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‘Quilombo literário’: feira do livro afirma Restinga como referência cultural na periferia de Porto Alegre

Até domingo (12), evento reúne bancas de livros, atividades culturais e ações com escolas no território

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2º Feira do Livro da Restinga ocorre de quinta (9) a domingo (12) no bairro da periferia de Porto Alegre
2º Feira do Livro da Restinga ocorre de quinta (9) a domingo (12) no bairro da periferia de Porto Alegre | Crédito: Marcelo Ferreira

“A Restinga hoje pode ser considerada um quilombo dos livros, um quilombo de leitores. Um quilombo literário.” A definição do patrono da 2ª Feira do Livro do Bairro Restinga, Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior, sintetiza o sentido de um evento que, mais do que levar livros ao território, reconhece uma prática já consolidada de leitura e produção cultural. Entre esta quinta-feira (9) e domingo (12), a avenida Macedônia recebe a programação que articula literatura, formação de leitores e atividades culturais na Zona Sul de Porto Alegre.

Organizada pela Câmara Rio-Grandense do Livro, com apoio do Ponto de Cultura Africanidades, a feira chega à segunda edição no bairro com foco na ampliação do acesso ao livro e no fortalecimento de iniciativas locais. O evento reúne bancas de venda de livros, com participação de livreiros e autores, além de encontros com estudantes, rodas de conversa, apresentações culturais e atividades formativas. Parte da programação é direcionada às escolas da região, reforçando o vínculo entre literatura e educação.

A abertura oficial ocorreu na manhã de quinta-feira, com a presença do patrono Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior, que recebeu o posto do patrono da edição anterior, o diretor e dramaturgo Jessé Oliveira. Também participaram da solenidade a presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann, a secretária municipal da Cultura, Liliana Cardoso Duarte, o vereador Aldacir Oliboni (PT) e a coordenadora do escritório do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, Mariana Martinez.

Antes da cerimônia, a programação já havia começado com atividades voltadas ao público escolar, incluindo encontro com autora para alunos dos anos iniciais do ensino fundamental, antecipando uma das marcas centrais da feira: a formação de leitores desde a infância.

Uma Restinga que lê

Ao Brasil de Fato, Bittencourt Junior afirmou que a Restinga construiu, ao longo das décadas, uma cultura própria de leitura. “A Restinga tem uma tradição de formar leitores e de circulação de livros, revistas, materiais que chegam de diversas maneiras. Isso também passa pela criação de clubes de leitura nas escolas estaduais e municipais”, disse.

Segundo ele, esse processo também foi sustentado por iniciativas informais dentro da comunidade. Bittencourt Junior destacou o papel de bibliotecas privadas mantidas por moradores, que eram procuradas para estudo e orientação. “Foi se criando uma cultura de empréstimo, de orientação”, afirmou.

O jornalista e antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior é o patrono da edição de 2026
O jornalista e antropólogo Iosvaldyr Carvalho Bittencourt Junior é o patrono da edição de 2026 | Crédito: Marcelo Ferreira

Para o patrono, essa trajetória ajuda a explicar a demanda por uma feira no território. “É daí que vem essa vocação e essa demanda por uma feira do livro, para atender um público que hoje é grande. E a gente vê, com a participação de crianças, adolescentes e jovens, que essa vontade existe e tende a ampliar ainda mais o número de leitores”, disse.

Ao ampliar o conceito de literatura, ele incluiu manifestações culturais periféricas nesse campo. “O hip hop, como manifestação cultural, auxilia as pessoas a criarem, a serem criativas. Também contribui no contato com temas ligados à resistência, à afirmação e ao pertencimento”, afirmou, lembrando do reconhecimento artístico atravpes de iniciativas como o Museu da Cultura Hip Hip, em Porto Alegre.

Bittencourt Junior também vinculou o papel de patrono à continuidade e expansão do projeto. “A minha responsabilidade é assegurar que a Feira do Livro se mantenha e cresça, acolhendo novos autores, novos livreiros, novos lançamentos e fomentando debates”, disse.

O horizonte, segundo ele, é de transformação interna do próprio território. “A ideia é que, daqui a alguns anos, os próprios moradores da Restinga se transformem em escritores — e, quem sabe, estejam dando autógrafos na sua própria comunidade”, completou.

Estratégia de descentralização

A presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann, afirmou ao Brasil de Fato que a realização da feira integra uma estratégia de descentralização das políticas de leitura. “É muito importante a gente trazer a Feira do Livro de Porto Alegre para os bairros. Esse é um papel da Câmara, levar a literatura para o povo”, disse.

"A proposta é seguir ampliando ano a ano, realizar em outros bairros", afirma a presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann
“A proposta é seguir ampliando ano a ano, realizar em outros bairros”, afirma a presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann | Crédito: Marcelo Ferreira

Kohlmann destacou que a escolha da Restinga leva em conta o processo de aproximação com a comununidade e a organização do território que possui iniciativas ligadas à leitura. “A literatura já acontece aqui, já existem momentos voltados para isso”, afirmou.

A dirigente também ressaltou o impacto simbólico da feira. “A feira traz pertencimento para o bairro, com muitos autores locais presentes. Essa é a importância: trazer a Feira do Livro para a realidade da Restinga”, afirmou.

