O governo da Argentina declarou o encarregado de negócios do Irã, Mohsen Tehrani, “persona non grata” e determinou sua saída do país no prazo de 48 horas. A medida foi anunciada pela chancelaria argentina nesta quinta-feira (2), agravando a crise diplomática entre os dois países.
A decisão veio um dia depois de o governo iraniano acusar o presidente Javier Milei e o chanceler Pablo Quirno de cumplicidade nos ataques militares contra o Irã. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina afirmou que as declarações continham acusações “falsas, ofensivas e infundadas” contra o país e suas autoridades.
A expulsão do diplomata aprofunda uma escalada de tensionamento. Na terça-feira (31), o governo Milei classificou a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã como organização terrorista, medida apresentada pela Casa Rosada como parte de sua política de segurança e de combate ao terrorismo.
Teerã reagiu na quarta-feira (1º), dizendo que a decisão argentina representava um “grave erro de cálculo” e uma ofensa. Também acusou Buenos Aires de contrariar normas e princípios do direito internacional ao interferir em assuntos internos de outro país.
Ao justificar a resposta argentina, a chancelaria voltou a mencionar o atentado de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, que deixou 85 mortos. O governo Milei reafirmou acusações já sustentadas pela Justiça argentina contra autoridades iranianas e criticou o que chamou de recusa sistemática de Teerã em cooperar com o caso. O Irã nega qualquer participação no atentado e classifica as acusações como infundadas e politicamente motivadas.
Alinhamento externo e escalada
A expulsão de Mohsen Tehrani se soma a uma sequência de movimentos de Milei para expressar adesão à política externa dos governos dos Estados Unidos e de Israel. Nas últimas semanas, o presidente argentino já havia reforçado publicamente seu apoio à aliança entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu e subido o tom das declarações contra Irã.
Em março, porta-vozes do governo argentino admitiram a possibilidade de enviar militar aos Estados Unidos na guerra contra o Irã, caso houvesse um pedido formal de Washington. Especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato avaliaram que a disposição rompe com a tradição pacifista argentina e aprofunda uma política de alinhamento automático à Casa Branca.
Também em março, Milei participou do lançamento do chamado Escudo das Américas, uma coalizão promovida por Donald Trump que reúne governos alinhados à direita regional sob a bandeira do combate ao narcotráfico e à migração.
Segundo analistas, a iniciativa funciona, na prática, como instrumento de pressão política e militar dos Estados Unidos sobre a América Latina, combinando alinhamento ideológico e reforço da presença estratégica na região.
