ACESSO À TERRA

MST ocupa Incra na Paraíba e pressiona por avanços na reforma agrária

Mobilização integra a Jornada Nacional de Lutas realizada entre os dias 13 e 17 de abril em todo o Brasil

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Famílias reivindicam terra, crédito e moradia após anos de espera
Famílias reivindicam terra, crédito e moradia após anos de espera | Crédito: Foto: Carla Batista

Cerca de 500 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra iniciaram na última quarta-feira (15) uma ocupação da sede do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), em João Pessoa, como parte da Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária. Segundo o movimento, a ação ocorre diante da paralisação de políticas públicas voltadas ao acesso à terra e ao desenvolvimento dos assentamentos no estado.

Plenário lotado – Foto: Carla Batista

De acordo com informações do próprio MST da Paraíba, mais de três mil famílias permanecem acampadas no estado, enquanto apenas oito vistorias foram realizadas nos últimos três anos e 323 famílias foram assentadas no mesmo período. A mobilização busca pressionar o órgão federal a acelerar processos considerados essenciais para a reforma agrária.

Paulo Sérgio, da direção do movimento, afirmou que a ocupação reflete uma pauta acumulada e sem avanços.

“Essa jornada de luta, que começou no dia 13 e vai até o dia 17 de abril, está acontecendo em todo o estado. Em alguns locais houve ocupação do Incra, em outros estão sendo realizadas marchas e ocupações de terra. No caso aqui da Paraíba, nós ocupamos o Incra porque temos uma pauta que está parada. Hoje temos 30 acampamentos e cerca de 3 mil famílias acampadas, e até agora não há avanço nas vistorias para desapropriar e assentar essas famílias”, declarou.

Ocupação do órgão- Foto: Carla Batista

Famílias denunciam demora em crédito e moradia

Além do acesso à terra, os integrantes também reivindicam a liberação de créditos para assentamentos novos e antigos. Segundo o MST, as famílias assentadas aguardam há anos o acesso ao Crédito Instalação, política do Incra voltada à estruturação inicial dos lotes. Dentro dessa política, estão modalidades como o Crédito Fomento, destinadas ao apoio à produção e à geração de renda. De acordo com o movimento, a demora na liberação desses recursos compromete as condições básicas de permanência no campo, dificultando o início das atividades produtivas e a organização da vida nos assentamentos.

A agricultora e integrante do movimento por moradia, Josefa Maria da Conceição Pereira, Zefinha, relatou a situação vivida por famílias assentadas recentemente. “Eu tenho 13 anos de luta e, finalmente, em dezembro do ano passado, conseguimos o nosso CCU (Contrato de Concessão de Uso) e a inclusão como beneficiários do assentamento. Foi prometido que teríamos nossas casas construídas; assinamos documentos de moradia e de liberação de recursos, mas já estamos em abril e nada foi resolvido”, afirmou.

Alimentação coletiva – Foto: Carla Batista

Ela também destacou as dificuldades enfrentadas após a formalização do assentamento. “São 13 anos de acampamento, vivendo na lona. Conseguimos uma conquista importante, mas queremos agora a vitória completa. Segundo o Incra, estava tudo certo, mas até agora não tivemos acesso ao recurso. Nos deram um cartão sem saldo, e a gente precisa de dinheiro para sobreviver, não de um cartão vazio”, completou.

Incra afirma que discutirá demandas com movimento

Em resposta à mobilização, a assessoria de comunicação do Incra informou que haverá um dia de debates com os manifestantes para apresentação de ações em andamento e planejadas. Segundo nota enviada ao jornal Brasil de Fato PB pelo superintendente regional, Antônio Barbosa Filho, o órgão pretende dialogar sobre a obtenção de novas áreas, a liberação de créditos e a regularização agrária.

Jornada relembra Eldorado dos Carajás

A mobilização integra a Jornada Nacional de Lutas realizada entre os dias 13 e 17 de abril, período que marca os 30 anos do Massacre de Eldorado do Carajás. O episódio, ocorrido em 1996, é citado pelo movimento como símbolo da violência histórica no campo e da concentração fundiária no país.

Com o lema “Basta de violência contra os povos e a natureza”, o MST afirma que a jornada busca dialogar com a sociedade sobre a necessidade de políticas estruturantes para o campo, incluindo acesso à terra, produção de alimentos e combate à desigualdade.

Organização popular pelo direito à terra – Foto: Carla Batista

Na Paraíba, a luta pela terra é marcada por um histórico de resistência e avanços lentos na implementação da reforma agrária. Levantamentos acadêmicos indicam que, entre 1984 e 2013, foram criados 302 assentamentos no estado, abrangendo mais de 284 mil hectares e beneficiando cerca de 14 mil famílias, resultado de décadas de mobilização camponesa.

Atualmente, mais de 3 mil famílias seguem acampadas em cerca de 30 áreas no estado, muitas aguardando há anos pelo assentamento definitivo. Ao mesmo tempo, existem aproximadamente 75 assentamentos já constituídos, o que evidencia tanto a presença histórica da reforma agrária quanto a insuficiência das políticas para atender a demanda atual.

Dados do governo federal indicam que, em 2025, o Incra destinou cerca de R$ 8,4 milhões em créditos para 589 famílias em assentamentos e comunidades quilombolas na Paraíba, com foco na produção e na melhoria das condições de vida no campo. Em 2026, a criação de novos assentamentos no estado beneficiou um número reduzido de famílias.

Proprietários ainda controlam grande parte das áreas rurais

Segundo o MST, o Brasil mantém altos níveis de concentração fundiária, com cerca de 1% dos proprietários controlando grande parte das terras rurais. O movimento também afirma que aproximadamente 145 mil famílias vivem atualmente em acampamentos em todo o país, à espera de acesso à terra e de políticas de assentamento.

Povo do campo na luta – Foto: Carla Batista

No período recente, até fevereiro de 2026, pouco mais de 12 mil famílias teriam sido assentadas, número considerado insuficiente pelas organizações sociais. Movimentos sociais afirmam que o processo de desapropriação de terras consideradas improdutivas ocorre em ritmo lento, o que contribui para a permanência de conflitos no campo.

Dados sobre conflitos no campo podem ser conferidos nos “Caderno de Conflitos”, organizado pela Comissão Pastoral da Terra e divulgado anualmente . A publicação reúne, desde 1985, registros sistemáticos de disputas e violências no meio rural brasileiro, incluindo conflitos por terra, água e trabalho. Segundo a entidade, esses conflitos são entendidos como ações de resistência e enfrentamento que envolvem trabalhadores rurais, povos tradicionais e comunidades que lutam pelo acesso a direitos e meios de produção.


Editado por: Cida Alves

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