A proposta, segundo Kohlmann, é ampliar o modelo. “A proposta é seguir ampliando ano a ano, realizar em outros bairros. Neste ano, por exemplo, teremos uma edição na Zona Norte, no Jardim Leopoldina, na Praça México. E, conforme a gente for se estruturando, com apoio da comunidade e dos órgãos públicos, a ideia é levar cada vez mais a literatura e a cultura para outros bairros”, disse.

Consolidação com a segunda edição

Antes de repassar o posto de patrono do ano anterior, Jessé Oliveira, avaliou que a segunda edição representa um momento de consolidação. “É um momento de muita emoção, de despedida, numa Feira do Livro que agora se consolida na sua segunda edição”, afirmou.

Momento simbólico em que o patrono da edição de 2025 passou o posto para o deste ano
Momento simbólico em que o patrono da edição de 2025 passou o posto para o deste ano | Crédito: Marcelo Ferreira

Oliveira destacou o caráter descentralizado da iniciativa: “Quero parabenizar novamente a Câmara do Livro pela ousadia de construir essa iniciativa de uma feira descentralizada, e de começar pela Restinga”.

Para ele, o bairro possui relevância cultural e social que justifica esse protagonismo. “A Restinga é um território emblemático, que merecia esse reconhecimento”, disse.

Força cultural da Restinga

Na base da articulação local, o líder comunitário, educador e coprodutor da feira José Ventura destacou ao Brasil de Fato a força cultural do bairro. “A Restinga é um espaço cultural muito forte”, afirmou.

Ele relembrou práticas de leitura presentes no cotidiano de moradores de um bairro afastado do centro da cidade. “Antes da tecnologia, muita gente lia no ônibus, na ida e na volta. Isso diminuiu, mas a leitura continua presente”, disse

Feira reúne bancas de livros e atrações literárias
Feira reúne bancas de livros e atrações literárias | Crédito: Marcelo Ferreira

Segundo Ventura, a primeira edição demonstrou a existência de público e consolidou a proposta. “O ano passado foi um sucesso. Crianças e adolescentes compraram livros e aceitaram a feira”, afirmou.

O retorno positivo garantiu a continuidade do evento. “Teve participação das escolas e boa circulação de público”, disse. “Tanto que estamos na segunda edição”, completou.

A expectativa, segundo ele, é de participação entre 3,5 mil e 5 mil pessoas ao longo dos dias. Ventura também destacou que a feira integra um trabalho permanente de promoção cultural no território, envolvendo literatura e outras linguagens ao longo do ano.

Cultura como política pública

A coordenadora do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, Mariana Martinez, destacou o fortalecimento institucional da iniciativa. “Agora temos uma parceria mais consolidada com o Ministério da Cultura”, afirmou.

Para ela, o evento expressa uma mudança de perspectiva nas políticas culturais. “São territórios que muitas vezes são chamados de descentralizados, mas que são centros de cultura, direitos e cidadania”, disse.

A secretária municipal da Cultura, Liliana Cardoso Duarte, relacionou a feira a um processo mais amplo de valorização das periferias. Ao citar ser a primeira mulher negra a ocupar a Secretaria de Cultura de Porto Alegre, destacou o “processo evolutivo de mulheres” à frente do seu tempo. O que também pode ser visto na Restinga, “que propaga arte, cultura e gera renda”.

A secretária municipal da Cultura, Liliana Cardoso Duarte, afirmou que a Restinga expressa um modelo de produção cultural articulado com a comunidade. “A Restinga não recebe cultura. A Restinga produz cultura”, disse.

Ela também defendeu a cultura como política permanente, com capacidade de gerar renda e ampliar horizontes. “Que não seja apenas evento, mas como economia criativa, uma cultura que gere renda e que seja política pública permanente.”

“A Restinga não recebe cultura. A Restinga produz cultura”, afirma a secretária de Cultura, Liliana Cardoso Duarte
“A Restinga não recebe cultura. A Restinga produz cultura”, afirma a secretária de Cultura, Liliana Cardoso Duarte | Crédito: Marcelo Ferreira

Representando o Legislativo municipal, o vereador Aldacir Oliboni (PT) afirmou que tramita na Câmara um projeto para incluir a feira no calendário oficial da cidade. “Isso permitirá ampliar investimentos e estrutura para o evento”, disse.

Oliboni destacou a dimensão do território. “A Restinga tem hoje mais de 62 mil habitantes. Então não há por que não se integrar a esses movimentos e garantir a estrutura necessária”, defendeu.

Feira segue até domingo

A programação da 2ª Feira do Livro do Bairro Restinga se distribui ao longo dos quatro dias, com atividades no palco principal e na tenda de contadores de histórias. Entre os destaques estão rodas de conversa sobre ancestralidade, apresentações culturais, sessões de cinema itinerante, encontros com autores e atividades de mediação de leitura. Também integram a agenda espetáculos de teatro de bonecos e rodas de samba, voltados a diferentes públicos.

A programação completa pode ser acessada nas redes da Câmara Rio-grandense do Livro.

Editado por: Katia Marko

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