BATALHA POR ESPAÇO

A juventude sempre esteve na rua

O Brasil de Fato RS foi às ruas para conversar com a juventude e registrar a vida noturna na Capital gaúcha

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Existe algo de corajoso nessa juventude que vai às ruas, esperando pelo agir dos acasos e pelas histórias que eles podem proporcionar
Existe algo de corajoso nessa juventude que vai às ruas, esperando pelo agir dos acasos e pelas histórias que eles podem proporcionar | Crédito: Clarissa Londero

É inegável. Faz parte de um traço profundo da nossa humanidade.
Ver o céu.
Sentir o ar. 
Encontrar seus pares.

Porto Alegre vive um momento peculiar na sua história. A cidade do Fórum Social Mundial assiste uma batalha crescente.

De um lado, uma juventude boêmia que é efervescente, expansiva, cheia de atitude, que mergulha profundamente na experiência da socialização.

De outro, moradores da Cidade Baixa, que requerem seu espaço de moradia com a qualidade de vida que lhes cabe. Querem silêncio, limpeza urbana e sensação de segurança.

O Brasil de Fato RS foi às ruas para relembrar um pouco da história da vida noturna na Capital e um fato fica evidente: a juventude sempre esteve nas ruas.

O pátio do icônico Escaler, no bairro Bomfim, abrigava a intensidade juvenil nos anos 1980 e 1990. O lugar onde hoje é o Café do Brique já foi palco de incontáveis shows e histórias que marcaram a cena cultural da nossa cidade. Ainda nas imediações do Bom Fim, bares como o Garagem Hermética e o Bambu’s reuniam ordas de jovens, sedentos de cerveja barata e boa música.

Espaço onde ficava o Bar Escaler, no Parque da Redenção, no bairro Bom Fim | Crédito: Clarissa Londero

Ainda hoje os antigos frequentadores relembram suas madrugadas, tornando esses, pontos fortes de conexões de uma geração inteira. Existe algo de corajoso nessa juventude que vai às ruas, esperando pelo agir dos acasos e pelas histórias que eles podem proporcionar. Uma forma peculiar de abrir-se para a vida.

Localização do antigo Garagem Hermética, na rua Barros Cassal | Crédito: Clarissa Londero
Avenida Independência, onde ficava o Bambu’s | Crédito: Clarissa Londero

Desses encontros surgem elementos culturais riquíssimos: batalhas de slam, músicas locais, novas formações musicais, trocas de olhares, de referências, de perspectivas. O que seria do famoso refrão de Amigo Punk, que ecoa na nossa memória bairrista, se não fosse a Osvaldo Aranha?

Nem tão distante assim, o Cine Guion e o Olaria, na Cidade Baixa, também tiveram na sua história a distinção de ser ponto de encontro de uma juventude disposta a beber vinho pelas calçadas, cruzando-se ao acaso, guiados pela noite. O antigo Ossip era ponto estratégico para quem gostava de ficar nas calçadas, e se aventurar a encontrar as mais diversas celebridades da cena local.

Cine Guion e o Olaria, na Cidade Baixa, também tiveram na sua história a distinção de ser ponto de encontro | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

A vida noturna também é volátil e ao longo do tempo, a juventude migrou, pois seus ambientes foram deixando de existir.

Hoje, a Cidade Baixa é um caldeirão de estilos: jovens e adultos de ‘todas as tribos’ buscam seu espaço, se reúnem em torno dos seus pares e interagem de maneira espontânea. Porém, a despeito dos desejos juvenis, uma onda se levanta, para tentar coibir o que seria direito de toda a população.

Hoje, a Cidade Baixa é um caldeirão de estilos: jovens e adultos buscam seu espaço | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Na contramão da vida noturna, a especulação imobiliária tomou os espaços historicamente juvenis, como o Olaria, recentemente “reformado” por uma das grandes construtoras que, aos poucos, descaracterizam cada vez mais nossa cidade, substituindo prédios históricos e patrimônios culturais por imensos caixotes de cimento queimado e vidro – sem o menor resquício de alma ou de história.

A prefeitura, cada vez mais inclinada a reduzir a ‘área de lazer da cidade’ ao Quarto Distrito, estimula o estabelecimento de uma cultura de repetição, que nos dá em todos os bares o mesmo estilo. É a padronização do lazer. A elitização de um movimento que deveria ser diverso e plural.

