Os 94 deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo já receberam mais de mil emails de cidadãos exigindo a cassação do deputado Guto Zacarias (Missão, partido ligado ao MBL), após a revelação pelo Brasil de Fato de que ele teria coagido a sua ex-companheira de 22 anos a realizar um aborto no primeiro semestre de 2024.
O parlamentar foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), em 17 de julho de 2025, por violência psicológica contra a mulher no âmbito da Lei Maria da Penha. Militante contra o aborto, Guto primeiro negou a denúncia e gravou um vídeo com a ex-namorada dizendo não ter sido coagida.
Depois assumiu: “Não vou mentir para vocês, nós discutimos, sim, a hipótese absurda de interromper a gravidez. Ao descobrir que seríamos pais tão jovens […], nós discutimos essa hipótese absurda […], mas poucas horas depois desistimos desse pensamento pecador. Isso nunca evoluiu, nunca foi pra frente. Eu nunca forcei a Giovana a nada”, afirmou o deputado.
Os emails enviados aos deputados retomam trechos da denúncia e citam o regimento da Alesp, pedindo que a assembleia analise o pedido de cassação de Guto Zacarias. “A sociedade paulista aguarda uma resposta firme desta Instituição, zelando pela integridade de suas funções e pela proteção intransigente dos direitos fundamentais”, diz um dos emails.
Outro email, recuperando detalhes da denúncia, destaca que o caso extrapola qualquer limite aceitável para um parlamentar. “Trata-se de uma circunstância extremamente grave, que, se confirmada, extrapola qualquer limite ético, moral e legal, expondo não apenas a vítima, mas também a própria ordem pública a riscos inaceitáveis. Não se trata aqui de divergência política, mas de um padrão de conduta que, em tese, viola frontalmente os princípios da dignidade da pessoa humana, da proteção à mulher e do decoro parlamentar, pilares mínimos exigidos de qualquer representante eleito.”
“A Assembleia Legislativa não pode se omitir diante de fatos dessa natureza. A inércia institucional, diante de acusações tão graves e documentadas, compromete a credibilidade desta Casa perante a sociedade paulista. Diante disso, requer-se a imediata instauração e condução rigorosa dos procedimentos cabíveis e, sendo confirmadas as condutas narradas, a aplicação da penalidade máxima prevista: a cassação do mandato parlamentar”, pede outro.
Todos os emails aos quais o Brasil de Fato teve acesso tinham remetentes diferentes e não eram endereços de emails típicos de spam, com números ou nomes aleatórios. Alguns vieram inclusive com dados de documentos das pessoas que reivindicam a cassação.
A deputada estadual Paula Nunes, da Bancada Feminista do Psol, apresentou um pedido de cassação contra o deputado Guto Zacarias ao Conselho de Ética da Alesp, ainda na semana passada, logo que a denúncia foi divulgada. O pedido ainda vai ser analisado.
Para ela, os emails representam um sentimento popular de que não é possível que um parlamentar seja réu em um caso de violência contra a mulher e siga exercendo o mandato.
“Existe uma indignação popular com relação à existência de um deputado nessa casa que é réu e foi denunciado por violência psicológica e ameaça contra sua ex-companheira, coagindo ela a abortar. Isso mostra que nosso pedido está sintonizado com a vontade popular de que um deputado tão incoerente entre suas ações e o que diz publicamente para ganhar voto não continue sendo deputado e o parlamento tome uma atitude quanto a isso”, afirmou Paula.
Membro do Conselho de Ética, o deputado estadual Emídio de Souza (PT) também confirmou o recebimento dos milhares de emails e acredita que o colegiado “vai dar uma resposta adequada à sociedade”.
Procurado pelo Brasil de Fato, Zacarias não respondeu sobre os emails até a publicação desta reportagem.
Entenda o caso
O Brasil de Fato teve acesso ao processo, que corre em segredo de Justiça, e ao Boletim de Ocorrência protocolado pela ex-companheira, no dia 12 de fevereiro de 2025, contra Zacarias por violência psicológica.
De acordo com a denúncia, o deputado, que teve uma relação amorosa com a vítima entre 2021 e abril de 2024, teria, inclusive, sugerido clínicas clandestinas para a jovem realizar o aborto. Zacarias é pré-candidato a deputado federal por São Paulo e faz uso de um discurso conservador em suas plataformas. Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ele já foi vice-líder do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Na denúncia, o Ministério Público afirma que Zacarias teria tentado controlar as ações da jovem por meio de “manipulação, chantagem emocional e constrangimentos reiterados, inclusive durante o estado gestacional da vítima”.
Trechos da denúncia apontam que a ex-companheira de Zacarias passou a enfrentar crises durante a gestação após as ameaças do denunciado. Segundo o documento, “a vítima sofreu com episódios de pânico, insônia, sensação de perseguição e medo constante de que o denunciado pudesse invadir sua residência para forçá-la a interromper a gestação”. O texto também afirma que “a violência psicológica praticada por AUGUSTO foi constante e devastadora”, e que a mulher vivia sob tensão. De acordo com a denúncia, o acusado teria atuado para intimidar e controlar a vítima, provocando abalo emocional.
Em um dos depoimentos à polícia, a vítima chega a afirmar que Zacarias teria sugerido, além de clínicas, outros caminhos para realizar o aborto. “Durante toda a gestação, [houve] essas conversas dele tentando me convencer a não ter [o bebê], a interromper a gravidez”, disse a vítima. “Ele sugeriu que eu tomasse um comprimido e ai eu fiquei com muito medo porque eu falei ‘eu não vou tomar nenhum comprimido’ porque acho que eu não queria.” Em outro momento, Zacarias teria sugerido o método de “sucção”.
Ao registrar o Boletim de Ocorrência, a vítima pediu medidas protetivas. Ela relata que, durante a gravidez, passou a temer pela própria vida diante de ameaças frequentes. Em alguns momentos, acordava durante a madrugada com medo de que ele invadisse a casa. O documento ainda indica que houve abandono financeiro durante a gestação, sem apoio à vítima e ao bebê que nasceu no início do ano passado. Diante das ameaças, da pressão psicológica e da ausência de suporte, a vítima solicitou medidas protetivas de urgência por temer por sua integridade e pela segurança da filha.
Após a publicação da reportagem, a ex-companheira do deputado procurou o Brasil de Fato e afirmou que pediu que o arquivamento do processo. Porém, como o Ministério Público é o autor da ação, e a jovem é apresentada como vítima, somente o órgão pode requerer o arquivamento.
Ela também saiu em defesa do deputado estadual. “Guto jamais tentou me forçar a nada. Houve uma briga, houve instabilidade, atravessamos um período difícil e, orientada por um advogado — com quem hoje já não atuo —, agi por impulso”, disse. “O que prevaleceu foi o amor e a proteção à nossa filha”, afirmou. A jovem concluiu dizendo que o parlamentar é “um grande pai” e que sua “filha tem uma mãe presente, amorosa e determinada a defender a dignidade e o futuro dela contra qualquer tentativa de destruição”.
Guto Zacarias não respondeu aos contatos da reportagem.
