“Filas imensas de pessoas esperando atendimento”. Esse é o atual retrato dos equipamentos de saúde pública de Belo Horizonte, em especial centros de saúde e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), de acordo com uma enfermeira que prefere não se identificar, por medo de represálias. Desde o dia 10 de abril, foi decretada situação de emergência pela prefeitura da capital mineira, em razão do surto de doenças respiratórias.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, apenas entre fevereiro e março deste ano, quase 50 mil pessoas buscaram atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) relatando sintomas como tosse, congestão nasal, febre, dor de garganta e coriza, característicos de enfermidades que atingem o sistema respiratório. Também de acordo com o Executivo municipal, desde 1º de janeiro de 2026, mais de 80 pessoas morreram por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).
O aumento de casos é típico do período de outono e inverno, já que, nesta época do ano, devido às temperaturas mais baixas, as pessoas têm a tendência a permanecerem por mais tempo em ambientes fechados, o que amplia as possibilidades de contaminação viral.
Baixos índices de vacinação
Ainda assim, os dados referentes ao primeiro semestre deste ano chamam a atenção, em especial quando comparados aos baixos índices de vacinação da população belo-horizontina contra a gripe e a covid-19. Até o dia 7 de abril, apenas 14% dos idosos e 4% das crianças do município já haviam recebido a aplicação de imunizantes contra o vírus Influenza, por exemplo.
“Diante desse cenário, estamos em uma campanha gigante pela vacinação contra a gripe. Existe uma baixa adesão, principalmente entre crianças. A vulnerabilidade maior está principalmente entre crianças, bebês e idosos”, destaca a psicóloga e presidenta do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG), Lourdes Machado.
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) também tem buscado intensificar a campanha pela imunização, em especial dos grupos de risco. No sábado (11), aconteceu, em parceria com o Conselho Municipal de Saúde (CMSBH), um “Dia D” da vacinação contra a gripe nos 153 centros de saúde da cidade.
Importância do decreto
Diante do caos que tomou a saúde pública da capital, trabalhadores e usuários do sistema já vinham há algumas semanas reivindicando que a PBH reconhecesse o estado de emergência. Dois dias antes da medida tomada pela prefeitura, o vereador Bruno Pedralva (PT), que também é médico do SUS, chegou a entrar em contato com o prefeito, Álvaro Damião (União Brasil).
“Foi uma reivindicação nossa [a decretação do estado de emergência], de quem está vivendo na ponta o caos que está instaurado nas nossas UPAs e em alguns centros de saúde. Decretar a situação de emergência é importante para BH poder mobilizar toda a sociedade para enfrentar essa situação grave e para garantir a ampliação dos médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais”, avalia o parlamentar.
Com o decreto, a prefeitura fica autorizada a reforçar a assistência do SUS, por meio da contratação de trabalhadores para atuar no sistema, mas também ampliando o acesso a recursos dos governos estadual e federal. A situação de emergência também permite ampliar o horário de funcionamento das unidades de saúde e ter mais agilidade na compra de medicamentos, insumos e equipamentos e fazer parcerias com as redes privada e filantrópica.
Crise agravada pelo subfinanciamento
Lourdes Machado também destaca a importância das medidas emergenciais, mas avalia que faltam ações estruturais por parte do poder público, já que os surtos de doenças respiratórias são conhecidos e acontecem pelo menos uma vez por ano.
“Diante da emergência, a rede SUS reage, mas não existe algo estrutural. A gente lida com vários entraves e o principal deles é o subfinanciamento das ações de saúde e isso impacta nesses momentos em que é preciso estruturar mais a rede”, avalia a presidenta do CES-MG.
Outra crise enfrentada na saúde pública de BH desde o ano passado é a financeira, com atrasos de repasses, comunicados de cortes e projeções deficitárias. Em 2025, a PBH projetou um déficit de R$ 400 milhões e, em março deste ano, começaram a surgir rumores de que o orçamento da pasta sofreria com uma redução de 4%, o que representaria cerca de R$ 329 milhões.
O que fazer diante do surto de doenças
Para enfrentar o atual cenário, além de cobrar o poder público para que atue no fortalecimento da rede, o vereador Bruno Pedralva destaca que os moradores também precisam fazer sua parte, adotando ações que ajudem a reduzir os riscos de contaminação viral.
“Nós, trabalhadores da linha de frente, estamos fazendo a nossa parte, mas cada um e cada uma também têm o que fazer. Primeiro, vacine-se. Segundo, se estiver gripado, utilize álcool em gel e máscaras. E terceiro, se estiver com algum sintoma respiratório, faça primeiro uma teleconsulta pelo SUS, que pode ser agendada no site da prefeitura. O ideal é procurar um posto de saúde apenas se houver sinais de alerta”, orienta o médico e parlamentar.
