“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”, relembra a moradora Elis Regina Duarte Gomes sobre o início da ocupação que deu origem ao Assentamento 20 de Novembro, no centro de Porto Alegre. Duas décadas depois, o espaço se transforma no sonho da moradia digna de 40 famílias organizadas na Cooperativa de Trabalho e Habitação 20 de Novembro, que reúne integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e da Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam). A inauguração acontecerá em novembro deste ano, no dia que dá nome a ocupação.
Coordenadora do MNLM, Ceniriani Vargas da Silva, conhecida como Ni, destaca o ritmo acelerado da construção. “A obra iniciou no final de fevereiro de 2025, então é pouco mais de um ano. Está indo bastante acelerada, inclusive a própria Caixa elogia o processo de organização, a execução e a qualidade de tudo que está sendo feito”, afirma.
Segundo ela, diversas etapas já foram superadas, desde a organização do canteiro até intervenções estruturais. “Teve toda a demolição de paredes, construção de outras, instalações elétricas, sanitárias, de gás, ar-condicionado, tubulação da cisterna. E hoje a gente está nos acabamentos.”

Os apartamentos estão praticamente concluídos. “Faltam só as louças de banheiro. Eles já estão pintados, rebocados, com portas, janelas, gesso, tudo prontinho”, explica. Neste momento, o foco se divide entre os detalhes finais das unidades e a área externa.
O projeto inclui ainda infraestrutura de sustentabilidade e espaços coletivos. “As placas solares já estão instaladas, a pintura da fachada está sendo terminada, e agora começam os acabamentos dos espaços de uso coletivo”, diz.
Entre esses espaços está um antigo projeto de capela, que será transformado em espaço cultural e de geração de renda. “Vai ter comercialização de alimentos, lanche, almoço, e também realização de eventos.”
A área externa também foi pensada como espaço público. “Nosso pátio tem o projeto de ser aberto à comunidade, para eventos culturais, feiras, atividades. Esse projeto não é só para as 40 famílias, ele é um projeto para o território”, ressalta.

Além disso, o conjunto contará com auditório, biblioteca, bicicletário, ciranda para crianças e espaços administrativos. O trabalho técnico-social com as famílias ocorre paralelamente à obra. “A gente tem formação durante a execução. Por exemplo, já teve atividade de educação ambiental com bióloga e também qualificação com o Instituto Federal.”
De obra abandonada à moradia popular
O prédio, que hoje abriga o projeto, nunca chegou a funcionar como hospital, embora tenha sido projetado para isso. “A obra foi abandonada há mais de 50 anos”, explica.
A destinação do imóvel foi resultado de uma longa luta articulada com políticas públicas federais. “Esse projeto existe porque existe política pública. É importante afirmar isso.”
Segundo Ni, a negociação do espaço começou ainda em 2007 e avançou durante os governos petistas. “A gente conseguiu a concessão do direito real de uso em 2016, às vésperas do golpe contra a presidenta Dilma. A gente assinou o contrato um mês antes do impeachment.”

Naquele momento, o projeto também avançava junto à Caixa Econômica Federal. “A gente assinou o contrato da primeira fase. Para nós, tudo é mais difícil. A licença demorou 2 anos.”
A continuidade, no entanto, foi interrompida após a mudança de governo federal. “No final de 2018, a gente estava com tudo licenciado, pronto para começar. Era só assinar a mudança de fase. Virou o ano, Bolsonaro ganhou a eleição, acabou o Minha Casa Minha Vida.”
Com isso, o projeto ficou paralisado por anos. “A gente ficou com a obra pronta para começar e sem programa. Depois veio pandemia, depois enchente. Aqui ficamos 30 dias sem luz, sem água, com a água no portão.”
A retomada só ocorreu com a recriação da política habitacional. “A gente só está conseguindo executar esse projeto porque reelegeu o Lula. Voltou o Minha Casa Minha Vida, voltou o investimento em habitação.”
Para a coordenadora, essa trajetória evidencia o impacto direto das decisões políticas. “A gente, enquanto comunidade, sentiu na pele todas as mudanças do governo federal.”
Reforma complexa e gestão coletiva
Ni destaca que a reforma de um prédio antigo é mais complexa do que construir novas unidades. “É muito mais difícil. Você tem que medir cada parede, e os centímetros não batem com o projeto. A todo momento surge algo para resolver.”
Ela atribui a qualidade da obra ao modelo de autogestão. “É a própria cooperativa que faz, com uma equipe técnica qualificada. A gente tem arquitetas que acompanham desde o sonho das famílias, engenheiros com muita experiência, e um processo de organização muito forte.”
Semanalmente, são realizadas reuniões com equipes técnicas e comissões das famílias. “A gente revisa cronograma, programa a semana e resolve os problemas que vão surgindo.”
O projeto também conta com recursos do governo estadual. “Conseguimos um aporte de R$ 20 mil por unidade habitacional. Aqui serão R$ 800 mil.”

