Apesar da liderança paquistanesa nos esforços de mediação diplomática entre EUA e Irã, a Rússia parece estar cumprindo um papel importante nos bastidores. A visita do ministro das relações exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, nos dias 14 e 15 de abril a Pequim — a quem muitos atribuem o verdadeiro protagonismo das negociações em Islamabad — foi acompanhada de inúmeras chamadas telefônicas às suas contrapartes no Irã, Emirados Árabes Unidos (EAU), Turquia e Arábia Saudita. Não poderia ser diferente, dada a importância estratégica da parceria russo-iraniana, ambos membros do Brics e da Organização de Cooperação de Xangai (OCX).
O Brasil de Fato foi recebido pelo Diretor-geral do Conselho Russo de Relações Internacionais (Riac, na sigla em inglês) Ivan Timofeev, na sede da organização em Moscou, para conversar sobre a atual conjuntura da guerra, algumas perspectivas para o futuro da região e a posição russa diante do conflito que pode voltar a escalar nos próximos dias.
Para Timofeev, que é também diretor de programa do prestigioso Clube Valdai, “é evidente que o Irã enfrenta enormes prejuízos à sua indústria e à sua economia. Será muito difícil reconstruir essas capacidades deterioradas pelos Estados Unidos e por Israel. Mas, ao mesmo tempo, o Irã demonstrou um alto nível de resiliência.”
Ele concorda que, indiretamente, a Rússia obteve alguns ganhos a curto prazo com a guerra, pois ela desvia o foco — e eventuais recursos — da Ucrânia, ao mesmo tempo em que “os preços do petróleo são favoráveis à Rússia, e o país tem a oportunidade de apoiar seus aliados, como a Índia, a China e os países da Asean, que podem sofrer com déficits no mercado de petróleo”, mas ele alerta que em caso de uma guerra prolongada, uma eventual recessão econômica global poderia causar danos à economia russa.
Ainda sobre o conflito na Ucrânia, Timofeev acredita que o prolongamento da guerra depende da quantidade de recursos que a Ucrânia receba dos EUA e da UE, apesar de ainda acreditar que o presidente estadunidense Donald Trump está tentando encontrar uma saída. “Trump considera a Ucrânia mais um passivo do que um ativo em sua carteira de investimentos em política externa”, diz.
O diretor-geral do Riac também refletiu sobre alguns desafios para a modernização da Rússia contemporânea e ressaltou uma importante lição a ser aprendida com os parceiros chineses: “A China conseguiu criar sua própria escola de engenharia industrial, que é cada vez mais independente das patentes e tecnologias ocidentais (…) eles são bastante autônomos e podem tomar suas próprias decisões”
Confira abaixo a entrevista de Ivan Timofeev ao Brasil de Fato:
Brasil de Fato: O último artigo que você escreveu sobre o Irã foi publicado cerca de duas semanas após o início da guerra, em 10 de março. Achei que ele era um pouco pessimista em relação à situação do Irã e às suas chances na guerra. Agora já se passaram mais de 40 dias e, segundo muitos analistas, o Irã está levando vantagem; até mesmo o ex-chefe do MI6 afirmou isso há algumas semanas. Você concorda com essa avaliação de que agora o Irã está em vantagem, ou não? Qual é a sua avaliação geral da guerra?
Ivan Timofeev: Bem, em primeiro lugar, a guerra ainda não acabou. Está claro que essas negociações são apenas uma espécie de pequena pausa provisória nesta campanha militar contra o Irã, e é muito provável que vejamos outra rodada de bombardeios e ataques aéreos e com mísseis contra o Irã. Não tenho certeza se haverá uma operação terrestre, mas a pressão militar contra o Irã continuará. O problema para os EUA e para Israel é que os resultados políticos dessa pressão militar ainda são limitados. É claro que o Irã enfrenta enormes danos à sua indústria e à sua economia. Será muito difícil reconstruir essas capacidades deterioradas pelos EUA e por Israel. Mas, ao mesmo tempo, o Irã demonstrou um alto nível de resiliência, apesar da morte do Líder Supremo e de muitos outros altos funcionários. O país continua a operar, a reagir e a contra-atacar. Portanto, veremos, é claro, o nível dessa resiliência no futuro.
