POLÍTICA PÚBLICA

Com expansão em MG, Gás do Povo ganha força e Lula critica leilão de GLP

Programa combate pobreza energética e pode impulsionar economias locais

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Lula classificou o leilão de GLP como uma ação contrária à orientação do governo | Crédito: Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou que o governo federal pretende anular o leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) realizado pela Petrobras, após a operação registrar aumentos de até 100% nos preços cobrados em relação aos valores praticados pela estatal.

Em tom crítico, Lula classificou o leilão como uma ação contrária à orientação do governo e afirmou que a população mais pobre não pode ser penalizada pela alta de preços. “O povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra”, declarou, em referência também às pressões internacionais sobre o mercado de energia, agravadas por conflitos no Oriente Médio.

O presidente destacou ainda a distorção entre o valor de venda do gás pela estatal e o preço final ao consumidor. Segundo ele, um botijão vendido a cerca de R$ 37 pela Petrobras não pode chegar a R$ 160 nas casas das famílias brasileiras. Para o governo, parte do problema está na cadeia de distribuição, o que reforça a importância de políticas públicas como o Gás do Povo.

Expansão do programa em Minas Gerais

Nesse cenário, o Gás do Povo inicia uma nova fase de operacionalização em Minas Gerais com um investimento de R$ 70,4 milhões apenas no mês de março de 2026. O montante será destinado a 737 mil famílias mineiras, o que corresponde a 7,35% do total nacional previsto para o período, estimado em R$ 957,2 milhões.

O estado se consolida como um dos principais focos da política, ficando entre os maiores volumes de investimento do país. Ao todo, 9,4 milhões de famílias brasileiras serão contempladas nesta etapa, sendo que Minas responde por 7,84% desse total.

A atual fase marca a terceira expansão do programa, que triplicou o número de beneficiários desde sua criação. Inicialmente restrito a 10 capitais, o Gás do Povo avançou para 17 cidades e, posteriormente, passou a abranger todas as capitais brasileiras. Agora, chega de forma mais ampla ao interior, consolidando sua presença em praticamente todo o território nacional.

Outro avanço importante foi a incorporação automática de 4,5 milhões de famílias que já recebiam o antigo Auxílio Gás dos Brasileiros. Além disso, o número de revendas credenciadas quadruplicou entre novembro de 2025 e março de 2026, ampliando o acesso ao benefício.

A meta do governo federal é viabilizar cerca de 65 milhões de recargas por ano, substituindo o modelo anterior de transferência em dinheiro pela entrega direta do botijão, medida que aumenta a efetividade da política e garante que o recurso seja, de fato, convertido em acesso ao gás de cozinha.

BH como vitrine do programa

Na capital mineira, o programa já apresenta resultados expressivos. Mais de 52 mil famílias estão aptas a retirar gratuitamente o botijão de 13 kg. Belo Horizonte também lidera a adesão de revendas credenciadas, com 81 estabelecimentos participantes, cerca de 32% do total da cidade.

Com isso, 69 bairros já contam com cobertura direta. Os dados mostram que 62% das famílias beneficiadas estão a menos de 1 km de uma revenda, enquanto outros 32% estão a uma distância entre 1 e 2 km, o que amplia significativamente o acesso.

O lançamento do programa na capital ocorreu no Aglomerado da Serra, simbolizando o foco nas populações mais vulneráveis. A estimativa do governo é que, até a plena implementação, mais de 1,2 milhão de famílias sejam atendidas em Minas Gerais.

Interior revela demanda reprimida

A expansão para o interior mineiro trouxe à tona um dado significativo: a existência de uma demanda historicamente reprimida. Em apenas dois dias após a ampliação do programa, mais de 9 mil recargas foram registradas fora da capital.

No total, Minas Gerais acumula 36,6 mil recargas desde o início do programa, sendo 27,6 mil realizadas em Belo Horizonte ao longo de cerca de três meses. O contraste com o ritmo do interior evidencia o quanto o acesso ao gás de cozinha era limitado por fatores econômicos.

:: Leia também: Lula lança no Aglomerado da Serra, em BH, o programa Gás do Povo para milhões de famílias ::

Segundo o Ministério de Minas e Energia, esse comportamento demonstra que o consumo do botijão sempre esteve condicionado à renda, sendo muitas vezes substituído por alternativas precárias como lenha, carvão ou álcool.

Pobreza energética e inclusão social

Para a economista Valquíria Assis, o Gás do Povo representa um avanço significativo no enfrentamento da pobreza energética, especialmente em Minas Gerais.

Ela explica que milhões de famílias brasileiras ainda utilizam fontes de energia inadequadas para cozinhar, o que impacta diretamente a saúde, a qualidade de vida e a segurança alimentar.

“O programa garante acesso direto ao botijão de gás e promove o conceito de ‘cozinha limpa’, alinhado a objetivos internacionais de desenvolvimento sustentável”, afirma.

Segundo Assis, a política também corrige uma distorção histórica: a exclusão energética de parcelas significativas da população.

“Sem acesso à energia, essas famílias enfrentam limitações que afetam sua produtividade, saúde e participação econômica. O Gás do Povo permite uma inserção mais digna na sociedade”, avalia.

Impacto no orçamento doméstico

O efeito mais imediato do programa é sentido no bolso das famílias. Em Belo Horizonte, o preço do botijão varia entre R$ 105 e R$ 130, podendo ser ainda maior em regiões mais afastadas.

Com a gratuidade, há um aumento real da renda disponível, já que esse gasto deixa de comprometer o orçamento doméstico.

“Esse recurso pode ser direcionado para alimentação, transporte, saúde e educação. É uma melhora concreta nas condições de vida”, destaca Assis.

Economia local e efeito multiplicador

Além do impacto social, o programa também tem potencial de impulsionar a economia mineira. A injeção de mais de R$ 70 milhões em um único mês tende a gerar um efeito multiplicador, especialmente em regiões periféricas.

De acordo com a economista, famílias de baixa renda têm maior propensão ao consumo local, o que fortalece pequenos comércios e serviços.

“Esse movimento não acontece de forma imediata, mas, ao longo do tempo, pode resultar em aumento do faturamento, geração de empregos e maior circulação de renda”, explica.

Mulheres no centro da política

Outro aspecto relevante é o perfil das famílias beneficiadas. Dados do governo federal indicam que 92% dos lares atendidos são chefiados por mulheres, cerca de 8,7 milhões de famílias.

Para Assis, esse dado evidencia desigualdades estruturais no Brasil, como salários mais baixos, maior presença em empregos precários e sobrecarga de trabalho doméstico.

“O programa atua também como uma política de proteção social e de fortalecimento da autonomia dessas mulheres”, afirma.

Segurança alimentar e saúde pública

O acesso ao gás de cozinha também tem impactos diretos na alimentação e na saúde. Sem o botijão, muitas famílias recorrem a alternativas que oferecem riscos, como lenha e querosene.

Além disso, a falta de acesso pode comprometer a regularidade das refeições e a qualidade da dieta.

“O Gás do Povo garante algo básico: a possibilidade de cozinhar de forma adequada, com segurança e dignidade”, ressalta a economista.

Política estruturante de longo prazo

Instituído pela Lei nº 15.348/2026, o programa passa a ter caráter permanente, deixando de ser uma ação emergencial para se tornar uma política estruturante.

Segundo Assis, essa mudança é fundamental para garantir continuidade, financiamento e impacto duradouro.

“Ele atua em uma das dimensões mais profundas da pobreza, que é a energética. Ao mesmo tempo, movimenta a economia, gera empregos e melhora a qualidade de vida. É uma política com potencial transformador”, conclui.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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