Memória preservada na construção
Parte dos materiais retirados do prédio foi reaproveitada na própria obra, como forma de preservar a história do espaço. “Eles foram guardados e reaproveitados. A capelinha, que vai ser o espaço cultural, foi praticamente toda reconstruída com tijolos do próprio prédio”, explica Ni.
A proposta foi manter elementos originais. “Onde era tijolinho maciço, a gente manteve. E vamos deixar um espaço sem telhado, com os tijolos, como memória da luta.”
A estética do projeto também incorpora marcas da ocupação. “As famílias fecharam janelas grandes e colocaram outras. A gente manteve isso como estética do improviso que o povo faz para sobreviver.”
Antes das obras, o prédio passou por mutirões intensos de limpeza. “Tinha entulho, árvores. A gente tirava tudo de balde, jogava pelo buraco do elevador e puxava lá embaixo”, relata Ni. Foram retiradas cerca de 15 caçambas de entulho.
Entre as memórias, Ni destaca a trajetória de dona Zelma, uma das primeiras moradoras. “Uma senhora de mais de 70 anos, com facão na mão, ajudando a derrubar árvore no terraço.” Costureira, ela também ajudava na retirada de entulho. “Costurava sacos para levar o material escondido.”
A última lembrança é da véspera da eleição de 2022. “Ela dizia: ‘agora a gente vai eleger o Lula e vai sair a nossa obra’. Ela faleceu pouco depois.” A comunidade pretende homenageá-la. “Não tem como não guardar essa memória.”
“É o projeto da minha vida”
Com duas décadas de envolvimento na luta por moradia, Ni destaca o significado pessoal da conquista. “Entrei com 19 anos, agora estou com 39. Minha filha está com 17. A gente já passou por despejo, remoção, morou em prédio abandonado, banheiro, porão.”
Ela relembra as condições precárias enfrentadas. “A gente morava dentro de uma carcaça de prédio, tudo improvisado: luz, água, esgoto.”