Os EUA têm capacidade suficiente para conduzir uma guerra de desgaste contra o Irã. Portanto, o Irã terá que lidar com essa ameaça numa perspectiva de longo prazo. A situação em torno do Estreito de Ormuz permanece em uma espécie de impasse. Os EUA acabaram de declarar o bloqueio naval desse estreito. Mas o benefício financeiro desse trânsito não é a principal motivação para o Irã. A principal motivação é política. Portanto, se o Irã continuar a impedir efetivamente esse trânsito pelo Estreito de Ormuz, a situação permanecerá bastante tensa e o Irã continuará a ter vantagem nesse jogo.
Portanto, fica claro que um dos atores mais prejudicados são, naturalmente, os monarquistas do Golfo. Refiro-me ao Catar, ao Bahrein e aos Emirados Árabes Unidos e, em certa medida, à Arábia Saudita. E, claro, ao Iraque. O Iraque não é uma monarquia, mas continua sendo um importante fornecedor de petróleo de Basra. Portanto, eles são reféns da situação. De certa forma, eles têm de aceitar a situação tal como ela é, com poucos instrumentos para influenciá-la a seu favor.
Você acha que a hegemonia dos EUA na região está ameaçada? Porque as bases foram destruídas, a segurança não foi garantida.
A campanha dos EUA é um problema para eles. Eles não fazem parte desse jogo. Têm de aceitar a situação tal como ela é. Portanto, ao mesmo tempo, eles são o alvo. E o Irã continua com os ataques, inclusive contra a infraestrutura petrolífera, que não está destruída de forma crítica, mas ainda assim sofre com possíveis ataques. A região continua arriscada, ao contrário da situação antes da guerra, quando era um porto seguro. Na verdade, Dubai é um importante centro logístico e financeiro. Outros emirados também são muito prósperos. A Arábia Saudita é um Estado rico. Outros também estão em boa situação financeira, incluindo o Catar — que é muito influente na mídia, etc. Mas agora eles estão sob enorme pressão devido a essa situação. E essa campanha contra o Irã não aumentou a segurança deles. Ela diminuiu a segurança deles.
Recentemente, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Aragchi, concedeu uma entrevista à Al Jazeera. Em determinado momento, ele diz: “A segurança da nossa região só pode ser garantida por nós mesmos, não por nenhuma potência estrangeira. Portanto, temos que trabalhar nisso a partir de agora.” Quando ouvi isso, entendi que ele estava dizendo diplomaticamente: “Pessoal, se vocês querem falar sobre segurança, falem conosco. Porque nós podemos garantir isso, não os EUA.” O que você acha dessa avaliação?
É verdade que a segurança da região deve ser garantida pelos atores regionais. Isso é algo muito razoável e legítimo. Ao mesmo tempo, os EUA não podem ser negligenciados. Os EUA são um ator importante. Possuem bases militares na região. Mantêm relações de aliança com vários países da região. Portanto, essa é a realidade que não pode ser ignorada.
Mas você acha que as bases serão reconstruídas?
Sim, e tenho quase certeza de que elas não estão comprometidas de forma crítica. Portanto, os EUA permanecerão na região. Isso está bastante claro. No entanto, é melhor para Washington manter relações com a região baseadas no respeito e na confiança. Por diversas razões. Respeito e confiança funcionam melhor do que a força. Especialmente no mundo islâmico. Em qualquer lugar do mundo, todos precisam de confiança e respeito e valorizam isso muito mais do que a força. Portanto, provavelmente, em uma estratégia de longo prazo, poderia ser sensato para os EUA envolverem melhor seus aliados em seus planos. Mas a situação atual é, naturalmente, algo que pode minar significativamente essa confiança e esse respeito.
Vamos falar um pouco sobre a Rússia agora. Devido à guerra contra o Irã, os EUA estão gastando uma quantidade enorme de recursos, dinheiro, pessoas, energia, tudo. E, ao mesmo tempo, os EUA têm menos recursos para a Ucrânia, que já não estava na lista de prioridades, mas, de qualquer forma, é outra guerra. Ao mesmo tempo, com os altos preços do petróleo e do gás, a Rússia está ganhando muito dinheiro. Há algumas estimativas, talvez quase um bilhão de dólares por dia. Então, você diria que a Rússia é uma das beneficiárias dessa guerra de forma indireta?
