PARTE 2

Missões guarani jesuíticas, 400 anos: nheçu, resistência à dominação espanhola

Gês pampeanos e guaranis viviam no contemporâneo Rio Grande do Sul no século 11

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Em 2026, o Rio Grande do Sul celebrará os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis | Crédito: Foto: Divulgação/Embratur

Brasil de Fato estará publicando este artigo em partes:

Parte 1 – INTRODUÇÃO e ANTECEDENTES

Parte 2 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NHEÇU – RESISTÊNCIA A DOMINAÇÃO ESPANHOLA

Parte 3 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NENGUIRU E ABIARÚ – DERROTANDO BANDEIRANTES ESCRAVISTAS

Parte 4 – PROTAGONISMO INDÍGENA, SEPÉ TIARAJU – TIERRA O MUERTE

Parte 5 – PROTAGONISMO INDÍGENA, ANDRESITO GUASÚRARI E A LIGA DE LOS PUEBLOS LIBRES, CONSIDERAÇÕES FINAIS e FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nheçu: resistência à dominação espanhola

No século 11 as terras da atual América eram habitadas por povos milenares. Gês pampeanos e guaranis viviam no contemporâneo Rio Grande do Sul. Na Europa os cristãos ibéricos intensificavam as guerras de reconquista da península, ocupada perto de 800 anos pelos muçulmanos.

Em meio as guerras contra os mouros e de disputas entre monarquias, é consolidado em 1143 o Reino de Portugal, cuja independência foi reconhecida em 1179 pela “Santa Igreja de Roma”. Três séculos a frente, em 1469, os Reinos de Aragão e Castella se uniram, mediante o casamento dos soberanos, Fernando e Isabel (“os reis católicos”), iniciando um processo de unificação com outros reinos, destacando-se os de Navarra e Leão, que culminou, em 1492, após a conquista de Granada, com a formação da Espanha.

No século 15 Portugal e Espanha, buscando novas rotas comerciais, lideraram a expansão marítima atlântica e disputaram territórios além-mar[1], implicando na assinatura de vários tratados entre as duas monarquias. A chegada da Espanha em outubro de 1492 às terras identificadas pelos europeus como América, motivou a assinatura em 1494 do Tratado de Tordesilhas, que estabeleceu um meridiano distante 370 léguas do Arquipélago de Cabo Verde em direção ao poente, determinando que “novas” terras a serem ocupadas a oeste pertenceriam a Espanha e a leste a Portugal.

No alvorecer do século 16 numerosos povos da atual América passaram a ser colonizados pelos reinos ibéricos. Baseados nas ideias de “raça”, da superioridade racial dos europeus e da modernidade eurocêntrica, os colonizadores promoveram brutal exploração econômica, dominação cultural e genocídio. Desta maneira, o mercantilismo garantiu um fluxo de riquezas da América para a Europa contribuindo para acumulação primitiva do capital e o surgimento do capitalismo.

Espada e cruz, armas de conquista. Fiadora e aliada do Reino da Espanha, coube a Igreja católica, através da Companhia de Jesus (Ordem dos jesuítas fundada em 1540 pelo basco Ignácio de Loyola) a “conquista espiritual” dos indígenas. Em 1607, na porção mais ao sul do Vice-Reinado do Peru (região platina) é criada a “Província Jesuítica do Paraguai” (“Paraquaria”), abrangendo terras dos atuais Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil, sendo deste o sul do Mato Grosso do Sul (Itatim), o oeste do Paraná (Guaíra) e de Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, denominado como “Tape” ou “Uruguay” (terras a margem esquerda do Rio Uruguai).

Os jesuítas, “soldados de cristo”[2], tinham como missão reduzir os povos originários a fé cristã. Assim, avançaram em território guarani, mantiveram contatos e catequizaram milhares de nativos, fundando povoados conhecidos como missões ou reduções, cumprindo múltiplas funções. Mantendo rotinas religiosas e laborais, as reduções segregavam e afastavam os indígenas do seu modo de vida, de sua cultura, objetivando convertê-los em cristãos e súditos da Coroa; forneciam contingentes militares ao exército espanhol; garantiam, por sua ampla distribuição, a ocupação e o povoamento do Vice-Reinado; constituíam barreiras de contenção aos avanços portugueses em direção sul e oeste; formavam mão de obra especializada; e mantinham atividades econômicas que resultaram em tributos ao Reino da Espanha.

