RISCO À SAÚDE

Prefeita do Novo é denunciada por servir alimentos estragados a crianças em Cambuí (MG)

Servidores relatam pressão para usar comida vencida, pais denunciam sintomas e vereadores apontam irregularidades

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Cinthia Pereira
Cinthia Pereira é prefeita de Cambuí pelo partido Novo | Crédito: Reprodução Redes Sociais

Funcionários públicos, autoridades e pais de alunos de creches e escolas de Cambuí, no Sul de Minas, denunciam a prefeitura, sob gestão de Cinthia Pereira (Novo), por distribuir alimentos estragados às crianças em toda a rede municipal de ensino. Os relatos, obtidos pelo Brasil de Fato MG, apontam para um cenário de precarização da merenda escolar, possível negligência sanitária e pressão institucional sobre trabalhadoras.

Servidoras que preferem não se identificar, por medo de perseguição, afirmam que estão sendo “obrigadas” a preparar alimentos impróprios para consumo, como carne vencida, arroz com insetos, feijão com caruncho e legumes e verduras deterioradas. Segundo elas, a situação não é pontual, mas recorrente em diversas unidades.

‘O psicológico da gente vai para o brejo’

Uma das funcionárias dos Centros de Educação Infantil Municipal (CEIMs) relatou que os alimentos já chegam estragados por parte do fornecedor. Outra trabalhadora afirmou que recebeu orientação da nutricionista técnica ligada à prefeitura para “lavar bem a carne e pôr vinagre”, sob a justificativa de que “criança não conhece carne estragada”.

Em entrevista à reportagem, uma servidora pública disse que os problemas foram comunicados à direção escolar, à Secretaria de Educação e à nutricionista responsável desde os primeiros indícios de irregularidade.

“Foi relatado para diretora sobre a má qualidade da carne, e a mesma levou a preocupação para a secretaria de educação e para a nutricionista. Em nenhum momento foi dito para não fazer a carne. Teve ordem de que era pra lavar a carne estragada”, contou.

Outra funcionária relatou que precisou descartar alimentos contaminados. “Eu cheguei e joguei mais de dez pacotes de arroz fora porque estavam com larvas. O psicológico da gente vai para o brejo e eu fico pensando em sair do trabalho”, desabafou.

As trabalhadoras responsáveis pelo preparo da merenda afirmam que não têm alternativa, já que recebem ordens diretas para utilizar os alimentos, mesmo em condições inadequadas, e, ao mesmo tempo, precisam do emprego para sobreviver. “Isso nos deixa muito preocupadas e encurraladas. É uma situação que causa indignação, principalmente porque estamos falando da alimentação de crianças”, disse outra servidora.

Pais e responsáveis mostram preocupação

Após a circulação dos relatos, mães, pais e responsáveis passaram a cobrar explicações das autoridades. Muitos afirmam que os filhos apresentaram sintomas após consumir a merenda escolar, como febre, vômitos e dores abdominais.

“Os meus filhos estão lá e o meu menor está com febre a semana inteira. Está com uma febre de 39 graus”, relatou uma mãe.

“Minhas filhas já reclamaram que o cheiro da carne e o gosto não estavam muito bons”, disse outra.

“Meu filho de quatro anos não foi para a creche hoje e está com muita febre e reclamando de dor de barriga”, afirmou mais uma responsável.

A imagem mostra a mensagem de uma mãe que relata que esse problema com a merenda vem acontecendo há mais de duas semanas 

Outra mãe relatou um quadro mais grave: “Eu acho que foi sim a carne, porque ele estava bem, chegou da escola e começou a dar febre. Depois começou a vomitar sem parar. Ficou quase uma semana assim”.

Especialistas em saúde pública alertam que o consumo de alimentos contaminados pode provocar intoxicação alimentar, entre outras complicações. Crianças pequenas, especialmente menores de cinco anos, correm maior risco de complicações graves, como desidratação severa e infecções bacterianas, que podem causar insuficiência renal e óbito.

Prefeitura nega irregularidades

Procurada pela reportagem, a secretária de Educação, Benita Maria de Almeida Teixeira, afirmou que a prefeitura identificou irregularidades em um lote de alimentos fornecidos por empresa terceirizada. Segundo ela, a nutricionista técnica responsável solicitou o cancelamento do contrato e a convocação da segunda colocada no processo licitatório.

