CONTRA O FASCISMO

Avanço da extrema direita exige solidariedade global, alerta Ana Miranda

Eurodeputada galega participou da 1ª Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre

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“Por isso, nós não calamos. Estamos nos preparando e dizemos: fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais!", enfatiza eurodeputada
“Por isso, nós não calamos. Estamos nos preparando e dizemos: fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais!”, enfatiza eurodeputada | Crédito: Vinícius Manfron

“É mais que nunca necessário combater os ataques que se estão dando tanto na América como na Europa contra a soberania popular e contra os povos.” A afirmação é da eurodeputada galega Ana Miranda, do Bloco Nacionalista Galego, durante a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre, entre os dias 26 e 29 de março.

Para a parlamentar, a escolha do Brasil como sede do encontro carrega um significado político importante em um contexto de disputas globais. “É muito importante que um evento dessas características seja celebrado no Brasil, um país que está a combater o fascismo e que sofreu o fascismo”, afirmou.

Ela relembrou sua primeira visita à cidade há 25 anos, para o primeiro Fórum Social Mundial. “Porto Alegre é um lugar de tanta referência, onde há anos falávamos de outro mundo possível. Que o espírito de outro mundo possível continue”, disse, reforçando a importância histórica da colaboração internacional.

Ao situar o cenário internacional, Miranda criticou tanto as políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto a condução da União Europeia, especialmente no que diz respeito ao aumento de tensões militares. “Num momento em que tanto as políticas de Trump como as políticas da União Europeia, com Ursula Von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) chamando tambores de guerra, é mais que nunca necessário combater estes ataques.”

A eurodeputada afirmou que há um avanço de políticas que priorizam a guerra em detrimento de direitos sociais. “Estão a meter o orçamento europeu para políticas de guerra, de segurança e de defesa, em lugar de políticas de habitação, de justiça social, de emprego”, criticou.

Saída da OTAN e disputa política na Espanha

Ao comentar a posição da Espanha, Miranda defendeu que o país rompa com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Segundo ela, a permanência na aliança militar representa o aprofundamento de uma agenda belicista. “O que nos aporta a Otan? Nada. Incremento do gasto militar, incremento de políticas belicistas.”

A parlamentar também relacionou o tema à política interna espanhola, indicando que a saída da organização pode ser condição para a sustentação de governos de esquerda. “Se o Sánchez quer voltar a governar e ter apoio das forças da esquerda, vai ter que sair”, disse.

Para ela, apesar de alguns movimentos recentes considerados positivos, ainda há contradições históricas. “O Partido Socialista votou a favor da Otan no passado, então há tensões que seguem presentes.”

Palestina, Israel e denúncia de “genocídio”

Miranda também abordou a situação na Palestina e relatou sua experiência pessoal ao participar, em 2015, da flotilha internacional rumo a Gaza. Na ocasião, foi detida por forças israelenses. “Fomos sequestrados 57 horas pelo Estado terrorista e sionista de Israel e, como deputada europeia, não pude voltar durante 10 anos a entrar em Israel”, contou.

Segundo ela, mesmo anos depois, em 2022, já como integrante da delegação do Parlamento Europeu para a Palestina, foi novamente impedida de entrar no território. “Há um boicote. Em troca, ministros e embaixadores israelenses andam pelo Parlamento Europeu e por Bruxelas livres. Não há reciprocidade.”

A eurodeputada classificou a situação vivida pelo povo palestino como um massacre contínuo. “Foi uma experiência dura, evidentemente, mas nada comparado com o que sofre um palestino cada dia na Cisjordânia e em Gaza”, afirmou. Ela denunciou ainda o que chamou de “genocídio”, reforçando a necessidade de solidariedade internacional.

“Precisamos nos organizar, precisamos que haja uma real internacional antifascista”, defende Ana Miranda | Crédito: Vinícius Manfron

América Latina, bloqueios e interferências

Miranda também recordou o papel da América Latina na resistência ao franquismo e no acolhimento de emigrantes galegos. “Portos, cidades e governos da região abriram suas portas para nosso exílio, permitindo que a luta pela liberdade fosse continuada em solo latino-americano.”

Entre conquistas recentes, Miranda citou a devolução do Passo de Meiraz, lugar histórico usado por Franco e recuperado para o povo após intensa mobilização social e política.