É claro que, tecnicamente falando, a Rússia tem alguns ganhos. O foco geral agora mudou para o Irã, embora, mesmo antes da guerra contra o Irã, a Ucrânia já tivesse quase desaparecido da agenda global; portanto, não é 2022 e nem 2023. A Ucrânia recebe muito menos cobertura da mídia global, e há uma espécie de cansaço em relação a essa questão. Ela não pode estar constantemente na agenda. E o Irã acelerou essa campanha, acelerou esse processo. A Ucrânia não é a prioridade na agenda de política externa dos EUA como costumava ser sob [o ex-presidente, Joe] Biden. Agora, o Oriente Médio ressurgiu como um tema importante na lista. É claro que os aliados no Golfo exigirão mais fornecimentos de equipamentos, e tenho certeza de que os EUA serão capazes de satisfazer essas demandas. No entanto, a Ucrânia pode sofrer com déficits por algum tempo. Não está claro quais são os números reais, mas isso é possível. Também é verdade que os preços do petróleo são favoráveis à Rússia, e a Rússia tem a chance de apoiar seus países amigos, como Índia, China e os países da Asean, que podem sofrer com déficits no mercado de petróleo. E a Rússia pode compensar esses volumes de uma forma ou de outra.
Especialmente agora que as sanções também foram suspensas, certo?
Bem, elas não foram suspensas; há isenções, não foram suspensas como mecanismos legais. Mas, no fim das contas, são ganhos táticos. Existem alguns desafios, é claro, desafios estratégicos ao mesmo tempo. Um dos desafios é que, se a situação se deteriorar por um longo período, isso pode afetar a economia global; o declínio da economia global pode diminuir a demanda por petróleo e commodities, o que pode afetar os preços. Portanto, estrategicamente, há desafios para a Rússia, que devem ser levados em conta com seriedade.
Falando sobre os desafios: a Rússia tem uma relação muito importante com o Irã, desde o âmbito militar (o Irã ajudou a Rússia no início da guerra com os drones) até o logístico (com a construção do Corredor Norte-Sul). Desde o Brics e a OCX até o programa nuclear para fins pacíficos (a Rússia é um parceiro-chave), e também a cooperação financeira (já que ambos os países estão sob sanções e excluídos do Swift). A Rússia está prestando algum tipo de ajuda ao Irã?
A Rússia manifestou seu apoio político absoluto ao Irã, chamando as coisas pelos seus próprios nomes, afirmando que se trata de uma agressão militar. A Rússia está totalmente comprometida com o tratado de 2025 com o Irã. A Rússia não apoia os inimigos do Irã, e a Rússia não deteriora a parceria existente com o Irã devido à guerra. Portanto, a Rússia cumpre integralmente o compromisso estabelecido no tratado. Esse tratado não implica relações de aliança [militar], portanto a Rússia não é obrigada a se envolver na ação militar para defender o Irã? Não conhecemos os números e a essência da cooperação militar entre Rússia e Irã. Isso é algo que, naturalmente, está envolto na névoa da guerra. Mas, em suma, a Rússia é um país que é um vizinho importante do Irã e um parceiro importante do Irã. Ao mesmo tempo, a Rússia mantém boas relações com as monarquias do Golfo, com a Arábia Saudita e com os Emirados Árabes Unidos. Esses países nunca aderiram às sanções ocidentais contra a Rússia. São bons amigos e, na verdade, também não são inimigos do Irã.
Portanto, eles sofrem com o conflito, mas não vão aderir a essa campanha. Nesse sentido, a guerra contra o Irã não é algo que leve a Rússia a prejudicar as relações com as monarquias. Essas relações estão totalmente salvaguardadas, permanecem em boa forma, e a Rússia está demonstrando um alto nível de diplomacia na manutenção dessas relações. Eu diria que, mesmo nas relações com Israel, temos relações bem estabelecidas. É claro que a Rússia critica o ataque contra o Irã, mas tenta manter as relações com Israel em um nível aceitável. Mesmo no caso dos EUA, as conversas e a interação entre a Rússia e os EUA sobre a Ucrânia continuam. Ainda não trouxeram nenhum sucesso, mas a Rússia não fecha a porta. Portanto, no geral, o Irã é um parceiro importante da Rússia.
Mas se o Irã perder, quanto você acha que a Rússia perderia?
Se o Irã perder, isso será um grande problema para a ideia de soberania em geral, para a ideia de confiança nas relações internacionais. Portanto, isso será um mau sinal para a diplomacia como instituição, globalmente falando, devido ao assassinato dos líderes nacionais, devido ao ataque durante as negociações. Isso é algo que não está gerando confiança. Por outro lado, as perdas para a Rússia não serão críticas, embora possam ser delicadas, já que o Irã é um grande vizinho. E no sul, o Irã é parte interessada no corredor Norte-Sul, e se houver uma mudança de poder no Irã, não temos certeza de qual seria o desfecho desse projeto.