Apesar disso, a gestão municipal sustenta que não houve consumo de alimentos impróprios. De acordo com a secretária, “não foi verificada qualquer irregularidade” e não há registros de alunos afetados, pois a fiscalização sanitária teria atuado antes da distribuição.

Visita técnica desmente versão do Executivo

A versão da prefeitura, no entanto, é contestada por vereadores que realizaram fiscalização nas unidades escolares. No dia 27 de março, os vereadores Rodrigo Big (PDT) e Donizete (PRD) visitaram quatro CEIMs do município.

Segundo eles, o problema é generalizado. “Tem arroz com bicho, feijão escuro e com caruncho, frutas estragadas, uma série de reclamações. Isso acontece em toda a rede”, disse.

Além da alimentação, os parlamentares também identificaram problemas estruturais nas unidades, como pisos irregulares, paredes sem manutenção e presença de mofo em ambientes frequentados pelas crianças, fatores que, segundo especialistas, também comprometem a saúde e o bem-estar dos estudantes.

Créditos: Arquivo pessoal

Menos comida e pior qualidade

Funcionárias relatam que a qualidade e a quantidade da merenda pioraram desde o início da gestão de Cinthia Pereira, em 2025. Segundo os depoimentos, houve redução na oferta de alimentos e substituição de itens mais nutritivos por produtos industrializados.

“Não é servido suco natural para as crianças e nem sobremesa, com a justificativa de que haveria frutas à vontade. Mas, na prática, é um quarto de maçã por dia”, relatou uma trabalhadora.

O vereador Rodrigo Big confirmou a denúncia e afirmou que houve redução de proteínas e frutas nas refeições. Segundo ele, os sucos naturais foram substituídos por bebidas industrializadas e açucaradas.

Sobrecarga e desvio de função

As denúncias também apontam para a precarização das condições de trabalho nas escolas e creches. Segundo os relatos, há número insuficiente de funcionários, o que tem levado servidores a acumularem funções fora de suas atribuições.

“Tem poucos funcionários trabalhando nas creches e estão obrigando os servidores efetivos a fazer trabalhos que não são de responsabilidade deles”, afirmou uma denunciante, que relata pressão por parte da gestão municipal.

A prefeitura não respondeu aos questionamentos sobre esse ponto, até o fechamento desta reportagem.

Licitação sob suspeita e racionamento

Um servidor público, sob anonimato, afirmou que os problemas no fornecimento de alimentos estão relacionados à condução da licitação pela Secretaria de Educação.

“Essa licitação da carne foi realizada às pressas, porque, para variar, a secretaria perdeu o prazo e teve que fazer licitação emergencial, pagando um absurdo”, relatou.

Segundo ele, há unidades racionando a merenda escolar. “Tem escolas e CEIMs fazendo racionamento de comida porque a secretaria perdeu o prazo de compra”, relatou.

O servidor também criticou a gestão da secretária de educação, por estar administrando a pasta com “mão de ferro”. “Perde vários prazos e até bloqueou diretoras do WhatsApp por causa de cobranças”, disse.

‘Eles sabiam do problema’

Com a repercussão das denúncias, uma reunião foi realizada no dia 27 de março entre vereadores e a equipe da Secretaria de Educação. Segundo o vereador Donizete, a pasta reconheceu a situação e se comprometeu a tomar providências.

“Falaram que iam retirar imediatamente as carnes e trocar a empresa. Ou seja, sabiam do problema, pois isso já circulava na rede há pelo menos 15 dias”, afirmou.

Ele destacou ainda que o medo de represálias dificulta a formalização das denúncias. “Devido ao medo de perseguição, ninguém denuncia. Mas, dessa vez, muitas pessoas falaram porque chegaram ao limite”, concluiu.

À reportagem, a secretária afirmou que a prefeitura solicitará formalmente a identificação das supostas vítimas e locais citados. Disse ainda que, caso sejam confirmadas irregularidades, os responsáveis serão punidos e que as investigações estão em estágio inicial.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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