Hoje, a expectativa é de estabilidade. “É finalmente ter o canto da gente. E não é qualquer casa. É um lugar para trabalhar, brincar, estudar.”
Para ela, o projeto vai além da moradia. “Tem sustentabilidade, geração de renda, formação. E traz uma coisa que às vezes a gente nem percebe: esperança.”
“Mostra que, quando a gente se organiza e persiste, é possível fazer coisas muito bonitas. E prova a capacidade do movimento popular de fazer, com outra qualidade, porque é o povo fazendo para o próprio povo.”
A inauguração está prevista para novembro, mas a mudança das famílias será gradual. “É um processo. A inauguração é um ato político, de visibilidade. Depois tem toda a organização das mudanças, porque cada família é um caso: ligação de luz, água, organização da mudança.”
Segundo Ni, esse acompanhamento também faz parte do trabalho técnico-social. “Ele acontece durante e depois da obra, para essa transição das famílias para o novo local.”
“Ninguém merece passar o que nós passamos”
Moradora do projeto habitacional há 17 anos, Elis Regina Duarte Gomes, de 59 anos, acompanha desde o início a construção coletiva que agora se aproxima da conclusão. “Estou aqui no prédio já há 17 anos, nessa construção coletiva. Esse ano faço 60 anos, com muita felicidade”, afirma.
Militante oriunda do movimento comunitário e também do movimento negro, Elis participou do processo desde o início, representando a Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam). “Participei desde o sonho, desde quando a gente sentou com a arquitetura humana e pensou o que queria para a nossa vida.”
Segundo ela, o projeto nasceu de um sonho coletivo que precisou ser ajustado à realidade. “A gente sonhou muito. Esse sonho ocupou toda a Barros Cassal. Depois tivemos que diminuir para caber nesse espaço, mas foi gratificante.”
Hoje, ao ver a obra avançada, ela destaca o sentido coletivo da construção. “Esse prédio representa essa unidade no sonho e na luta. É a unidade em torno de um objetivo: ter moradia digna no centro da cidade.”
Para Elis, o projeto também afirma direitos historicamente negados à população trabalhadora. “A gente merece ter elevador, merece ter cisterna para aproveitar a água, merece ter placa solar. O povo merece.”
Resistência cotidiana
Ao relembrar o período em que as famílias viviam no prédio ainda sem estrutura, Elis recorre a uma imagem conhecida para descrever a realidade enfrentada. “Eu lembro muito daquela musiquinha infantil: era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.”
A comparação traduz as condições precárias do espaço. “Não tinha janela, não tinha porta, era muita sujeira, muito entulho.”
Segundo ela, a sobrevivência no local exigia improviso constante. “A gente limpava uma peça, tapava buraco de janela, amarrava uma porta de qualquer jeito. Era o lugar que a gente morava porque precisava.”
A desigualdade entre os moradores também impactava o cotidiano. “Um companheiro tinha dinheiro para pagar luz, outro não tinha, e aí ficava todo mundo sem. Um pagava água, outro não conseguia pagar. E não tinha mesmo. A gente precisa resistir, precisa viver dentro desse espaço que não é um espaço preparado para nós, mas que é uma realidade que precisa ser mudada.”
“Ninguém merece passar o que nós passamos por 17 anos”, resume.
Elis também relembra o impacto das mudanças políticas no andamento do projeto. “Quando a gente acaba a primeira fase, vem o golpe da Dilma e tranca o Minha Casa Minha Vida. Depois entra Bolsonaro e derruba. Nós ficamos sem pai e sem mãe.”
Diante disso, a comunidade decidiu resistir. “A gente reuniu e decidiu que ia viver um dia depois do outro, que ia sobreviver até conseguir trazer um presidente que realmente nos representasse.”
Para ela, a retomada das políticas públicas foi determinante. “Isso aqui é política pública. O Minha Casa Minha Vida toca na veia do problema do Brasil.”
Militante do movimento negro, Elis relaciona a luta por moradia à história da população negra no país. “A luta pela moradia é uma luta negra. Quando dizem que os negros estão livres, mas não dizem para onde ir, começa o problema habitacional.”
Ela critica explicações baseadas em estigmas. “Não é porque a pessoa não trabalha ou não quer. É porque não existe política pública.”
Mudanças na vida e no projeto
Quando chegou ao local, Elis era mãe solo de dois filhos. “Eu tinha uma filha de nove anos e um filho de 15. Hoje eles já têm seus filhos.”
Com o passar dos anos, o perfil da família mudou, e o projeto também se adaptou. “Hoje minha filha vai morar aqui com os filhos dela, e eu vou morar sozinha. O que também é libertador.”
A localização e a estrutura do conjunto habitacional são vistas como diferenciais importantes. “Se eu quiser viajar, tem rodoviária perto. Se eu ficar doente, ali está a Santa Casa.”
A acessibilidade também foi incorporada ao projeto. “Pensamos nos banheiros com apoio para banho, porque hoje não somos mais tão jovens. As quedas na terceira idade são violentas. Temos elevador, tudo precisa ser acessível.”
Memória, perdas e responsabilidade
Ao longo do processo, nem todos conseguiram ver a obra concluída. “Tivemos pessoas que faleceram. Morreram esperando.” Para Elis, isso aumenta a responsabilidade do projeto. “A responsabilidade é gigantesca, porque somos um movimento organizado que depende de política pública.”
Ela também responde a questionamentos comuns sobre o tempo de espera por moradia. “Muita gente pergunta por que não pagar aluguel. Mas isso é consequência de política de Estado.”
Segundo Elis, a desigualdade habitacional está ligada à história do país. “Nunca foi mérito. Ou você nasce herdeiro, ou descende de quem foi jogado sem nada, ou é vítima de uma política de Estado. Não tem como desconsiderar a história nesse debate”, conclui.
