sociedade quem e quantas foram as vítimas das atrocidades que ocorreram entre dependências do Exército, Polícia Militar e Polícia Civil, usados como centro de tortura, é outra enorme lacuna no entendimento e publicização da dimensão da barbárie.
Relembre a história de alguns dos estudantes perseguidos
Em 2024, a UFMG, em cerimônia simbólica, concedeu diplomas póstumos a quatro discentes mortos pela ditadura militar: Gildo Macedo Lacerda, Idalísio Soares Aranha Filho, Walkíria Afonso Costa e José Carlos Novais da Mata Machado. Foram homenageados também dois docentes, Marcos Magalhães Rubinger e João Batista dos Mares Guia, e dois servidores técnico-administrativos, Elza Pereira, Irany Campos, que tiveram suas carreiras interrompidas pelo regime.
Gildo Macedo Lacerda
Nascido em Itaituba (MG), Gildo tinha 19 anos quando, em 1968, foi admitido no curso de economia da UFMG. Envolvido com o grêmio estudantil desde a adolescência vivida em Uberaba (MG), ele tinha interesse por manifestações artísticas no teatro, na música e na poesia, tendo atuado como radialista e participado do teatro amador.
No mesmo ano de seu ingresso na universidade, foi preso no congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna (SP). Liberado em seguida, Lacerda foi um dos tantos estudantes impedidos de continuar a formação por meio do decreto-lei 477/1969. Mesmo expulso, foi eleito vice-presidente da UNE, integrando a última diretoria da entidade antes da completa desarticulação pela repressão.
Perseguido pelo regime, Gildo foge para Salvador (BA), onde se casou com a jornalista Mariluce Moura, com quem teve a filha Tessa. Em 1973, Gildo, Mariluce e outros colegas militantes são presos pelo Exército. Desde então, Mariluce nunca mais viu o marido, que após dois dias foi transferido para o DOI-CODI/Recife, onde foi torturado até a morte, junto do amigo José Carlos da Mata Machado.
Gildo faleceu sem revelar nada aos militares, nunca chegou a conhecer a filha e seu corpo nunca foi encontrado. Mariluce e Tessa ainda lutam por memória, verdade e justiça em relação aos crimes da ditadura militar.
José Carlos Novaes da Mata Machado
José Carlos Novaes da Mata Machado nasceu no Rio de Janeiro, mas veio muito cedo com a família para Belo Horizonte (MG). Tendo passado, no mesmo ano do golpe, em primeiro lugar no curso de Direito da UFMG, era, aos 20 anos, presidente do Centro Acadêmico Afonso Pena e vice-presidente da UNE. Foi na UFMG que ele conheceu Gildo Macedo Lacerda, com quem, para além da militância, teve uma relação de amizade.
Junto a mais de 800 estudantes, assim como Lacerda, Mata Machado é preso no Congresso de Ibiúna (1968) e, devido a sua posição de liderança, fica oito meses detido. Por conta da prisão, esses estudantes tiveram os nomes inscritos na lista de suspeitos de “subversão”, e seguiram permanentemente vigiados pelos órgãos da repressão política.
Após sua libertação, casa-se com a também militante Maria Madalena Prata Soares. Com ela teve um filho chamado Dorival e um enteado, Eduardo. Eles moraram na clandestinidade em Fortaleza (CE), até que em 1973, ao buscar ajuda jurídica em São Paulo, José Carlos é preso, torturado no DOI-CODI de São Paulo e transferido para o DOI-CODI de Recife.
Lá, ele reencontra Gildo e, em um interrogatório frente à frente, ambos são torturados até a morte. Preso político na mesma época e lugar, Rubens Manoel de Lemos contou à Comissão da Verdade (CV) que viu José Carlos pouco antes de morrer, sangrando pela boca e pelos ouvidos, junto a um corpo (provavelmente, Gildo). Na ocasião, ele lhe falou: “companheiro, meu nome é Mata Machado. Sou dirigente nacional da AP. Estou morrendo. Se puder, avise aos companheiros que eu não abri nada”.
A mentira veiculada pela ditadura como explicação para a morte de José e Gildo ficou conhecida como “Teatro de Caxangá”. O assassinato dos dois militantes e amigos ganhou ampla repercussão, dentro e fora do país. Após muita luta e burocracias, com a condição de não haver aviso fúnebre, a família de Mata Machado conseguiu recuperar o corpo, enterrado pelos militares como indigente em um caixão sem tampa em Recife.
Walkiria Afonso Costa
Conhecida desde a infância como uma menina meiga e inteligente, que cantava e tocava violão e acordeon, Walkíria nasceu em 1947, na cidade de Uberaba (MG). Já trabalhando como professora, passou em segundo lugar no curso de pedagogia da UFMG, onde se destacou como ótima estudante, sendo muito respeitada por sua inteligência aguçada. Ainda em 1968, foi uma das fundadoras do Centro Acadêmico de Pedagogia.
Em 1971, com seu esposo e também militante Idalísio Soares Aranha, vai ao Pará participar da luta junto aos camponeses pobres da região do Araguaia. Integra a Guerrilha do Araguaia, movimento de resistência armada, dirigido pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) e amplamente apagado da narrativa histórica brasileira. Após uma chacina perpetrada pelo Exército contra o grupo, só um dos 70 militantes envolvidos sobreviveu.