Evidente que o contato entre diferentes culturas, marcado pela dominação do colonizador, gerou conflitos. Os Padres reprimiam os deslocamentos constantes no território; negavam os saberes tradicionais; forçavam o batismo católico; condenavam a poligamia, os cantos/danças festivas, a reverência aos antepassados e o culto as divindades guaranis; submetendo a castigos físicos os resistentes. Muitos guaranis reagiram e liderados por caciques e pajés resistiram a cristianização e defenderam seu modo de vida. Um destes foi Nheçu, cacique e pajé, líder político e religioso na região de Pirapó no Tape, onde o Cerro do Inhacurutum, as matas do Caaró e o salto do Pirapó no Rio Ijuí, se destacavam como referências do lugar.  

Na literatura, referindo-se a este cacique são encontradas diferentes grafias: Nheçu (adotada por mim), Ñezú, Nezu, Niezú, Neçu. Esta última utilizada pelo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya em sua obra “Conquista espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas Províncias do Paraguai, Paraná, Uruguai e Tape”, publicada em 1639. Montoya, assim se refere: “Chamava-se ele Neçu: o que quer dizer reverência”.

De fato, Nheçu era reverenciado, respeitado por seu povo e outros caciques. Contrariado com a dominação imposta pelo invasor e em defesa do território e do modo de vida guarani, comandou uma grande rebelião contra os jesuítas e a Coroa Espanhola, tendo como episódio marcante a execução de três “soldados de cristo”, os padres Roque Gonzáles, Afonso Rodriguez e João Del Castillo, o que resultou em perseguição e represálias a Nheçu e caciques aliados.

Na década de 1620, missionários liderados por Roque Gonzáles adentraram os domínios guaranis no Tape/Uruguay. Após várias investidas, na região de Pirapó, banhada pelo Rio Ijuí, fundaram as reduções de São Nicolau (1626), de Candelária (1627), de Assunção do Ijuí e de Todos os Santos de Caaró (1628). A relação com os pajés e caciques foram marcadas por conflitos. Padre Gonzáles se referia a Nheçu como “feiticeiro”, “ministro do demônio” e incitava caciques rivais a lutarem contra ele.

Afrontado, o cacique geral do Pirapó, comandando outros caciques, rebelou-se contra os jesuítas, provocando reclames de Montoya: “Quem se fingia de deus (Nheçu), mas era escravo do demônio, encheu-se de uma ira raivosa e tratou de dar morte não somente aos três padres, senão ainda a todos quantos havia no Uruguay”.

Em 15 de novembro de 1628, o cacique Caarupé e um grupo de indígenas rumaram a Caaró e, segundo Montoya, atacaram Roque Gonzáles com uma clava que “fez-lhe em pedaços a cabeça”. Percebendo o tumulto o padre Afonso Rodrigues se aproximou e também foi morto. Após ser informado destas mortes, Nheçu ordenou que guaranis se dirigissem a Assunção do Ijuí e lá mataram o padre João Del Castillo.

Como revelou Montoya, além do embate físico os guaranis revoltosos também agiram no plano simbólico, incendiando cruzes: “a cruz que a fé erguera por troféu, derribou-a a infidelidade e o paganismo, bem como a consumiu o fogo”; e realizando o “desbatismo”: “Neçu, de sua parte para mostrar-se sacerdote (…) fez trazer em sua presença as crianças, nas quais tratou de apagar com cerimônias bárbaras o caráter indelével que elas pelo batismo tinham impresso em sua alma”.

A Coroa espanhola e a Companhia de Jesus trataram de reprimir a rebelião comandada por Nheçu. Soldados espanhóis, juntamente com guaranis cristianizados (“fieis”), empreenderam por dois meses uma guerra contra os “índios infiéis”. Paulo Oliveira, em tese de doutorado, estima que foram mobilizados nos combates, em ambos os lados, cerca de dois mil indígenas, dos quais aproximadamente duzentos morreram. Para este pesquisador a rebelião foi “uma das mais impactantes reações contra a presença de missionários cristãos em territórios indígenas na América do Sul” (grifo meu).

Líderes da revolta foram presos, conduzidos à Candelária, interrogados, enforcados e flechados. Nheçu nunca foi encontrado. Para Montoya o castigo foi exemplar, mas “foi pouco para Neçu, que se viu obrigado a fugir aos bosques, sendo que hoje (1639) vive recolhido a certos povos gentios”.

