ARTE E RESISTÊNCIA

Sofá na Rua celebra 13 anos como festival de ocupação urbana e cultura popular em Pelotas (RS)

Evento no domingo (19) reúne artistas locais e latino-americanos e celebra movimento cultural surgido na periferia

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São nomes confirmados na programação: A banda gaúcha Bataclã FC, a Cantora e Compositora Jessie Jazz, a banda de cumbia Kumbiayala e o Samba do Maurel
São nomes confirmados na programação: A banda gaúcha Bataclã FC, a Cantora e Compositora Jessie Jazz, a banda de cumbia Kumbiayala e o Samba do Maurel | Crédito: Sofia Mazza/ Sofá na Rua

Nascido como uma pequena ocupação cultural de rua no bairro Porto, em Pelotas, o Festival Sofá na Rua completa 13 anos neste domingo (19), consolidado como uma das principais iniciativas independentes de cultura popular da metade sul gaúcha. Com programação gratuita no centro da cidade, a edição comemorativa reúne artistas locais e nomes de destaque da cena latino-americana e regional, reforçando a proposta do coletivo de articular arte, ocupação urbana e debate político em espaço público.

Criado em 2012, o Sofá na Rua surgiu com a proposta de reivindicar o direito à cidade por meio da ocupação cultural das ruas e da valorização da música autoral. Segundo a produtora e curadora do festival, Renata Pinhatti, a iniciativa começou de forma despretensiosa, reunindo cerca de 200 pessoas por edição, até alcançar públicos de quase 5 mil antes da pandemia.

“O Sofá na Rua começa como um evento de rua que pretendia ocupar a rua para debater o direito à ocupação da cidade, mas principalmente colocar em evidência os artistas da cidade de Pelotas e da região”, afirma.

Ao longo da trajetória, o projeto deixou de ser apenas um evento periódico e passou a se constituir como movimento cultural organizado. Durante a pandemia, o coletivo buscou apoio do Núcleo de Economia Solidária da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), passou por processo de incubação e formalizou-se como associação sem fins lucrativos.

A reestruturação permitiu ao grupo acessar editais públicos e ampliar sua atuação. Hoje, o Sofá na Rua integra a Associação Brasileira de Festivais Independentes de Música (Abrafim), já realizou mais de 100 edições em Pelotas e recebeu mais de 350 artistas e bandas em seu palco.

Para Pinhatti, a profissionalização da iniciativa não alterou sua essência política e comunitária. “O Sofá na Rua é um movimento político, é um movimento artístico e inovador”, resume.

Palco para arte e reflexão social

Mais do que shows, o festival se consolidou como espaço de circulação de pautas sociais e de estímulo ao pensamento crítico. Segundo a organização, os eventos incorporam discussões sobre temas como feminicídio, mundo do trabalho e outras agendas urgentes por meio da condução artística e da mediação dos mestres de cerimônia.

“Os nossos mestres de cerimônia estão o tempo inteiro estimulando o público a pensar o mundo que a gente está vivendo e como a gente pode transformar esse mundo”, destaca Pinhatti.

Outro movimento recente do festival foi a ampliação territorial. Originado no bairro Porto — região periférica e ribeirinha de Pelotas —, o Sofá na Rua passou a circular por outras áreas da cidade para dialogar com novos públicos e ampliar o alcance da proposta.

“A gente entende que precisa dialogar com outros locais, outros públicos, até para furar a bolha”, explica a curadora.

Essa expansão também se deu em escala regional. Desde 2021, o coletivo articula a Rede Sofá na Rua Brasil Sul, com núcleos autônomos em cidades da fronteira gaúcha, como Jaguarão, Bagé, Chuí e Santa Vitória do Palmar. Para a organização, o modelo desenvolvido em Pelotas tornou-se uma “tecnologia social” replicável em outros territórios.

Latino-américa e força local

A edição de 13 anos reforça a vocação latino-americana que o festival vem incorporando à curadoria. Segundo Pinhatti, a programação busca ampliar o diálogo com a cultura do continente sem perder a conexão com a produção local.

Além das atrações musicais, o evento gratuito contará com a tradicional Feira Criativa do Sofá
Além das atrações musicais, o evento gratuito contará com a tradicional Feira Criativa do Sofá | Crédito: Sofia Mazza/ Sofá na Rua

Entre as atrações confirmadas está a banda porto-alegrense Bataclã FC, coletivo com quase três décadas de trajetória e reconhecido pelo protagonismo do sopapo — tambor negro gaúcho tratado pelo grupo como símbolo político da presença negra na formação econômica do Rio Grande do Sul.

Também integram a programação a banda Kumbiayala, formada por músicos de diferentes países latino-americanos e dedicada à difusão da cumbia continental; a cantora Jessie Jazz, artista negra e trans de Porto Alegre; e o pelotense Maurel Duarte, representante do samba e da música popular da região.

“Essa curadoria é a tentativa de abrir espaço e olhar para a América Latina sem perder a força local aqui de Pelotas”, afirma Pinhatti.

Resistência cultural no espaço público

Com gestão horizontal, o Sofá na Rua se apresenta como uma iniciativa de cultura independente voltada à democratização do acesso à arte e à valorização de expressões comunitárias. A organização do festival afirma que sua estrutura busca refletir, também na forma de gestão, os princípios políticos e sociais defendidos pelo movimento.

“Todas as equipes do Sofá na Rua são geridas por mulheres e corpos dissidentes. É um movimento político, artístico e inovador, sempre preocupado em dar protagonismo às culturas periféricas e comunitárias”, afirma Pinhatti.

A edição comemorativa ocorrerá em frente ao Museu do Doce, no centro de Pelotas, e contará também com parceria do Instituto Hélio d’Angola, espaço de referência cultural da região portuária da cidade, com mais de 30 anos de atuação em ações de resistência cultural e enfrentamento às vulnerabilidades sociais.

Serviço

Festival Sofá na Rua – 13 anos
Quando: Domingo, 19 de abril, das 15h às 20h
Onde: Rua Félix da Cunha, entre Barão de Butuí e Tiradentes, em frente ao Museu do Doce, em Pelotas (RS)
Entrada gratuita

Editado por: Katia Marko

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