Antigo Ossip, na esquina da República com a João Alfredo | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

O local, em si, pode até ser interessante, mas não é acessível, não é público e se assemelha, cada vez mais, com o famoso ‘mais do mesmo.’ Como se ‘cultura’ fosse algo a ser segregado, engessado, servida enlatada. Como se a vida seguisse sempre a mesma receita.

A vida na Cidade Baixa ainda pulsa, efusiva. É preciso ter a sensibilidade de perceber que estar nas ruas é ser parte integrante do território, constituindo a dinâmica local e sendo influenciado por ele.

Rua Joaquim Nabuco, com suas cores e diversidade | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Não é possível, contudo, tirar a razão de quem se incomoda com as consequências da alta densidade de pessoas nos locais. Ao amanhecer, a pegada humana é inegável.

O cheiro de urina exala das calçadas, quilos de lixo se acumulam pelas ruas. É desagradável e triste, e exige providências diárias de moradores e comerciantes da Cidade Baixa.

Porém, o ponto focal não deve ser a disputa entre cada parcela de cidadãos que ocupam aquele espaço, mas sim, quem deveria se responsabilizar pelo zelo do lugar. Sim, a gestão pública. É sobre ela que devem recair as cobranças de ajuste ao movimento que acontece.

Travessa Venezianos lotada nas noites de sábado | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Sendo a Cidade Baixa um espaço de grande circulação de pessoas, ela exige uma demanda maior por manutenção. Segurança, mobilidade, silêncio, limpeza urbana.

E se, ao invés de termos a Brigada Militar em peso, expulsando a população de maneira truculenta durante a madrugada, tivéssemos um aporte maior em segurança? Teríamos ainda o medo de andar pelas ruas da CB na madrugada?

A juventude tem direto a ocupar seus espaços com sua espontaneidade | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

E se ao contrário de ter os bares sistematicamente fechados e impedidos de funcionar por conta de alvarás que são caros e difíceis de obter, tivéssemos um incentivo fiscal às casas noturnas para que implementassem isolamento acústico? Teríamos ainda vizinhos incomodados com o barulho de música alta nas ruas?

Travessa Venezianos, Cidade Baixa | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

E se incentivássemos o uso da bicicleta, propondo ciclovias iluminadas e funcionais para acessar a CB? Se restringirmos a circulação de automóveis pela Cidade Baixa nos dias de maior movimento, a exemplo da Holanda – onde nosso prefeito foi, inclusive, buscar referências. Teríamos ainda problemas de engarrafamento nesses espaços? Caberia até uma política pública, como uma espécie de ‘ingresso solidário’ para quem for de bicicleta. Menos barulho, menos poluição, mais qualidade de vida.

Cidade Baixa, o lugar onde todas as ‘tribos’ se encontram | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Se tivéssemos banheiros públicos, otimização da limpeza urbana, um cuidado genuíno para o espaço que acolhe, organicamente, tanta vida, não estaríamos habitando uma cidade que valoriza sua cultura de maneira plural, responsável e abrangente?

Um meio-termo razoável que mantém a vida acontecendo nas noites da CB e, em última análise, fomenta a economia.

A Cidade Baixa é um espaço para todas as idades | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Lamentavelmente, ainda é preciso defender a cultura – e o direito ao espaço público – através do viés econômico, pois o ganho imaterial dos movimentos culturais nunca é contabilizado no orçamento.

Porto Alegre tem, em sua geografia e em sua história, potencial para ser uma grande propulsora da cultura e, assim como Belo Horizonte (que teve em 2026 o terceiro maior carnaval de rua do Brasil) transformar o que é hoje um terreno de disputas, em uma grande vantagem cultural e financeira.

É preciso defender a cultura e o direito ao espaço público | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero

Na falta de uma visão estratégica e de competência da gestão pública, nossa cidade agoniza, tentando manter viva uma cultura boêmia que, cada vez mais, respira por aparelhos. Mas ainda respira. E ainda, à céu aberto.

Para nossa sorte, a juventude sempre esteve na rua. E sempre vai estar.

Para nossa sorte, a juventude sempre esteve na rua. E sempre vai estar | Crédito: Clarissa Londero | Crédito: Clarissa Londero
Editado por: Katia Marko

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