O mesmo vale para o programa nuclear?
O mesmo vale para o programa nuclear, o mesmo vale para o comércio, que se acelerou nos últimos quatro anos. E então outra questão é: que tipo de poder surgirá no Irã? Seria algum tipo de sistema político estável? Não tenho certeza, porque alguns países podem ser estáveis sob o controle de um país estrangeiro, especialmente um país tão antigo quanto o Irã, que é uma civilização em si mesmo. Então, seria estável sob a gestão externa de alguém? Não tenho certeza.
Portanto, a Rússia está interessada em um Irã estável, um Irã estável e próspero, onde o poder político seja reconhecido e legitimado por seu povo. É claro que sabemos dos problemas internos no Irã, houve protestos, etc. Mas essa é uma questão soberana do Irã, então os iranianos devem resolvê-la por conta própria. Se alguém os ajudar, isso não será estável nem sustentável.
Até agora, os esforços de mediação têm sido liderados publicamente pelo Paquistão, mas muitas pessoas argumentam que, na verdade, é a China quem está nos bastidores, porque o Paquistão foi à China, eles se reuniram lá e, em seguida, apresentaram os cinco pontos, etc. Mas você acha que, se a situação atual não der certo, a Rússia poderia desempenhar um papel na mediação, já que mantém boas relações com todos os demais envolvidos?
Não tenho certeza. A mediação é uma enorme responsabilidade e, quando um mediador inicia sua missão, deve fazer uma avaliação sóbria das chances de sucesso dessa mediação. E se o sucesso estiver condenado, então simplesmente não é razoável conduzir tal mediação. Portanto, não tenho certeza se é razoável que a Rússia seja mediadora. Provavelmente, para o Paquistão, é um pouco mais confortável, por uma razão ou outra, mas não tenho certeza de que a Rússia tenha chance de ser uma mediadora bem-sucedida neste momento.
O senhor escreveu recentemente um artigo publicado no site do Clube Valdai e que, ao mesmo tempo, foi o primeiro artigo da nova coluna do Clube Valdai no Brasil do Fato. Era sobre a crise iraniana e as lições para a Rússia. O senhor disse que há sete lições. O senhor poderia resumir essas lições em suas reflexões?
Bem, há várias lições importantes. Uma lição é que a diplomacia por si só não garante, não impede a guerra. A guerra pode começar a qualquer momento, os líderes podem ser alvos, as sanções podem ser um precursor da guerra, e a diplomacia é necessária para não se encontrar em solidão diplomática. Quando a guerra começar, devem haver algumas garantias de segurança, para não ficar sozinho. E a lição principal é que o equilíbrio de poder continua sendo a espinha dorsal da política externa. Portanto, se você quer estar seguro, deve contrabalançar um ataque específico contra você ou uma ação hostil específica, porque quando seu oponente compreende que você pode contrabalançar, ele fica desmotivado a atacar. Essa lógica dos velhos tempos está ressurgindo nas relações internacionais. E, infelizmente, estamos voltando ao mundo do equilíbrio de poder.
Você acha que é hora de a maioria global começar a discutir ou rediscutir alianças militares como forma de contrabalançar a agressividade de alguns países?
Não tenho certeza se a maioria global está pronta para isso, neste momento, para estabelecer algumas alianças militares, porque a maioria global é muito diversificada e muito heterogênea. No entanto, países pequenos, países médios e até mesmo países maiores, que agora se encontram em uma espécie de solidão diplomática, terão que pensar sobre isso, sobre alianças e a sustentabilidade dessas alianças. Por outro lado, os aliados dos Estados Unidos também terão que reconsiderar, rever suas relações. Provavelmente continuarão sendo aliados, mas esta é uma lição para eles: que a aliança pode trazer não apenas segurança, mas também insegurança, quando a interdependência estratégica leva ao envolvimento, ao conflito, mesmo quando este não é buscado por esses participantes menores, como no caso dos países do Golfo atualmente.
Agora, passando um pouco para a situação da Ucrânia. Já se passou quase um ano desde a reunião de Anchorage. Havia uma grande esperança naquele momento. Todos esperavam uma solução. Mas recentemente o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse que o espírito de Anchorage está morto. Quais são suas expectativas em relação aos rumos da SMO nos próximos meses? Estamos mais próximos agora de uma resolução diplomática ou de um prolongamento desta guerra por algum tempo ainda?