Ela destacou ainda os laços históricos entre Galícia e Cuba. “Os galegos emigraram a Cuba no século 19 e construíram nossa identidade, nossa vida em Cuba. Há uma identidade muito grande também porque Fidel Castro era filho de galegos. Então, há muita campanha de solidariedade na Galícia.”

No contexto atual, a parlamentar demonstrou preocupação com o cenário latino-americano, especialmente diante do endurecimento do bloqueio à ilha. “Cuba preocupa-nos muito. É uma asfixia, uma tremenda agressão.”

Miranda apontou ainda possíveis interferências dos Estados Unidos em outros países da região. “Cuidado com o processo na Colômbia. Vai haver interferência. Vimos isso também em outros lugares”, afirmou, citando episódios envolvendo Venezuela e Groenlândia como exemplos de disputas geopolíticas mais amplas.

Já no campo econômico, a eurodeputada criticou iniciativas da União Europeia, como o programa Global Gateway e o acordo entre Mercosul e bloco europeu. Segundo ela, essas políticas apontam para um novo ciclo de exploração de recursos na América Latina. “Pretendem vir fazer extrativismo de novo na América Latina”, alertou, defendendo maior organização internacional para enfrentar esse tipo de iniciativa.

“Precisamos nos organizar, precisamos que haja uma real internacional antifascista”

Avanço da extrema direita e ambiente no Parlamento Europeu

A eurodeputada também fez um alerta sobre o crescimento da extrema direita na Europa, com destaque para o avanço do Vox na Espanha. Segundo ela, o fortalecimento do partido está relacionado à atuação do Partido Popular. “Branquearam e partilharam governabilidade com a extrema direita”, afirmou.

Ela destacou ainda a influência dessas forças entre jovens e nas redes sociais, além de articulações internacionais. “Eles manejam muito bem as redes sociais e têm também a chamada ‘Iberosfera’, que interfere em processos eleitorais.”

No Parlamento Europeu, Miranda descreveu um ambiente de crescente hostilidade. De acordo com ela, há três grupos fascistas, 187 deputados, que atuam espalhando ódio contra refugiados, pessoas LGBTQ+ e ativistas de direitos humanos. “Somos insultados por denunciar fascistas, enquanto eles permanecem livres para incitar ódio. É o mundo do avesso. Ser antifascista tem um custo, mas não temos medo”, enfatizou.

“Não se pode fazer política de esquerda se não for antifascista, anti-imperialista e anticapitalista. A força da extrema direita na Europa exige solidariedade entre povos e movimentos”, complementou.

Resistência

Diante desse cenário, a parlamentar defendeu o isolamento político da extrema direita. “Eu não vou a nenhum debate com partidos fascistas. Não me sento com eles.” Para ela, também é necessário avançar em medidas legais. “Não são democráticos, atacam o ser humano.”

Por outro lado, destacou a importância da construção de redes de solidariedade e resistência. Ela citou o exemplo da Espanha, onde, segundo afirmou, há forte mobilização em apoio ao povo palestino. “O povo espanhol apoia a Palestina. Houve mobilizações semanais durante dois anos”, disse.

Miranda também mencionou o papel de cidades como Barcelona, que têm histórico de acolhimento e solidariedade internacional, inclusive em ações com refugiados e flotilhas humanitárias. “Barcelona tem uma tradição de esquerda, entre os partidos que governam em nível municipal, e foi solidária também com os barcos dos refugiados. Quando viajei em um barco de resgate de refugiados, que foi à Líbia, nós fomos impedidos de entrar na Itália. Foi o Porto de Barcelona que nos deu entrada. Então, essa tradição continua e agora vai sair de lá também uma flotilha para Cuba.”

Ao final, a eurodeputada reforçou a necessidade de articulação global. “Precisamos nos organizar, precisamos que haja uma real internacional antifascista. Em um mundo em que cada vez as lutas são mais comuns, o que acontece na Venezuela ou com um povo africano vai ser muito semelhante, o que está em jogo é o imperialismo e o controle de recursos.”

“Por isso, nós não calamos. Estamos nos preparando e dizemos: fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais! Fascismo nunca mais!”, conclui.

Editado por: Katia Marko

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