MULHERES & TRABALHO

Dia das Trabalhadoras Domésticas (27) mobiliza categoria na Paraíba e reforça luta por direitos ainda negados

Ato em João Pessoa denuncia informalidade e dificuldades na efetivação de garantias legais

No audio source provided.
Panfletagem na CBTU marca mobilização e denuncia informalidade no setor
Panfletagem na CBTU marca mobilização e denuncia informalidade no setor | Crédito: Marcos Freitas

Na manhã desta segunda-feira (27), o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Paraíba (@sindicatodomesticaspb) realizou uma mobilização em frente à estação da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), em João Pessoa, em alusão ao Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas. A atividade teve início por volta das 5h30 da manhã e contou com panfletagem em trens e ônibus que transportam trabalhadores da região metropolitana, com o objetivo de conscientizar a categoria sobre seus direitos e denunciar a persistência da informalidade no setor.

A ação integra um calendário anual de mobilizações da entidade e ocorre em uma data simbólica para a categoria. O Dia das Trabalhadoras Domésticas é celebrado em 27 de abril, em referência a Santa Zita, considerada padroeira da profissão. Apesar do caráter comemorativo, a data também é marcada por reivindicações históricas por melhores condições de trabalho.

Ato do 27 de Abril – Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica | Crédito: Marcos Freitas

Mobilização nas primeiras horas do dia

De acordo com a presidenta do sindicato, Glória Rejane, a escolha do horário da mobilização acompanha a rotina da categoria, buscando alcançar trabalhadoras que saem cedo de casa em direção aos empregos.

Ato do 27 de Abril – Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica | Crédito: Marcos Freitas

“Neste 27 de abril, nós realizamos uma grande panfletagem na CBTU, onde circulam trabalhadoras de Cabedelo, Santa Rita e João Pessoa. Nós começamos desde 5h30 da manhã, dialogando diretamente com essas mulheres, explicando os direitos que elas possuem e alertando sobre as situações de exploração que ainda persistem. Essa é uma ação tradicional do sindicato, que acontece todos os anos, e que reafirma a necessidade de organização coletiva para garantir conquistas”, afirmou.

A dirigente também informou que novas atividades devem ocorrer nos próximos dias, com data ainda imprevista.

Ato do 27 de abril – Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica | Crédito: Marcos Freitas

Direitos conquistados e desafios persistentes

Durante a mobilização, um dos principais pontos abordados foi a dificuldade de efetivar direitos já garantidos em lei. A chamada “PEC das Domésticas”, promulgada em 2013 e regulamentada em 2015, ampliou direitos trabalhistas como FGTS, jornada definida e seguro-desemprego.

No entanto, segundo Glória Rejane, a realidade ainda está distante do que prevê a legislação.

“Com a PEC das Domésticas vieram vários direitos que nós não tínhamos, como o FGTS, a definição da jornada de trabalho e o seguro-desemprego, que mesmo sendo limitado, passou a existir. Porém, o grande desafio é fazer com que esses direitos sejam respeitados no dia a dia. A informalidade ainda é muito grande e muitos empregadores não registram as trabalhadoras, o que impede o acesso a esses benefícios”, declarou.

Ato do 27 de Abril – Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica | Crédito: Marcos Freitas

Ela também destacou práticas que, segundo o sindicato, contribuem para a precarização das relações de trabalho.

“Existem situações em que as trabalhadoras são incentivadas a se formalizar como microempreendedoras individuais, o que retira delas direitos trabalhistas básicos. Isso cria uma falsa autonomia, mas na prática mantém a relação de subordinação sem as garantias legais. É um cenário que dificulta o avanço da categoria e mantém muitas mulheres em situação de vulnerabilidade”, acrescentou.

Informalidade e desigualdade estrutural

Dados nacionais reforçam o diagnóstico apresentado pelo sindicato. Segundo informações do Ministério do Trabalho e Emprego, grande parte das trabalhadoras domésticas ainda atua na informalidade e enfrenta condições precárias, incluindo casos de trabalho análogo à escravidão.

Levantamentos baseados na PNAD Contínua indicam que mais de seis milhões de pessoas exercem trabalho doméstico remunerado no Brasil, sendo a maioria mulheres e, em grande parte, mulheres negras. Além disso, mais de 70% dessas profissionais não possuem carteira assinada, o que limita o acesso a direitos como FGTS, férias e aposentadoria.

Organização coletiva e resistência

Para o sindicato, a mobilização do dia 27 também reforça o papel da organização coletiva na conquista de direitos. A categoria historicamente esteve à margem da legislação trabalhista e só obteve regulamentação mais ampla nas últimas décadas.

Durante a atividade, materiais distribuídos destacavam a importância da união das trabalhadoras. Um dos trechos da campanha afirma que “nenhum direito veio de graça” e que a mobilização continua sendo essencial para enfrentar os desafios atuais.

“Todos os dias garantimos o cuidado, a limpeza e a vida acontecendo. Nossa história mostra que foi na organização que conquistamos cada avanço. Agora é hora de estarmos juntas mais uma vez, porque sem o trabalho doméstico o Brasil não funciona”, destaca o material divulgado pela entidade.

Panfleto | Crédito: Marcos Freitas
Panfleto | Crédito: Marcos Freitas

Contexto nacional e histórico da categoria

No Brasil, o trabalho doméstico é uma das principais ocupações femininas e possui raízes históricas ligadas à escravidão e às desigualdades sociais. A profissão foi regulamentada pela Lei nº 5.859, de 1978, mas apenas com a Emenda Constitucional nº 72 (2013) e sua regulamentação posterior houve equiparação mais ampla de direitos em relação a outras categorias.

Ato do 27 de abril – Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica | Crédito: Marcos Freitas

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil está entre os países com maior número de trabalhadores domésticos no mundo, com milhões de pessoas atuando na área. Apesar dos avanços legais, a informalidade, a baixa remuneração e as desigualdades de gênero e raça continuam sendo desafios estruturais.

A OIT aponta que o reconhecimento do trabalho doméstico como parte essencial da economia do cuidado é fundamental para a formulação de políticas públicas que garantam dignidade e proteção social às trabalhadoras.

Editado por: Cida Alves

|

Newsletter