Depende do volume de ajuda, tanto militar quanto financeira, direcionada à Ucrânia pelos EUA e pela União Europeia. Se essa ajuda permanecer estável, a Ucrânia terá recursos para continuar seus esforços militares. A Rússia também pode continuar seus esforços militares. Portanto, ambos os lados têm recursos para continuar lutando e poucos incentivos para fazer concessões. Assim, o resultado diplomático exige uma vitória militar decisiva. Se houver uma vitória militar decisiva, a diplomacia surgirá em algum momento. No momento atual, a situação não oferece tal oportunidade. Tenho quase certeza de que o Sr. Trump considera a Ucrânia mais um passivo do que um ativo em seu portfólio de investimentos de política externa. Portanto, trata-se de algo que exige recursos, mas não traz lucros. Provavelmente, ele continuará buscando maneiras de se livrar desse fardo. Não tenho certeza se ele terá sucesso. Mas, no fim das contas, o que vejo do lado russo é que não vamos comprometer nossas exigências nem nossos principais interesses. Não há incentivo para fazermos isso.
Uma coisa que me preocupa é ver o tipo de narrativa que vem sendo construída na Europa, especialmente no último ano, segundo a qual a Rússia seria agora uma ameaça de invasão à Europa. Por isso, a Europa precisaria se rearmar. Por exemplo, a Alemanha aprovou há alguns meses, no Bundestag, um orçamento de 900 bilhões de euros, dos quais cerca de 500 bilhões se destinam ao rearmamento. Você acha que, mesmo com a resolução da guerra na Ucrânia, como a “ameaça russa” é uma narrativa muito útil para alguns líderes na Europa, a UE ainda seja um grande problema para a Rússia devido a essas condições?
Estamos em relações hostis com a União Europeia. Essas relações hostis permanecerão hostis como estão. O aumento do orçamento militar será um fato. A Europa reconstruirá sua indústria militar. No entanto, a questão é sobre a solidariedade transatlântica com base na oposição à Rússia. Existem contradições enormes dentro da Otan. Tenho quase certeza de que a Otan permanecerá em vigor. Ela não desaparecerá. No entanto, o nível de integridade da coalizão ocidental, tal como era em 2022 e em 2023-24, não é o mesmo. E a Rússia não é a única razão. É a Groenlândia, é a China, de certa forma. Portanto, há divergências em várias questões. Mais uma vez, a Otan não desaparecerá. Mas não tenho certeza de que Washington vá correr riscos excessivos em prol da Europa nas relações com a Rússia. E não vejo nenhuma razão racional para a Europa iniciar uma guerra com a Rússia. É muito perigoso para a Europa, levando em conta as capacidades russas. E não há nenhuma razão semelhante para a Rússia atacar a Europa. Para quê? Temos o suficiente, certo?
Você também acabou de escrever um artigo muito interessante sobre o legado de Pedro, o Grande, e o desafio da modernização da Rússia na época. Pensando nos dias de hoje, digamos que a guerra termine em três meses e a Rússia não tenha mais que se preocupar com a guerra, tenha mais recursos, mais mão de obra etc.; poderia se concentrar em outros desafios, incluindo o desafio da reindustrialização do país. Quais você acha que seriam as principais tarefas da Rússia nos próximos anos?
A modernização continua sendo um desafio. Trata-se da implementação da inteligência artificial. Trata-se da implementação das tecnologias digitais na indústria, da modernização geral da sociedade. E, por outro lado, a prevenção dos efeitos negativos dessas novas realidades digitais. Quando o ambiente digital torna as pessoas inteligentes em alguns aspectos, mas muito estúpidas em outros. Quando os jovens estão perdendo a capacidade de ler textos longos, quando suas habilidades mentais são sobrecarregadas por essas tecnologias digitais, quando você não precisa usar o cérebro, ele fica menos capaz. Portanto, o desafio é usar efetivamente o novo ambiente digital e impedir a “estupidização” das pessoas.
E como você acha que a forte parceria com a China poderia ajudar a Rússia a se modernizar?
A China é um importante parceiro da Rússia. E uma das razões para isso é que a China conseguiu criar sua própria escola de engenharia industrial, que é cada vez mais independente das patentes, tecnologias ocidentais, etc. Assim, eles não precisam consultar o Departamento de Indústria e Segurança dos EUA e outras agências quando querem fornecer algo à Rússia. Essa é uma das principais razões pelas quais o comércio é tão extenso, porque eles são bastante soberanos e podem decidir por conta própria.
