ARTIGO

Enchentes mudaram a visão sobre mudanças climáticas nos Vales

Pesquisa indica que enchentes ampliaram percepção da crise climática, mas persistem dúvidas sobre suas causas

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Moradores das regiões afetadas pelas enchentes de 2023 e 2024 relatam maior preocupação com o clima, após vivenciarem eventos extremos
Moradores das regiões afetadas pelas enchentes de 2023 e 2024 relatam maior preocupação com o clima, após vivenciarem eventos extremos | Crédito: Ricardo Stuckert

Perguntados se “a sua opinião sobre as mudanças climáticas mudou com as enchentes de 2023 e 2024”, em torno de 70% responderam que “mudou um pouco” ou “totalmente”, enquanto 27% responderam que “não mudou porque eu já sabia que as mudanças climáticas eram graves”. Aqui, como em diferentes países, vivenciar eventos extremos muda a percepção sobre as mudanças climáticas. 

Este é um dos resultados importantes da pesquisa de opinião que realizamos no Vale do Rio Pardo e Vale do Taquari. Realizada de forma presencial em 11 municípios da região, a pesquisa de campo ocorreu entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026 e apresenta um retrato que não é fruto da emoção do momento de choque: é o retrato de um período de calmaria, uma calmaria que, na verdade, é só aparente.   

Para 90% das pessoas, as enchentes de 2023/24 têm ligação forte ou em parte com as mudanças climáticas, e isso está em acordo com os estudos científicos. Ponto a favor da compreensão do povo. 

É alta a preocupação tanto com as enchentes como com as mudanças climáticas. 80% acreditam que enchentes como as de 2024 voltarão a acontecer nos primeiros anos ou nas próximas décadas.

Entre as perdas e danos resultantes das enchentes, dois problemas são os mais notados: adoecimento mental e aumento da crise econômica. As doenças mentais, aliás, vêm sendo ressaltadas em diversos levantamentos e mostra-se um dos grandes desafios para os gestores da saúde.

Dos auxílios recebidos em 2024, os mais lembrados são o Auxílio Reconstrução de R$ 5.100,00 do governo federal e as doações da sociedade. A avaliação da atuação dos voluntários em prol dos atingidos é a mais destacada; igrejas e empresários têm boa avaliação; e o poder público tem notas apenas razoáveis.  

A preocupação com as mudanças climáticas é grande, mas há confusões que atrapalham a compreensão sobre o que é este fenômeno. A principal confusão, talvez, está relacionada às causas das mudanças climáticas. Há 15% de negacionistas, que pensam que as causas são naturais ou divinas, uma visão que conduz ao pessimismo e à inação, pois neste caso não há solução que esteja ao nosso alcance. A maioria (56%) entende que as causas são humanas e naturais, o que também é um equívoco e leva à procrastinação de medidas urgentes. 

No passado distante houve causas naturais envolvidas em alterações do clima, mas as atuais mudanças climáticas são provocadas pelos humanos. Desde a revolução industrial (pouco mais de 200 anos), há emissão de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fosseis, desmatamento, incêndios florestais, agropecuária química e processos industriais. Esses gases vêm se concentrando na atmosfera e são responsáveis pelo aquecimento global e pelo desequilíbrio climático. Entender as causas é indispensável para agir corretamente. 

Observamos que a maioria das pessoas mudou seu modo de pensar e agir desde as enchentes. Foram referidas pequenas ações pessoais: separar lixo, reduzir o consumo, menos uso de plástico, economia de água e energia, fazer doações. Trata-se de uma notícia ao mesmo tempo boa e má. A boa é que a maioria das pessoas está disposta a fazer a sua parte. A má é que as ações são individuais, não coletivas. Somente ações coletivas, guiadas por políticas públicas, podem trazer soluções por se tratar de um problema planetário.

Há outras boas notícias: é grande o apoio a certas políticas públicas arrojadas. Mais de 90% apoiam: incluir matérias de educação ambiental e climática nas escolas; investir em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias; e replantar as matas ciliares (próximas de rios). Mais de 80% apoiam: exigir o plantio de árvores em todas as calçadas e cobrar multas elevadas de empresas que poluem. Mais de 70% apoiam: aumentar o transporte público para reduzir o uso de combustíveis e pagar por serviços ambientais aos proprietários que protegem a natureza. 

A pesquisa continua. Os resultados já alcançados poderão subsidiar ações educacionais e políticas públicas. Não há tempo a perder. Com um novo El Niño se aproximando é premente agir coletivamente e estruturar políticas de adaptação e mitigação duradouras. 

* João Pedro Schmidt, cientista político, Marco André Cadoná, sociólogo, são professores da Universidade de Santa Cruz (Unisc).

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Katia Marko

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