Walkiria consegue fugir do último ataque feito por oficiais do Exército, no dia 25 de dezembro de 1973. Nesta emboscada, as forças exterminaram a vida de todos os guerrilheiros que ali restavam. Depois de sobreviver 10 meses na mata, sozinha, doente e machucada, ela é reconhecida ao pedir comida na casa de um camponês e levada para a base militar em Xambioá.
Apesar do silêncio imposto sobre o episódio, há poucos anos, soldados que atuaram na repressão deram depoimentos à revista Época, onde revelam as circunstâncias da morte de Walkiria, a última guerrilheira morta no Araguaia.
“Após longo interrogatório, Walkíria foi assassinada na base militar e enterrada na cova que já estava cavada para ela. Os coronéis que ali estavam beberam vinho, comemorando a morte da última guerrilheira. Era dia 25 de outubro de 1974, o fim da Guerrilha do Araguaia” disse, durante a cerimônia de diplomação póstuma na UFMG, Valéria Costa, irmã de Walkíria.
Hoje, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Educação (FaE/UFMG) leva seu nome. Seu pai, Edwin Costa, faleceu antes que pudesse encontrar o corpo de Walkiria. No túmulo reservado ao corpo, caso seus restos mortais fossem achados, ele escreveu: “Pensam que me mataram? Ressuscitaram um ideal. Pensam que me enterraram? Plantaram uma semente.”
Idalísio Soares Aranha Filho
Conhecido como Aparício e companheiro de Walkiria, Idalísio é natural de Rubim (MG). Um jovem de poucas palavras, compartilhava com a companheira o amor pela música, reunindo muitos a sua volta para cantar e tocar violão.
Desde o início do curso de Psicologia na UFMG, o qual ingressou em 1968, já demonstrava sua revolta contra as injustiças sociais que percebia. Foi um dos organizadores da “luta dos excedentes”, estudantes aprovados no vestibular que não foram convocados para ocupar suas vagas mas que juntos conquistaram esse direito.
Em 1971, é eleito presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH), entidade que hoje leva seu nome. Abandonou o cargo e o curso na UFMG para se juntar à guerrilha. Após a ida ao Pará, junto de sua esposa, integrou o destacamento B da guerrilha do Araguaia e foi o primeiro mineiro a ser morto pelo Exército, após cair em uma emboscada.
Segundo documentos dos próprios militares, analisados na CV, morreu em resistência feroz entre junho e julho de 1973. Idalísio teve o corpo perfurado por 53 tiros de metralhadora e ainda assim conseguiu escapar na mata, tendo sido apanhado agonizante alguns quilômetros adiante, onde foi executado.
O Brasil foi condenado na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) pela morte de Idalísio, Walkíria e de outros 60 guerrilheiros da região de Araguaia. Sua irmã Antônia, que hoje atua como professora na FaE, afirmou, durante a homenagem em 2024, que é difícil imaginar o que seria do Brasil sem os sacrifícios e lutas daqueles que viveram durante o regime militar.
“Estaríamos em um país muito mais desigual e injusto. Meu irmão e tantos outros contribuíram para resgatar a democracia em nosso país, e eles serão sempre inspiração para um Brasil igualitário e fraterno”, disse ela.
Comissão Mineira da verdade
A Covemg foi um desdobramento da Comissão Nacional da Verdade, criada por Lei do governo Dilma Rousseff (PT). Organizada a partir de um Projeto de Lei apresentado pela então deputada Liza Prado, teve duração de quatro anos e culminou em um relatório final de 1781 páginas.
O objetivo da iniciativa foi “restaurar a verdade dos fatos relativos aos tempos tenebrosos do período ditatorial em Minas Gerais”, abarcando o período de 1946 a 1985. As mais de 100 pessoas que atuaram na Covemg foram divididas em 13 frentes de trabalho a fim de resgatar a história da luta pela democracia e pelos direitos humanos de inúmeros mineiros e mineiras. O documento é dividido em cinco volumes e 16 tópicos temáticos.
A história dos estudantes resgatada nesta matéria é apenas uma fração dos relatos que vieram à tona com a Covemg e uma parte menor ainda desses longos 21 anos de repressão, um fragmento da história brasileira que segue nebuloso para o público geral.
Uma história incompleta
Em decorrência de ações como esta, foram possibilitados avanços como a reabertura das investigações dos casos de Juscelino Kubitschek e Rubens Paiva e a retificação em mais de 400 certidões de óbito de mortos e desaparecidos políticos. Um dos maiores exemplos a ser citado é a condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros sete integrantes do primeiro escalão de seu governo por tentativa de golpe de Estado em janeiro de 2023.
Mas, apesar da importância das comissões da verdade e do extenso material resultante da pesquisa, tanto o Brasil quanto Minas ainda são frágeis nas ações concretas de fortalecimento da memória sobre o período ditatorial. Prova disso é a demora em consolidar oficialmente o Memorial dos Direitos Humanos de Minas Gerais, hoje ocupado por movimentos populares, na sede do antigo DOPS de Belo Horizonte.
Esta reportagem reproduz algumas das poucas informações disponíveis sobre a trajetória e as violências sofridas por esses e tantos outros lutadores mineiros e brasileiros que resistiram à ditadura militar. Não existe atualmente um número exato apurado de pessoas presas, torturadas e mortas no estado ou de origem mineira.
