Na manhã deste sábado (18), a margem do rio São Francisco será palco da 1ª Corrida da Reforma Agrária, evento esportivo organizado pelo Movimento Sem Terra (MST) no Sertão pernambucano. Os corredores saem do assentamento Vitória em direção ao assentamento Safra, ambos em Santa Maria da Boa Vista, num trajeto quase integralmente ao longo da rodovia PE-574, que margeia o Velho Chico próximo à divisa com a Bahia. A largada é prevista para as 6h30 da manhã e, no ponto de chegada, um grande café da manhã aguarda os participantes. Interessados podem se inscrever gratuitamente através do Whatsapp, no número (74) 99902-2109.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor Ronaldo Rodrigues explica que já há mais de 200 inscritos e o movimento espera que esse número chegue aos 300 até a noite da sexta-feira (17) que antecede a corrida. “Temos corredores amadores e profissionais inscritos, tanto de Pernambuco como da Bahia, mas também temos três ônibus vindo de comunidades rurais da região. Essa gente não se inscreveu – e nem precisa. Todo mundo pode participar”, destaca Rodrigues, que integra a direção estadual do MST em Pernambuco e é referência na pauta dos esportes dentro dos assentamentos e acampamentos do movimento.
O professor destaca a inscrição de esportistas vinculados à Associação Petrolinense de Atletismo (APA). “É a nossa primeira experiência organizando um evento desse tipo, mas vai ser uma corrida boa. Teremos troféus e medalhas para premiar do 1º ao 3º lugar, tanto entre homens como entre mulheres. Estamos muito felizes com a participação das escolas: tivemos inscrições de adolescentes e crianças a partir dos oito anos, mostrando que a reforma agrária e a prática esportiva são para todas as idades”. A chamada para a corrida avisa que tem espaço para todos: “quem não puder correr, caminha”.


A corrida homenageia os 21 trabalhadores sem terra mortos pela Polícia Militar do Pará no que ficou conhecido como “massacre de Eldorado dos Carajás”, quando os policiais encurralaram uma marcha que pedia a desapropriação de terras para fins de reforma agrária e atiraram com munição letal contra aqueles agricultores, no dia 17 de abril de 1996.
A escolha da PE-574, apelidada de “estrada da Uva e do Vinho”, não é por acaso. A rodovia abriga mais de 15 assentamentos rurais, o que levou a estrada a ser rebatizada pelos agricultores como “estrada da Reforma Agrária”. O ponto de chegada, no assentamento Safra, valoriza a história da luta, já que esta foi a primeira conquista da reforma agrária na região, ocupada em 1995. “Santa Maria da Boa Vista é o 2º município de Pernambuco com maior número de assentamentos. E temos o assentamento Catalunha, que é o 2º maior do Nordeste, com mais de 15 mil hectares e mais de 800 famílias”, explica Ronaldo Rodrigues, que conquistou seu lote no assentamento Vitória.
O trabalhador rural e professor fala com orgulho do que a reforma agrária possibilitou àquelas famílias e a contribuição destas para o estado. “A gente produz manga, uva, banana, melancia, macaxeira e outras coisas. Na época da acerola, saem daqui seis caminhões cheios todos os dias”. Santa Maria da Boa Vista e os vizinhos Cabrobó e Orocó, somados, têm cerca de 3 mil famílias estabelecidas em quase 30 assentamentos, além de outras 500 famílias divididas em dois acampamentos.


Na corrida e no café da manhã também são aguardadas autoridades políticas. A deputada Rosa Amorim (PT), uma filha do MST, é uma das apoiadoras da corrida. Também são esperados a prefeita de Lagoa Grande, Catharina Garziera (MDB); seu vice, Olavo Marques (PSD); os vereadores Professor Gilmar Santos (PT), de Petrolina; e Professora Auzenir Santos (PP), de Santa Maria da Boa Vista; e outras figuras que reconhecem e simpatizam com a luta do MST. Há a possibilidade de participação da prefeita de Serra Talhada, Márcia Conrado (PT).
Filhos da Luta com crédito e leitura
Bem próximo, no assentamento Filhos da Luta, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) participa, às 11 horas, de uma cerimônia que celebra a efetivação de 116 famílias na Relação de Beneficiários (RB) da reforma agrária, reconhecimento oficial por parte do Incra de que aquelas famílias são assentadas, garantindo acesso a políticas públicas para famílias rurais.
O órgão também vai assinar Contratos de Concessão de Uso (CCUs), documentos de titulação expedidos pelo Incra, garantindo aos assentados o direito de permanecer e explorar aquele lote, além de abrir possibilidades de acesso a programas de crédito rural. No ato já haverá assinatura de contratos de créditos para apoio inicial à produção daquelas famílias, além do hasteamento da bandeira indicando aquele como um território livre do analfabetismo, conquista educacional fruto de parceria entre MST e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).

