A luta pela autodeterminação do Saara Ocidental, considerada a última colônia do continente africano, foi o centro das atenções no Teatro dos Bancários, no Distrito Federal, nesta quinta-feira (9). O evento celebrou os 50 anos da fundação da República Árabe Saaraui Democrática (RASD) e marcou o lançamento do livro A Guerra do Povo do Deserto, do jornalista Hélio Doyle, reforçando o pedido para que o Estado brasileiro oficialize relações diplomáticas com a nação Saaraui.
Para Maria José Maninha, presidente da Associação de Solidariedade pela Autodeterminação do Povo Saaraui (Asaaraui), a data é um marco de resistência contra a repressão. “Hoje é um povo no deserto, um território ocupado pelo Marrocos. O Marrocos nessa zona ocupada prende, tortura. O Saaraui não se vende”, afirmou.
Ela também destaca que, apesar de 84 países já reconhecerem a RASD, o Brasil ainda hesita. “Um país que reconheceu o Timor-Leste e a Palestina, mas não reconhece a República Árabe Saaraui Democrática. Pressionamos o governo Lula para que esse reconhecimento seja feito.”

Geopolítica
A análise sobre os entraves internacionais para a independência Saaraui aponta para o papel das potências imperialistas. Sayid Marcos Tenório, vice-presidente da Asaaraui, traçou paralelos diretos entre a situação no Saara Ocidental e a ocupação da Palestina. “São dois territórios colonizados. O Saara Ocidental está ocupado colonialmente pelo Reino de Marrocos há 50 anos e há uma luta de libertação nacional representada pela Frente Polisário”, explicou.
Segundo ele, o referendo de autodeterminação prometido pela Organização das Nações Unidas (ONU) está bloqueado desde 1992 devido à pressão de países como França e Estados Unidos.
“A ONU decide nos seus fóruns, mas não implementa porque as potências impedem. Dezenas de resoluções sobre a desocupação da Palestina foram aprovadas e nunca implementadas pelo veto dos Estados Unidos. No caso do Marrocos, é a pressão feita pela França”, analisou o especialista.

Internacionalismo
O deputado distrital Fábio Felix (Psol-DF) ressaltou que a solidariedade ao povo Saaraui deve ser vista como um princípio inegociável do internacionalismo. “A esquerda hoje, me parece, muitas vezes abandona algumas bandeiras importantes da sua história. Muita gente não quer falar de temas que são tratados pela imprensa como espinhosos”, pontuou.
Ele defendeu que a resistência Saaraui é parte de um enfrentamento global ao “trampismo” e ao imperialismo. O parlamentar destacou a necessidade de uma “solidariedade ativa”, citando as caravanas que visitam os acampamentos de refugiados em Tindouf, na Argélia.
“É necessário se solidarizar e enxergar o mundo e a luta de forma conectada e global. Estamos aqui em nome do internacionalismo para saudar a resistência histórica desse povo”, completou.
Cultura e memória
O embaixador da RASD no Brasil, Ahmed Mulay Ali Hamadi, alertou para o que classificou como um cenário de “neocolonialismo fascista” que tem como objetivo o controle das riquezas naturais da região. “Estamos diante de um possível fracasso da comunidade internacional em proteger o processo de descolonização. É um contexto em que o direito internacional e o respeito aos povos não contam na esfera internacional”, denunciou.

A deputada federal Érika Kokay (PT-DF), coordenadora do grupo parlamentar de apoio ao povo Saaraui, emocionou o público ao conectar a bandeira Saaraui às lutas históricas do Brasil contra a opressão. “É muito bom estar aqui e ver esta bandeira que muitas vezes tentaram ornamentar as salas escuras de tortura ao lado da bandeira da RASD. Todos somos Saara Ocidental e todos participamos da luta deste povo para romper uma lógica colonialista”, declarou a deputada.
A noite no Teatro dos Bancários foi ambientada por elementos da cultura do deserto. No saguão, uma jaima, tenda típica Saaraui foi montada ao lado de uma exposição de fotos que retratavam o cotidiano, a guerra e a expressiva participação das mulheres na luta por liberdade.
O evento também contou com a primeira exibição no Brasil do documentário Hijos de Las Nubes, produzido pelo ator espanhol Javier Bardem, vencedor do prêmio Goya em 2013.
A abertura musical ficou a cargo do Grupo Accordi, que apresentou canções autorais e clássicos mundiais com “sotaque brasileiro”, simbolizando o entrelaçamento das bandeiras de luta.
Érika Kokay encerrou sua participação lembrando a canção de Mercedes Sosa: “‘Não permita Deus que eu me torne indiferente’ aos ataques à Venezuela, a Cuba e ao povo palestino. A luta do povo saaraui nos abre caminhos e nos ensina”.
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