VAI DAR CERTO?

Dia 42 da guerra é marcado por expectativa de negociações difíceis entre Irã e EUA no Paquistão

Além de divergências nas demandas dos dois países, ataques israelenses no Líbano podem sabotar negociações

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Mulher caminha ao lado de uma tela digital que exibe notícias sobre as negociações de paz entre os EUA e o Irã, em uma rua de Islamabad, em 10 de abril de 2026
Mulher caminha ao lado de uma tela digital que exibe notícias sobre as negociações de paz entre os EUA e o Irã, em uma rua de Islamabad | Crédito: Farooq Naeem/AFP

O Paquistão se prepara para receber as delegações do Irã e dos Estados Unidos nesta sexta-feira (10) para negociações que acontecerão no dia seguinte. No entanto, agora elas estão em risco devido aos ataques israelenses ao Líbano, que deixaram mais de 300 mortos na quarta-feira (8) e ameaçam o cessar-fogo. Em outra frente da guerra, um alto funcionário dos EUA disse que Israel e Líbano devem realizar conversas na próxima semana em Washington.

Os bombardeios israelenses, os mais mortais no Líbano desde o início da guerra no Oriente Médio no final de fevereiro, colocam em risco a participação do Irã nas reuniões agendadas no Paquistão, que tem atuado como mediador.

“O descumprimento dos compromissos” por Israel “torna as negociações inúteis”, disse o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, na quinta-feira (9), acrescentando que seu país “jamais abandonará seus irmãos e irmãs libaneses”.

“A realização de negociações para pôr fim à guerra depende do respeito dos Estados Unidos aos seus compromissos de cessar-fogo em todas as frentes, particularmente no Líbano”, insistiu Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã.

Desde o anúncio, na terça-feira (7), de um cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã, surgiram divergências sobre se ele se aplica ou não ao Líbano, onde Israel conduz uma ofensiva aérea e terrestre, alegando estar mirando no movimento pró-iraniano Hezbollah.

O Paquistão, como mediador, afirmou que a trégua se aplicava “em todos os lugares, inclusive no Líbano”, mas estadunidenses e israelenses negam. As hostilidades nessa frente continuam, apesar do anúncio de possíveis negociações entre Israel e Líbano na próxima semana em Washington.

Na noite passada, o Exército israelense anunciou que estava atacando “postos de lançamento” de mísseis do Hezbollah, enquanto o movimento reivindicou a responsabilidade por ataques com drones e foguetes contra Israel.

Principais obstáculos

As negociações no sábado contarão com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, chefiando a delegação de Washington, que tem ainda o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Donald Trump. O magnata presidente estaria “muito otimista”, segundo a rede de TV estadunidense NBC News.

Mas, nesta sexta-feira, a agência de notícias iraniana Tasnim, citando uma fonte anônima, afirmou que “enquanto os Estados Unidos não respeitarem seu compromisso com o cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques, as negociações estão suspensas”.

Equipes de resgate correm para o local de um ataque aéreo israelense que teve como alvo o Centro de Segurança do Estado Libanês, na cidade de Nabatieh, sul do Líbano, em 10 de abril de 2026 | Abbas Fakih/AFP

Mesmo que eventualmente se sentem à mesa de negociações, posições opostas em questões-chave dificultam um acordo. As principais delas são:

O Irã quer começar a cobrar uma taxa, provavelmente em moedas que não sejam o dólar estadunidense, para permitir a passagem pelo Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo e gás do mundo. União Europeia e países do Golfo Pérsico dizem que tal imposto seria inadmissível. Os EUA emitem mensagens contraditórias sobre esse ponto.

Além disso, o Irã insiste que o cessar-fogo inclua o Líbano, atacado por israelenses, alegando combater o grupo xiita Hezbollah, leal a Teerã. EUA e Israel discordam desse ponto.

Outra questão diz respeito ao programa nuclear iraniano. EUA e Israel insistem que Teerã não deve ser capaz de construir armas atômicas e exigem que o país entregue a quantidade de urânio enriquecido que possui. Se antes dos ataques iniciados em 28 de fevereiro o governo iraniano chegou a oferecer tal urânio, agora Teerã emite sinais de que essa oferta não está mais na mesa.

O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou, em sua mais recente mensagem, que a República Islâmica não deseja guerra com os Estados Unidos e Israel, mas que protegerá seus direitos como nação, informou a televisão estatal. Khamenei não é visto em público desde o assassinato de seu pai, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro.

Últimas da guerra

A Arábia Saudita afirmou que ataques recentes do Irã mataram uma pessoa e interromperam a produção de petróleo. Um funcionário do Ministério da Energia disse à mídia local que os ataques tiveram como alvo instalações de petróleo e gás, plantas petroquímicas e infraestrutura de energia, afetando a produção e as operações em Riad, na Província Oriental, e em Yanbu.

Estão em curso esforços em todo o Golfo para conter as consequências da guerra. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, visitou o Catar, o Bahrein e a Arábia Saudita e se reuniu com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan. O premiê trabalhista enfatizou a necessidade de reabrir totalmente o Estreito de Ormuz e manifestou apoio aos parceiros regionais.

Segundo relatos, Trump está pressionando Israel a reduzir suas operações no Líbano, dizendo ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para “manter um perfil discreto”. O líder israelense enfrenta críticas crescentes de comunidades no norte de Israel, onde líderes locais dizem se sentir abandonados.

Os oponentes argumentam que ele lançou a ofensiva no Líbano sem um objetivo final claro. As preocupações com a segurança permanecem altas, com sirenes de ataque aéreo soando em Haifa e cidades próximas após o lançamento de um foguete do Líbano.

Nesta sexta, Israel emitiu outra ordem de evacuação para Beirute: militares israelenses alertaram os moradores dos subúrbios sobre bombardeios iminentes e pediram que evacuassem suas casas, já que os ataques aéreos continuam com drones voando baixo sobre a cidade. As forças israelenses estão avançando para cercar Bint Jbeil, uma cidade de 30.000 habitantes no sul do Líbano.

As preocupações humanitárias também aumentam: instalações médicas no Líbano estão tratando centenas de pacientes e abrigando milhares de deslocados, ao mesmo tempo em que Netanyahu disse que Israel continuará atacando o Hezbollah “onde quer que seja necessário”.

A pressão internacional cresce, com o aumento dos apelos internacionais por moderação. O chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu a Israel que revertesse as ameaças de evacuação que afetam hospitais em Beirute. Já o ministro das Relações Exteriores do Canadá pediu a Israel que “respeite a integridade territorial do Líbano”.

Pessoas seguram retratos do falecido líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e de seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, durante uma manifestação em memória de sua morte em Teerã | AFP

Nesta sexta, os iranianos realizam manifestações em todo o país para homenagear seu líder assassinado, Ali Khamenei. O país confirmou a morte do ex-ministro das Relações Exteriores e chefe do Conselho de Relações Exteriores do Irã, Kamal Kharrazi, devido a ferimentos por causa de ataque israelense dias atrás.

Editado por: Rafaella Coury

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