Neste mês de abril, quando marchamos e ocupamos latifúndios por todo o país, reafirmamos que a luta pela terra é, em sua essência, a defesa intransigente da vida e da saúde dos trabalhadores e trabalhadoras. Nas trincheiras do MST, o Abril Vermelho de 2026 carrega o peso e a força da memória dos 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás, quando 21 companheiros sem-terra foram assassinados pelo braço armado do Estado a serviço do latifúndio.
Sob o lema de que exigimos um basta de violência contra os povos e a natureza, nossa jornada demonstra que democratizar o acesso à terra no Brasil, um país onde cerca de 1% dos proprietários detêm o domínio sobre quase 50% das propriedades rurais, é uma urgência inadiável. Para nós, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ocupar terras é também criar saúde. Não existe saúde popular sem a efetivação da reforma agrária popular, pois é o território liberto das cercas e do veneno que permite o florescimento da agroecologia e da verdadeira emancipação dos nossos corpos.
O agronegócio, estruturado pela lógica destrutiva do capital, é uma máquina de produzir fome, adoecimento em massa por agrotóxicos e devastação ambiental, sendo responsável por mais de 97% do desmatamento da vegetação nativa do país. A saúde popular que construímos no movimento camponês contrapõe-se frontalmente a esse projeto de morte e à lógica dominante de que saúde é igual à medicalização.
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Não podemos aceitar que, em meio a tamanha desigualdade, existam mais de 145 mil famílias acampadas à espera do direito básico de plantar e viver com dignidade. A consolidação da saúde popular opera sob a premissa fundamental de que o território é o ápice da saúde coletiva. Garantir o acesso à terra para os camponeses, indígenas e quilombolas é garantir a cura para as feridas abertas pela violência do modelo agroexportador.
Compreendemos que o território não é apenas um espaço de produção de mercadorias, mas a fonte primordial de cura e cuidado coletivo. A indissociabilidade entre a terra e a cura reside no resgate dos nossos saberes ancestrais, na valorização cuidadosa dos bens comuns da natureza e no conhecimento profundo do poder das plantas medicinais. Quando o povo sem-terra planta árvores e produz alimentos saudáveis para combater a fome que assola as periferias urbanas, estamos promovendo uma estratégia de saúde alimentar popular que confronta diretamente a exploração capitalista.
Para enraizar essas práticas, investimos na formação permanente dos nossos Agentes Populares de Saúde do Campo através de escolas como o Instituto Educacional Josué de Castro, onde vinculamos o cuidado à autonomia política. Espaços como o Setor de Saúde Maria Aragão promovido no nosso Encontro Nacional do MST de 2026, materializam essa concepção ao oferecerem terapias baseadas em fitoterápicos, provando que o cuidado comunitário é um ato revolucionário.
Na Assembleia Legislativa, nosso mandato leva essas pautas para o campo da institucionalidade através das leis 10.737/25, que incluem no calendário oficial a Semana Estadual de Luta pela Reforma Agrária, e 11.061/25, que institui a campanha de conscientização sobre doenças relacionadas à intoxicação crônica por agrotóxicos.
Essas ações demonstram como terra e saúde são direitos absolutamente indissociáveis na edificação de um projeto de nação soberano e popular. Neste Abril Vermelho, seguiremos em marcha, ocupando o latifúndio improdutivo e construindo a reforma agrária popular, porque lutar pelo território é lutar pelo direito de existir e de semear um futuro de saúde, soberania e justiça para toda a classe trabalhadora.
*Marina do MST é deputada estadual pelo PT do Rio de Janeiro.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
***Artigo publicado originalmente na edição 384 do jornal Brasil de Fato RJ.
