América Latina

Peru vota neste domingo com 35 candidatos à presidência e forte disputa internacional

Em um país que teve quatro presidentes em cinco anos, a eleição se torna um teste de sobrevivência Institucional

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Quatro presidentes em cinco anos: o último da lista foi José Jerí, que assumiu a presidência interina do Peru em outubro de 2025 e foi destituído em fevereiro deste ano | Crédito: AFP PHOTO/ANDINA/HANDOUT

Com 35 candidatos disputando a presidência, nenhum deles com mais de 15% das intenções de voto, um Congresso desacreditado e uma economia fortemente dependente da exportação de minerais, o Peru vai às urnas no próximo domingo (12) em um cenário que combina crise estrutural e tensão geopolítica.

Estão em disputa a presidência da República, a vice-presidência e um novo parlamento bicameral, composto por deputados e senadores. A mudança para o sistema bicameral, vale lembrar, havia sido rejeitada em referendo popular, mas acabou sendo reintroduzida pelo próprio Congresso.

Em um país que teve quatro presidentes em cinco anos, a eleição não é apenas mais um rito democrático. É, antes de tudo, um teste de sobrevivência institucional.

Os dados ajudam a entender a dimensão do problema. O Peru é um dos maiores produtores de cobre do mundo e ocupa posição estratégica na economia global, especialmente em um momento de transição energética. Ao mesmo tempo, convive com desigualdade persistente, precariedade nos serviços públicos e um profundo descrédito nas instituições.

A participação eleitoral segue alta por conta do voto obrigatório, mas o entusiasmo político é outro assunto. Enquanto isso, a China amplia investimentos na mineração e os Estados Unidos reforçam sua presença militar no país. O eleitor peruano vota, mas a disputa vai muito além das urnas.

Entre o “Trump peruano” e o fujimorismo: quem disputa o poder

Para o dirigente político Santos Saavedra, presidente do partido Unidad Popular e da aliança Venceremos, o cenário é marcado por um esgotamento profundo. Segundo ele, o país chega às eleições “em meio a uma confusão total, com instituições capturadas e uma política cada vez mais distante da população”.

No campo da direita, dois nomes se destacam. De um lado, Rafael López Aliaga, o “Porky”, frequentemente descrito como uma versão peruana de Donald Trump ou do presidente argentino Javier Milei, combina discurso ultraconservador com defesa radical do livre mercado.

Por outro lado, Keiko Fujimori segue como principal liderança do fujimorismo, herdeira de um projeto político autoritário, que marcou profundamente a história recente do país. Ambos possuem entre 10% e 13% dos votos, de acordo com as pesquisas.

Apesar das diferenças de estilo e retórica, as duas candidaturas operam dentro do mesmo campo político. Ambas defendem a continuidade do modelo neoliberal e uma agenda de segurança baseada no endurecimento do Estado.

Do lado das forças populares, o cenário também é fragmentado e a candidatura mais competitiva marcou 7% das intenções de voto nas últimas pesquisas.

Há candidaturas que dialogam com o legado de Pedro Castillo, cuja eleição em 2021 representou uma ruptura histórica ao levar um professor rural à presidência. Sua queda e prisão política continuam sendo um ponto de referência central para o campo popular.

No Congresso, o cenário deve repetir o padrão recente. Forte presença da direita, esquerda dividida e um equilíbrio instável que tende a gerar novos conflitos entre Executivo e Legislativo. A governabilidade, mais uma vez, entra como incógnita.

Economia, direitos e poder: o que propõem os candidatos

As propostas em disputa revelam projetos bastante distintos de país. No campo da direita, a prioridade é aprofundar o modelo atual. Isso inclui ampliação da abertura ao capital estrangeiro, incentivo à mineração, privatizações e redução do papel do Estado. Em áreas como saúde e educação, a tendência é reforçar a participação do setor privado.

Já as forças de esquerda defendem mudanças mais estruturais. Entre os principais pontos estão a convocação de uma Assembleia Constituinte, a industrialização da economia, a revisão de benefícios fiscais concedidos a grandes empresas e o fortalecimento dos serviços públicos. Também aparece com força a ideia de recuperar o controle nacional sobre recursos estratégicos.

No plano internacional, a direita mantém alinhamento com os Estados Unidos e com os governos conservadores da região. A esquerda, por sua vez, busca maior articulação latino-americana e uma posição mais autônoma no cenário global, ainda que limitada pelas condições econômicas do país.

Uma eleição com impacto continental

O processo eleitoral peruano acontece em um momento sensível para a América Latina. Com eleições previstas também na Colômbia e no Brasil ao longo do ano, o resultado no Peru pode influenciar o clima político regional.

Para os Estados Unidos, o país é estratégico tanto do ponto de vista militar, quanto político. A recente ampliação da presença de tropas estadunidenses reforça esse interesse. Já a China vê no Peru uma peça-chave para garantir acesso a recursos minerais essenciais para sua economia.

Nesse contexto, a eleição deixa de ser apenas uma disputa interna e passa a integrar um jogo mais amplo de poder. Como aponta Saavedra, o país se tornou um espaço onde interesses externos se cruzam, muitas vezes em desacordo com as necessidades da população.

Entre repressão e resistência

Nos últimos anos, o Peru também foi palco de intensas mobilizações populares. Após a destituição de Castillo, protestos tomaram as ruas em diferentes regiões do país, exigindo a liberdade de Castillo, o respeito ao voto e mudanças estruturais. A resposta do Estado foi marcada por violenta repressão, com mais de 100 mortos, além de milhares de feridos e perseguidos judicialmente.

Apesar disso, as mobilizações revelam uma sociedade ativa, que segue disputando os rumos do país. A política peruana não se limita às instituições. Ela também se constrói nas ruas, nos territórios e nas formas de organização popular.

O que está em jogo

As eleições de 19 de abril colocam o Peru diante de uma escolha difícil, mas recorrente. De um lado, projetos que prometem estabilidade, mas mantêm as bases do modelo que levou à crise. De outro, propostas que buscam transformação, enfrentando resistências dentro e fora das instituições.

Como sintetiza Saavedra, há uma questão central que permanece aberta. No Peru, não se trata apenas de quem vence a eleição, mas de quem consegue, de fato, governar depois. Talvez seja esse o verdadeiro desafio colocado ao eleitor peruano neste momento.

*Giovani del Prete é analista internacional, membro da Coordenação Nacional do Movimento Brasil Popular. É bacharel em relações internacionais e mestrando em Economia Política Mundial, ambos pela UFABC.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Rodrigo Gomes

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