Os jesuítas colonizadores mantiveram uma narrativa (que permanece) de martírios e milagres relacionados as mortes dos três padres, considerados pela Igreja Católica Romana mártires. Em 1934 foram beatificados e em 16 de maio de 1988 canonizados e declarados santos. Neste contexto, desde 1933, na Região do Pirapó, em romaria, devotos se dirigem ao lugar onde foi instalada a Redução de Todos os Santos de Caaró, que passou a ser conhecido como “Santuário de Caaró”, no Município de Caibaté. Próximo ao santuário (40 km em linha reta), no sítio da antiga Redução de Assunção do Ijuí, localiza-se o Município de Roque Gonzales, denominação que homenageia o “padre santo”.      

Já Nheçu foi praticamente esquecido. Os relatos e registros dos jesuítas (ou sob a influência destes) dedicados às reduções e aos “veneráveis padres”, restringem suas menções ao cacique pajé para identificá-lo como feiticeiro, ministro do demônio, assassino sanguinário. Tal situação espanta o historiador Paulo Oliveira, que afirmou (2011): “Ñezú é uma ruidosa ausência”, inclusive na literatura produzida por pesquisadores “que se ocupam das lutas indígenas na América contra a dominação espanhola”.

Mas, alguns contrariaram a lógica da história contada por um lado só. Nos meus guardados há um recorte do Jornal Correio do Povo de 5 de setembro de 2009, noticiando que em Roque Gonzales seria apresentado o “Manifesto Nheçuano”. Buscando informações na internet tomei conhecimento de que em setembro de 2009 ocorreu o “Manifesto Canto e Poesia Nheçuano”, um encontro de pesquisadores e artistas com foco na luta do povo guarani, no papel de Nheçu na resistência ao colonizador espanhol e na cultura missioneira e regional. O movimento deu origem à Associação Cultural Nheçuanos (ACN), que passou a realizar o encontro anualmente, sendo incluído no calendário oficial de eventos do município e contando com o apoio da Prefeitura Municipal de Roque Gonzales. Também em 2009 foi lançado o jornal “O Nheçuano”, com mais de 40 edições até 2020 e no “Facebook” é mantida a página “Nheçuanos – Resgate de uma história”. Em dezembro de 2025 foi eleita a nova diretoria para 2026.

Arte de abertura da página da ACN no “Facebook”.

Dentre os inspiradores e organizadores destas iniciativas estão os autores dos livros: “Esta terra teve dono” (2010), de Ruy Nedel; “Terra de Nheçu” (2013), de Nelson Hoffmann; e “Inhacurutum” (2016), de Sérgio Venturini.

Considero o Manifesto Nheçuano um movimento decolonial, que reconhece “Nheçu, líder indígena Guarani, defensor de seu povo, sua cultura e sua terra, pioneiro na resistência aos conquistadores, no século XVII, na atual região das Missões, RS” (grifo meu).

O Manifesto estimulou outros pesquisadores e ativistas do Rio Grande do Sul a se dedicarem ao tema, que ainda requer maior atenção e divulgação no Estado. Por sua importância e vanguardismo, merece ultrapassar o Rio Mampituba e, vencendo o colonialismo interno, tornar-se de conhecimento nacional.

Oportuno registrar que as matas de Caaró (no atual município de Caibaté/RS) é território reivindicado pelos guaranis há décadas, com solicitação ao Governo Federal desde 2007. Embora está e outras justas reivindicações não tenham sido atendidas até hoje, os guaranis seguem lutando por suas terras e em defesa do seu modo de vida. Em 2021 o cacique da Aldeia Yvy Poty (Barra do Ribeiro/RS), Santiago Franco, sintetizou esta luta: “Terra significa isto, o futuro da vida. Porque sem terra não tem cultura, não tem língua, não tem religião. A vida, a dança, o canto, o ritual. Acho que a terra tem que ser tratada como nossa família, como nossa mãe. A terra é uma coisa sagrada pra gente”.  


[1]A expansão de rotas comerciais marítimas ocorreu no período denominado pelos historiadores como “mercantilismo”, evento econômico que caracterizou a transição do feudalismo para o capitalismo.

[2] A Ordem dos Jesuítas foi criada no contexto da Contrarreforma, reação da Igreja Católica a Reforma Protestante (1517) iniciada por Martin Lutero. Os jesuítas se assumiram como “soldados de cristo” em “guerra religiosa” contra os protestantes (luteranos, calvinistas) e passaram a difundir as concepções católicas nas colônias ibéricas, cristianizando os pagãos e ,assim, aumentando o “rebanho de Cristo”.

* Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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